Quando teve a oportunidade de poder treinar o Sporting a meio da temporada de 2013/14, Nuno Lopes não pensou duas vezes. Foi por isso que mudou a sua vida? Também não. E, com o brio e resiliência de quem não podia ser mais feliz no que faz, marcava diariamente quase 200 quilómetros entre a sua casa, na Marinha Grande, e o Livramento, em Mafra, onde os leões tinham alocado o hóquei em patins enquanto o Pavilhão João Rocha não passava ainda de um projeto (a primeira pedra seria lançada em março de 2015). Uma vez, duas vezes, várias vezes. As que fossem necessárias para chegar a objetivos que até aí nunca tinha imaginado. Ganhou títulos nacionais, conseguiu títulos europeus. Agora, após várias voltas, é campeão mundial.
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“Não quero chorar, primeiro que tudo, porque não tenho energia para chorar… Mas acho que foi a vitória do sofrimento, a vitória do trabalho. Trabalhámos muito para isto, queríamos muito. Terminou no stick do Carlo [Di Benedetto], terminou na mão do Chambell. Acho que era importante viver este momento, devolver o hóquei a mais um país. É um dia para ficar para a história, já tínhamos feito história e fizemos outra vez”, comentou depois de ter levado a França ao primeiro título mundial da sua história, após vencer a Argentina no desempate por grandes penalidades, apenas um ano depois de ter alcançado também a final do Europeu.
“Felizmente aconteceu, é um sonho de uma vida. Eu ganhei uma Taça de Portugal pelo Sp. Tomar e dizia: ‘Não sei o que é ser campeão do mundo, mas será uma coisa semelhante’. Hoje digo que é semelhante, mas é uma coisa estratosférica. Campeão do mundo com a França, com o Pedro Chambell na baliza e a jogar com cinco… Para que todos saibam que é tudo possível, assim o grupo o permita fazer. Não há chavões e não há coisas feitas antes do tempo”, acrescentou, recordando o facto de, além do guarda-redes (filho de um antigo internacional português do Sporting, António Chambell), ter jogado apenas com cinco jogadores de campo nas meias-finais e na decisão, ao contrário dos restantes conjuntos que foram rodando oito elementos.
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Em paralelo com os sucessos nas pistas como técnico, que surgem com o trabalho de administrador de uma empresa, Nuno Lopes é também conhecido pela ligação ao mundo da música como baterista da banda Estado Sónico. “Cadeira de sonho só pode existir uma, ter uma banda de música era um sonho de criança que se concretizou na adolescência. As férias grandes da escola eram passadas a trabalhar para conseguir comprar uma bateria. A música e o hóquei andaram sempre à briga, mas para mim nunca houve dúvidas. O hóquei esteve sempre na frente de tudo, até da escola. Na hora da verdade o meu treinador sabia que o hóquei ganhava à música”, contou em entrevista ao Jornal de Leiria, recordando “feitos” da altura como a vitória num concurso de música moderna que foi feito na sua adolescência no Bar Ben, em Alcobaça.
Antes de ser treinador, Nuno Lopes, natural de Estremoz, começou na patinagem do clube da terra e ainda jogou aí nos infantis e nos iniciados, tendo depois mudado com a família para a Marinha Grande por causa do trabalho. Não deixou o hóquei, passando para o Sp. Marinhense antes de jogar ainda no Sport Leiria e Marrazes, no Turquel e na Associação Alcobacense, onde acumulou a vida de jogador e treinador. Como técnico, a sua vida continua a ser feita de… Sporting. Começou no Sporting Marinhense (clube mais modesto que ainda não conseguiu recuperar dos efeitos das tempestades que assolaram o país este ano), passou depois para o Sporting de Tomar, foi contratado em fevereiro de 2014 pelo Sporting… de Portugal.
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Numa primeira instância, Nuno Lopes conseguiu assegurar a permanência na Primeira Liga após suceder a Hugo Gaidão como treinador. Já em 2014/15, mesmo não tendo um plantel tão apetrechado como os grandes candidatos ao título, agarrou-se aos objetivos que podia concretizar e superou as expetativas, acabando em quinto do Campeonato mas chegando à Final Four da Taça de Portugal e ganhando sobretudo a Taça CERS, com um triunfo diante do Igualada no prolongamento e uma vitória na decisão com o Reus nos penáltis. Na temporada seguinte de 2015/16, o técnico começou com a conquista da Supertaça de Portugal frente ao Benfica, carimbando também o acesso à Liga dos Campeões ao terminar no top 4 do Campeonato.
Nuno Lopes acabou depois por passar para a equipa B e para a formação verde e branca, numa fase de total reformulação da secção de hóquei em patins para aspirar a voos mais altos (chegou Guillem Pérez, que em março de 2017 seria substituído por Paulo Freitas). Mais tarde, no início de 2019, o técnico entrou numa nova etapa do percurso, regressando a Tomar para liderar os seniores do Sporting local e conquistando uma Taça de Portugal em 2023 batendo na final após desempate por grandes penalidades… o Sporting. Sem sair dos nabantinos, Nuno Lopes passou a acumular funções com a seleção francesa no ano seguinte.
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Muito assente numa base constituída pelos três irmãos Di Benedetto, o treinador português conseguiu fazer de uma equipa de “família” uma potência capaz de discutir todos os títulos. Antes, a França tinha ido a uma final de Europeu (2021, derrota com Espanha no prolongamento); com Nuno Lopes, voltou a uma decisão do Campeonato da Europa (ganho por Portugal em Paredes por 4-1) e conquistou agora pela primeira vez o Mundial, derrotando Portugal nas meias-finais antes de voltar a bater a Argentina nos penáltis. Com outra particularidade: além de Carlo (do FC Porto), Roberto (do Benfica) e Bruno (da Oliveirense), também o pai do clã Di Benedetto faz parte do staff da seleção gaulesa, que foi ao Paraguai fazer história. E tudo com apenas três irmãos, mais dois jogadores (Marc Rouzé e Rémi Herman) e um guarda-redes (Pedro Chambell) a jogarem todos os 100 minutos que culminaram com a vitória na decisão em Assunção.