No final de setembro, Nova Iorque foi palco de um encontro que não acontecia desde janeiro de 2022. Quase cinco anos depois da última reunião — que aconteceu semanas antes da invasão da Ucrânia — um ministro dos Negócios Estrangeiros alemão sentou-se à mesa com o homólogo russo, Sergey Lavrov. Para justificar a disponibilidade para se sentar com um dos principais rostos do regime de Putin, Johann Wadephul invocou razões de segurança, relacionadas com a guerra híbrida, e económicas, ligadas à exportação de combustível e alimentos. Mas, em Berlim, também poderá ter sido feito um cálculo político.
O encontro aconteceu na sequência de duas derrotas do partido do chanceler Friedrich Merz para a Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão) em duas eleições regionais. Entre os muitos tópicos que distanciam a extrema-direita dos conservadores, conta-se a política externa, mais precisamente a posição face à Rússia, à Ucrânia e à guerra que se prolonga em território ucraniano. Enquanto a CDU se tem mostrado irredutível no apoio a Kiev, a líder da AfD, Alice Weidel, tem deixado claro que, caso chegue ao Governo, esse apoio chegaria ao fim.

O encontro com Lavrov e as recentes declarações de Merz sobre um fim negociado para a guerra são, portanto, “uma reação direta ao sentimento popular em mudança no país”, relataram responsáveis alemães ouvidos pelo Wall Street Journal. Um olhar mais amplo sobre a Europa permite perceber que este não é um problema exclusivo da Alemanha: um pouco por todo o continente, a mudança da opinião pública em relação à guerra na Ucrânia ajudou a alimentar, em parte, a ascensão dos partidos de extrema-direita. É aqui que o problema se torna mais complexo.
Ainda que pertença ao mesmo espectro político e tenham beneficiado de formas mais ou menos semelhantes desta evolução, a extrema-direita europeia está longe de ter uma posição uniforme em relação ao tema. Pelo contrário: nenhum outro espectro político europeu tem uma diversidade tão grande de posições sobre a Rússia, que vão desde a condenação assertiva à aproximação estratégica. A dissonância reflete-se na diversidade de partidos europeus da direita radical no Parlamento Europeu e parece impedir uma ação coordenada destas forças a nível da União Europeia (UE).
“War fatigue” e efeito Trump. A guerra na Ucrânia ajudou o crescimento da extrema-direita
“War fatigue“. Traduzido em português como “cansaço de guerra”, é este o conceito utilizado pelos especialistas para descrever a saturação da opinião pública em relação a um dado conflito. Num artigo de janeiro de 2026, os académicos Adam Holesch, Piotr Zagórski e Aron Buzogány utilizam-no para se referirem especificamente à “exaustão decorrente do apoio indireto prolongado à Ucrânia” que se faz sentir em muitos países europeus.
Um inquérito da YouGov do início do ano reflete esse mesmo sentimento: em relação ao início do conflito, a empresa de sondagens registou uma queda em vários países europeus do número de pessoas que responderam que queriam que a Ucrânia ganhasse a guerra e que defendiam o apoio militar à Ucrânia. No sentido inverso, cresceu o número de pessoas que preferiam “uma paz negociada mesmo que isso signifique que a Rússia mantém controlo sobre algumas partes da Ucrânia”.
Neste cenário, “a politização da guerra da Ucrânia tornou-se um recurso estratégico para atores de extrema-direita que simpatizam com a Rússia capitalizarem o crescente cansaço de guerra para contestar o apoio das instituições nacionais e europeias”, escrevem os três académicos, que analisaram o sentido de voto dos partidos de extrema-direita com assento em Estrasburgo ao longo de 65 votações, entre 2019 e 2025. A análise permitiu detetar divisões entre os diferentes grupos, mas também uma evolução dentro de cada partido.
Esta evolução não é aleatória, mas antes uma “recalibração estratégica“, aponta o investigador responsável, Adam Holesch. Ou seja, as posições dos partidos de extrema-direita sobre a guerra na Ucrânia acompanham as evoluções da opinião pública sobre o tema. Em alturas de insatisfação, os partidos criticam a mobilização de recursos nacionais para apoiar a Ucrânia, defendendo que esses mesmos recursos deveriam ser utilizados para fazer frente aos desafios que os seus eleitores destacam como prioritários, como o combate à imigração, o elevado custo de vida ou o acesso à saúde.

