(c) 2023 am|dev

(A) :: A geometria do colapso: habitação, contrato social e o limiar da rutura política

A geometria do colapso: habitação, contrato social e o limiar da rutura política

A paz social em Portugal é um ativo demasiado valioso para ser queimado no altar do calculismo político ou da fúria desgovernada.

Sérgio Guerreiro
text

A política, no seu sentido mais nobre e prático, não é a arte da retórica ideológica ou da gestão de comunicação de crise: é a arte de garantir a reprodutibilidade da vida em comunidade. Quando Aristóteles definiu a política como a busca do bem comum na polis, não o fez num vácuo percetivo. Ele sabia que sem segurança, sem pão e sem abrigo, a comunidade política dissolve-se e resta apenas a luta pela sobrevivência. Na filosofia prática de Thomas Hobbes a John Locke, a premissa é a mesma: os cidadãos cedem parte da sua liberdade e cumprem as regras sociais em troca da proteção dos seus direitos fundamentais.

Em Portugal, esse contrato social está a ser violado num dos seus pilares mais elementares: a habitação.
O problema deixou de ser uma mera discrepância entre a oferta e a procura no mercado imobiliário para se converter numa crise de regime e de coesão social. Quando um jovem trabalhador, um casal de classe média ou um idoso percebem que o seu rendimento honesto já não garante um teto digno, a promessa democrática quebra-se. A habitação deixou de ser uma infraestrutura básica de estabilidade individual e familiar para se transformar no principal motor de desigualdade e de fratura geracional.

Sob a perspetiva política e social, o cenário atual carrega todos os ingredientes de um curto-circuito institucional. As bombas sociais raramente explodem por geração espontânea; são construídas metodicamente por três fatores interligados:

1. A inércia e a cegueira do poder

O poder político, em sucessivas governações, optou por uma mistura perigosa de dogmatismo ideológico, desregulamentação desregrada e lentidão burocrática. A resposta pública tem sido cronicamente reativa, traduzida em anúncios de pacotes legislativos que demoram anos a produzir efeitos práticos ou que ignoram a realidade económica do terreno. Esta incapacidade executiva gera um sentimento devastador no cidadão: o da inutilidade do Estado.

2. A captura populista da indignação

Quando as instituições democráticas falham em dar respostas concretas, o descontentamento não desaparece; acumula-se e procura novos canais de expressão. É no vácuo de soluções pragmáticas que prosperam as forças políticas que não procuram resolver o problema, mas instrumentalizar a raiva, dividindo a sociedade entre fações irreconciliáveis.

3. A tentação da rutura na rua

Do lado da sociedade, o desespero cria uma impaciência legítima, mas potencialmente perigosa. A manifestação é a linguagem da democracia em marcha; contudo, quando a contestação social descamba no desrespeito cego pelas normas de convivência ou na violência, o movimento perde a razão moral e dá ao poder político o pretexto perfeito para vitimizar o sistema e securitizar o conflito, em vez de resolver a causa primária.

Apaziguar a sociedade portuguesa não significa pedir-lhe que se cale, nem exigir que aceite resignadamente a degradação da sua qualidade de vida. Pelo contrário: apaziguar exige canalizar a indignação para a eficácia política.

Aos cidadãos e movimentos sociais cabe manter a exigência no patamar mais elevado da firmeza democrática e do civismo. A força de uma causa social mede-se pela sua capacidade de mobilizar consciências e constranger o poder através da razão e da adesão maioritária, não pela capacidade de gerar o caos urbano, que apenas afasta a classe média e divide a comunidade.

Ao poder político exige-se o abandono imediato da tática eleitoralista e da arrogância institucional. É necessário um compromisso pragmático de emergência nacional: desburocratização urgente, mobilização real do património imobiliário devoluto do Estado, incentivos fiscais claros à oferta de arrendamento acessível e coragem para intervir onde o mercado falha estruturalmente.

A paz social em Portugal é um ativo demasiado valioso para ser queimado no altar do calculismo político ou da fúria desgovernada. Se o poder político continuar a tratar a crise da habitação como uma fatalidade estatística e não como uma urgência nacional, acabará por aprender da pior forma que a estabilidade de um país não se decreta no Diário da República.