Confesso que fiquei algo assustado quando anunciaram o concerto – que me lembre apenas Dylan e os Beatles tocaram no Carnegie Hall mais cedo do que Cameron Winter, e mesmo esses já tinham mais discos na bagagem. Comecei a imaginar o povo das redes a acusá-lo de arrogância e mitomania e mais ainda quando soube que Paul Thomas Anderson filmaria a atuação.
Comecei a imaginar que Winter levaria com todo o ódio do mundo. O seu primeiro disco a solo, Heavy Metal, era completamente inusitado – parecia um compêndio de toda a folk de câmara ou psicadélica alguma vez feita, evocando tanto Van Morrison ou a The Band, mas soando urgente e atual. Era impossível não sentir ternura por aquela voz que cantava “Love takes miles”.
O passo seguinte, um novo disco da sua banda de sempre, os Geese, pareceu tão impossível quanto extraordinário – um disco que percorria a história do rock, desde a sua facção mais explosiva até ao seu lado mais doce, sem deixar de experimentar com sub-génericos, como a motorika alemã dos anos 70 e até suaves alusões ao funk.
Os Geese, no dia anterior ao lançamento do disco, eram uma banda engraçada, que lançara um par de álbuns, e cujo vocalista era um tipo de olhos esbugalhados que parecia não ser deste mundo e dava as mais estranhas (e possivelmente mentirosas) entrevistas. Um ano depois do ao lançamento dessas canções, são a mais importante banda de rock’n’roll, mais não seja porque ocuparam um arquétipo que estava vazio: o de pessoas que fazem rock sério e simultaneamente apelativo.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/5FjFRlo7diqzHNpVz5wJCt?si=3a60c60eebe04a27
A geração do meu filho, por exemplo, nunca tinha visto isto tal coisa. A minha sim, mas nem disso estou certo. Quando eu era garoto, não havia redes sociais, não tínhamos vídeos dos concertos, não sabíamos nada dos músicos, a presença deles era, em grande parte, a ausência de factos conhecidos sobre eles. E na altura não havia digressões nem festivais como agora – quando os Pavement estavam na sua primeira encarnação, era quase impossível vê-los. Talvez por isso, para uma parte da minha geração, os Geese tornaram-se a primeira banda cuja explosão conseguimos realmente seguir em tempo real. Podemos ver o baterista a comer ramen – isto nunca aconteceu com Kurt Cobain.
Voltando ao assunto destes parágrafos: o meu maior medo era, no entanto, do ódio que achei que Cameron levaria nas redes. Estava certo que milhares diriam “Mas isto não é sempre a mesma canção?”. Enfim, não foram milhares que o disseram, mas foram muitos. E disseram-no por falta de informação, coitados. Live at Carnegie Hall é todo ao piano; Winter só tem um disco a solo, que soa como se ele estivesse a tocar guitarra ou piano na parte de trás de uma carrinha de caixa aberta, acompanhado pelos animais da quinta na sanfona, no acordeão e no violino.
Ora, uma nota musical é uma frequência; o que distingue a mesma nota ao piano e à guitarra é o número de harmónicos (como que segundas ondas da nota) que cada instrumento produz; quando se pega em canções que tinham sete ou oito instrumentos e se as toca todas só ao piano, o que se está a fazer é a reduzir a gama tímbrica das canções e, por consequência, do disco. As canções continuam a ter notas dominantes diferentes (e mudanças), mas estão todas dentro de um determinado espectro de frequência.
Ufa, já passou. Mas é aqui que reside o génio de Live at Carnegie Hall. É aqui que se gera história. É assim se fazem momentos únicos. Não porque isto nunca tenha sido feito – Jorge Palma fê-lo em Só, John Cale em Fragments of a Rainy Season; mas porque o radicalismo do gesto de Winter compensa largamente em comoção.
Live at Carnegie Hall é composto por cinco canções que não faziam parte de Heavy Metal: It All Fell in the River, Emperor XIII in Shades e If You Turn Back Now são inéditas, Take It With You e Vines fazem parte do single duplo Singles (2024), que eu nunca tinha ouvido. Tenho desenvolvido as mais estranhas combinações de escuta de Carnegie Hall: primeiro ouço as duas primeiras, It All Fell in the River e Try as I may (que está em Heavy Metal); é como se estivesse a ouvir Nina Simone no momento em que a descobriram; tenho dificuldade em sair desta sequência de duas canções sem chorar.
Depois vou ouvir as inéditas e depois as do single de 2024. E depois começo a comparar as canções de Heavy Metal com o original e salto entre um disco e outro – primeiro as mais conhecidas, depois as menos conhecidas e que agora ganham lugar no meu coração. Ele não gravou Nausica no disco ao vivo. Quem é que deixa a sua melhor canção de fora? Exato: Dylan, é mesmo isso.
De certa maneira, Cameron faz a mesma coisa em todas as canções: na impossibilidade de reproduzir num só instrumento os 7 ou 8 usados em Heavy Metal, ele dedica-se a descobrir qual a melhor combinação de mão esquerda (ritmo) e direita (melodia) para cada canção – isto implica, em alguns casos, mudar radicalmente os originais, alterar tempos, mudar melodias, não gritar onde se gritava, subir onde antes era planície.
https://www.youtube.com/watch?v=E8olY56RpkU
E é aí que assoma esse instrumento divino – a voz de Cameron. Ele é novo e ainda não vai aos graves com a facilidade de um Cohen ou um Waits na meia idade, mas minha nossa o que ele faz à voz para ir buscar cada emoção possível. É-me impossível chegar ao fim de Try as I may sem sentir que preciso de recomeçar a minha vida toda: ele canta “Try as I may / I still fight for you” e eu só quero ainda ter esse coração ou, na falta de coração, emprestar o meu ombro a Cameron.
Em The Rolling Stones ele canta “Like Brian Jones / I was born to swim”. Brian Jones era o fundador dos Rolling Stones que foi encontrado morto na piscina. A primeira vez que ouvi a canção pensei que era uma tirada de um puto esperto que sabe de história da música e tem lábia e lata. E só agora me ocorreu: e se Brian Jones tiver mesmo nascido para nadar e mesmo assim tiver morrido afogado? De repente a canção ganha um peso extra.
Outras pessoas dir-vos-ão que isto não é nada de especial, que é só um bacano ao piano, que ele nem sequer tem uma mão esquerda assim tão boa. Não contem comigo para isso – eu estou do lado dos que dizem que estamos a assistir à História no exato instante em que ela é escrita.
Ele canta “Lonely as hell, walking around / without moving, baby / I’m not here”. Cameron Winter não está aqui. É sempre assim: os melhores nunca estão aqui. Já estiveram e já partiram e nunca conseguimos estar com eles na sala muito tempo. Cameron Winter não está aqui, mas Live at Carnegie Hall estará para sempre. Mostrem-no aos vossos filhos, aos vossos amigos, ouçam-no ao lado de quem mais amam e se não amam ninguém então saiam por aí à procura porque a beleza tem de ser partilhada. Que coisa mais bela pode haver senão sermos esmagados em conjunto?