Alice Weidel, da AfD, classifica esta abordagem como “Alemanha primeiro”. O lema é retirado diretamente dos Estados Unidos, da campanha de Donald Trump. Mas este não é o único impacto do aliado do outro lado do Atlântico neste crescimento. Pelo contrário, o regresso do republicano à Casa Branca em 2025 acelerou os sentimentos negativos da opinião pública europeia quanto à guerra.
“O consequente congelamento da ajuda elevou os custos da ajuda à Ucrânia dos governos europeus, fazendo a vitória ucraniana parecer menos provável e ajudando a direita radical”, escreveu Benjamin Martill, professor de relações internacionais na Universidade de Edimburgo, num artigo de análise com Adam Holesch. Em outubro de 2026, esta realidade volta a ser mais evidente: no espaço de uma semana, Trump levantou as sanções sobre o gasóleo russo, permitindo a sua importação numa tentativa de fazer descer os preços do combustível, e voltou a atacar Volodymyr Zelensky, atirando novamente para a Europa a responsabilidade de apoiar Kiev.
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A aproximação italiana, a dureza alemã e o meio caminho francês
A relação entre os partidos de extrema-direita europeus e a Rússia de Vladimir Putin não é um fenómeno novo. Ainda antes da questão do apoio militar à Ucrânia, já as forças mais à direita encontravam afinidades com o regime de Moscovo. “Populistas e nativistas partilham as visões ‘anti-woke’ do Presidente Vladimir Putin, fazendo campanha contra o alegado apagamento civilizacional causado pela migração sem restrições e lutando pela restrição dos temas verdes e [relacionados com a comunidade] LGBTQ”, escreve Dimitar Bechev, analista do Carnegie Endowment for International Peace.

A invasão da Ucrânia veio, ainda assim, agitar esta relação, levando alguns partidos da direita radical a assumir uma posição mais crítica. O exemplo mais evidente é o de Giorgia Meloni, primeira-ministra italiana. Ainda como deputada da oposição, meses antes da sua eleição em 2022, já a líder da direita conservadora criticava a invasão. Chegada ao poder, a rejeição da Rússia transformou-se num apoio declarado e firme à Ucrânia.
Na semana passada, Meloni criticou a decisão de Donald Trump relativamente ao gasóleo russo, que classificou como “arriscada”. “Legitima Moscovo enquanto as suas bombas continuam a cair nas cidades ucranianas”, elaborou, na véspera do Conselho Europeu. A posição é bem-vinda na Ucrânia, mas responsáveis ucranianos reconhecem, ao Telegraph, uma equação política por detrás da mudança de direção: o apoio a Kiev, dizem, foi o preço a pagar por “influência junto do núcleo duro das decisões europeias”. A posição preponderante de Meloni na UE mostra que a aposta foi acertada.

Outro partido que também alterou a sua posição foi a União Nacional (RN, na sigla em francês) de Marine Le Pen e Jordan Bardella. Em 2022, antes da invasão da Ucrânia, Le Pen utilizava uma fotografia ao lado de Putin para sublinhar o seu “estatuto internacional” na campanha ao Eliseu. Agora, novamente em campanha, Le Pen condena abertamente as “provocações, operações clandestinas e ações desestabilizadoras da Rússia”, referindo-se à guerra híbrida. Contudo, ao contrário de Meloni, a condenação de Moscovo não equivale a um apoio a Kiev.
Também na semana passada, a candidata presidencial francesa declarou que, caso seja eleita, o financiamento à Ucrânia só duraria mais seis meses. “O financiamento vai parar, é uma questão de honestidade dizer [aos ucranianos] a verdade”, desculpava-se, apontando ao estado das finanças francesas. Recorrendo sempre ao argumento económico, são muitas outras as promessas da líder da RN relativamente ao conflito: o levantamento das sanções à Rússia, o bloqueio da adesão de Kiev à UE e o fim do envio de armas ofensivas.
As mesmas medidas são defendidas por Alice Weidel, mas o argumento utilizado é bem mais duro contra Kiev. “Acho que é errado continuar a financiar uma guerra que já está perdida. A Ucrânia, infelizmente, é demasiado pequena. A Ucrânia não pode vencer a Rússia. É impossível”, afirmou na semana passada em entrevista à The Economist.
Ao contrário de Le Pen e Meloni, a líder da extrema-direita alemã mostra-se irredutível e defende mesmo o reatar das relações plenas com a Rússia. “A AfD é uma exceção. Mantém as suas posições extremas e essa estratégia está a funcionar”, aponta Dimitar Bechev, num artigo de análise escrito já depois das duas vitórias eleitorais do partido. Frank Furedi, do think tank Freedom and Sovereignty Initiative, resume ao The Telegraph o espectro das posições da direita: “Meloni adotou uma robusta posição pró-Ucrânia, enquanto Weidel é mais favorável a reforjar laços com a Rússia. Le Pen escolheu um caminho intermédio”.
Mesmo dividida, eclosão da extrema-direita já ajuda Moscovo
A divisão das forças europeias mais à direita (o que inclui forças tanto da extrema-direita como da direita conservadora e populista) em três blocos não é apenas visível na posição das três líderes mais mediáticas anteriormente analisadas. Antes, reflete-se de forma muito clara nas famílias europeias que se sentam em Estrasburgo — e que os respetivos partidos integram. Os Fratelli d’Italia de Meloni sentam-se com o ECR (Conservadores e Reformistas). A União Nacional de Le Pen é membro fundador dos Patriotas pela Europa. Já a AfD alinha com a ESN (Europa das Nações Soberanas).

