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(A) :: Portugal está a perder a corrida que segura a economia mundial

Portugal está a perder a corrida que segura a economia mundial

Portugal, em particular, reúne quase todos os traços das economias que o FMI identifica como vulneráveis.

Álvaro Rocha
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Há uma palavra que os economistas voltaram a pôr na moda: divergência. Não é nova, mas raramente foi tão literal. Reunidos esta semana em Banguecoque, o FMI e o Banco Mundial pintaram um retrato curioso da economia mundial. O crescimento global resiste nos 3,1%, apesar de uma guerra no Golfo que já vai no oitavo mês e de um choque energético que encareceu tudo, do combustível ao cabaz alimentar. O que segura o número não é a paz nem a prudência. É a inteligência artificial.

O mecanismo é simples. De um lado, a guerra funciona como um travão. Do outro, o investimento colossal em centros de dados, chips e servidores funciona como um acelerador. Os dois anulam-se nas médias, e as médias dão boas manchetes. O problema é que ninguém vive numa média.

Quem está a ganhar? Quem fabrica as pás e as picaretas desta corrida ao ouro. A Coreia do Sul, Taiwan, a Malásia e a Tailândia superaram as previsões do FMI por margens que, noutros tempos, levariam a suspeitar de erro estatístico. Os Estados Unidos e a China, donos dos modelos e das plataformas, juntam-se ao clube. Para estas economias, a guerra é um incómodo. Para as outras, é a notícia principal.

E as outras somos, em grande medida, nós. A Europa importa energia, não fabrica os semicondutores que interessam e não alberga as empresas que definem o setor. Portugal, em particular, reúne quase todos os traços das economias que o FMI identifica como vulneráveis. Dependemos de energia importada, temos uma estrutura produtiva assente no turismo e nos serviços e uma presença marginal na cadeia de valor da IA. Estamos, para usar a imagem da Moody’s, no braço descendente do K.

Seria fácil concluir que a solução passa por apanhar o comboio a qualquer custo, com subsídios a centros de dados, planos nacionais com nomes ambiciosos e conferências com muitos painéis. Mas convém olhar para o outro lado da moeda. A própria diretora do FMI avisou que a construção de infraestruturas de IA é inflacionária e que o boom pode estar a ser sobrevalorizado no curto prazo. Os países que hoje são protegidos pela IA são precisamente os que mais têm a perder se as expectativas dos investidores se revelarem exageradas. A proteção de hoje pode ser a exposição de amanhã.

Isto não é um convite à resignação. É um convite a escolher bem onde competir. Portugal não vai produzir chips de vanguarda nem rivalizar com os gigantes americanos nos modelos de linguagem. Pode, isso sim, oferecer o que este boom consome em quantidades crescentes: energia renovável abundante, ligações por cabo submarino e localização atlântica. Os projetos de centros de dados em Sines mostram que há procura. A questão é se o país saberá transformar essa procura em valor acrescentado, em emprego qualificado e em empresas próprias, ou se ficará apenas com a fatura da eletricidade e os terrenos ocupados.

Há ainda uma lição mais desconfortável. Durante décadas, a Europa convenceu-se de que a regulação seria a sua vantagem competitiva na tecnologia. Regulámos primeiro e investimos depois, quando investimos. O resultado está à vista nos números do FMI: quem constrói colhe os ganhos, e quem regula assiste.

O K não é um destino. As economias mudam de braço, para cima e para baixo, consoante as escolhas que fazem. Mas, enquanto a discussão pública em Portugal se gastar em debates sobre se a IA nos vai roubar empregos, outros estão a decidir quem vai ficar com eles. O preço da distração, desta vez, paga-se em pontos percentuais de crescimento.