Na investigação de Adam Holesch, Piotr Zagórski e Aron Buzogány anteriormente mencionada, os analistas olham precisamente para a direção de voto de todos os partidos que integram estas famílias e traçam um “Índice de Assertividade face à Rússia”. Desde 2024, os partidos mais “assertivos” face à Rússia são os Democratas Suecos, o Ordem e Justiça polaco e o True Finns, da Finlândia — todos eles membros do ECR. O Fratelli d’Italia aparece na quinta posição.
A meio da tabela, aparecem os membros dos Patriotas, entre eles o Chega. O partido português, a par com o Reconquête francês e o AUR romeno, mostra “um comportamento que não é consistente nem com o grupo verdadeiramente assertivo ou com o campo amigável face à Rússia e pode por isso ser considerado como neutro”, escrevem os investigadores. Entre os partidos menos assertivos contam-se a AfD e o SDP checo e, fugindo à regra, o Solução Grega do ECR e o Fidesz da Hungria, que integra os Patriotas. O olhar sobre as famílias europeias é relevante, destacam os especialistas, porque permite explicar mudanças na direção de voto. O Vox de Espanha, por exemplo, tem adotado uma posição muito menos crítica da Rússia desde que passou do ECR para os Patriotas em 2024.
As divisões internas são facilmente explicadas com o quadro nacional: Polónia, Suécia e Finlândia (assim como outros países bálticos), por exemplo, sentem-se diretamente ameaçados pela Rússia e a sua posição face a Moscovo é muito mais dura, enquanto países onde os desafios económicos têm sido mais gritantes têm posições mais neutras ou até permissivas. Mas essa mesma divisão coloca em xeque a capacidade de a extrema-direita se assumir como a maior força política da UE e condicionar — ou mesmo dirigir — a política comunitária. A matemática é simples: se os três grupos se reunissem num só, teriam 195 lugares no Parlamento Europeu, mais sete que o Partido Popular Europeu (PPE), que é atualmente o maior grupo no hemiciclo.
Porém, os autores da investigação destacam que estas posições são mutáveis, sugerindo que um arrastar da guerra pode atirar os partidos europeus ainda mais para os braços da Rússia. O exemplo mais evidente de mudança é a RN que se continua a debater com convulsões e debates internos no que toca à sua política externa. Neste caso, os responsáveis ucranianos ouvidos pelo The Telegraph arriscam ter esperança e levantam uma possibilidade: a de Marine Le Pen — se conseguir, como as sondagens apontam, tornar-se Presidente — empreender um caminho de moderação semelhante ao de Meloni, de forma a manter margem de manobra no espaço europeu.
Apesar de todas as divisões, o eclodir destes espaços políticos à direita pode ser, em si mesmo, uma vitória para Moscovo, argumenta o analista Dimitar Bechev. “Podem não ser amigos de Putin. Podem até falhar em encaminhar a política da UE na direção que a Rússia quer. Mas vão criar caos suficiente na Europa para neutralizar qualquer ambição geopolítica que eles possam ter. Esse não é certamente um mau resultado na perspetiva do Kremlin”, remata.