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(A) :: Os filhos dos Boomers

Os filhos dos Boomers

Não há bebés, não há coesão social e não há crescimento económico. Nestes protestos está, assim, em jogo também o futuro da democracia liberal. E não se revela risonho.

Patrícia Fernandes
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1 A ânsia por estatuto

Em The Status Game: On Human Life and How to Play It, Will Storr confronta-nos com uma dimensão inescapável da natureza humana:

“Estamos programados para procurar relações e estatuto social: para sermos acolhidos em grupos e conquistarmos prestígio no seio desses grupos”.

Isso significa que ansiamos por estatuto e tememos perdê-lo – o que condiciona o modo como vivemos e como nos comportamos socialmente. Muitos crimes são cometidos porque desejamos obter algum tipo de estatuto (em caso de furto ou fraude, por exemplo) ou porque sentimos que não fomos respeitados (a humilhação é um fator fundamental nos crimes violentos). É por essa razão que a coscuvilhice desempenhou (e desempenha) um papel tão importante nas sociedades humanas. E é por isso que tantas pessoas parecem dispostas a prescindir do princípio de igualdade formal em troca de políticas preferenciais ou de discriminação positiva: para garantir que certos grupos recebem mais consideração, e estatuto, do que outros.

Mas há um lado muito positivo nesta ânsia por estatuto: é ela que nos leva a ser criativos e inovadores, a fazer-nos querer superar metas e estabelecer novos limites e também a querermos ser virtuosos (a necessidade de sinalização de virtude com que somos bombardeados todos os dias não é mais do que isso: uma forma de adquirir um certo prestígio social).

E não há como escapar: todos o fazemos constantemente, de uma forma ou de outra – é a nossa natureza ultra-social, resultado de mecanismos adaptativos que aumentam as nossas possibilidades de sobrevivência. Mas obriga-nos a viver numa certa clausura: como o estatuto é fundamentalmente relacional, o nosso cérebro está constantemente a comparar-nos com todas as outras pessoas que fazem parte do nosso grupo.

É por essa razão que, como os estudos revelam, a satisfação com as nossas condições sociais e materiais não decorre de parâmetros objetivos, mas é sempre função daqueles que estão, socialmente, acima e abaixo de nós. É por isso que subir o salário mínimo pode ter efeitos objetivos positivos nas pessoas que beneficiam dessa subida, ao mesmo tempo que gera efeitos sociais negativos na classe imediatamente a seguir, que sente que aquela subida corresponde a uma desvalorização do seu estatuto. É também essa a razão pela qual chamar “ignorantes” ou “deploráveis” às pessoas que discordam de nós alimenta o laço emocional com o outro candidato, aquele que não nos humilha, e reforça o sentimento de pertença à nossa tribo. E é também a razão pela qual a expressão em língua inglesa “falling behind” [ficar para trás] é essencial para compreender os nossos dias.

2 “Falling behind”

Nas últimas semanas tenho tentado descrever um fenómeno com importância crescente nas democracias ocidentais (e até noutros sítios) que se tornou especialmente evidente com os protestos dos últimos dias: o uso da questão geracional como instrumento político. Talvez possamos fazer recuar o seu início àquele sombrio momento em que a jovem Greta Thunberg apresentou o seu discurso de ódio na ONU (perdão, obviamente no caso dela não se trata de discurso de ódio) e, embora tenha ficado um pouco soterrado nos anos seguintes com todo o wokismo da raça, regressou agora em força.

A comparação entre a posição económica dos Boomers com a das gerações mais novas continua a alimentar muitos artigos nos principais jornais da área económica, com detalhes que vão desde o consumo de abacate e cerveja artesanal (pequenos luxos dos Millenials mas que dão estatuto) ao facto de eles serem os beneficiários futuros das pequenas e grandes fortunas que neste momento invejam. Mas, como em tantas outras coisas, não adianta atirar factos para cima das gerações mais novas: eles simplesmente sentem que estão a ficar para trás, que estão a perder estatuto relativo.

Como defendi, as novas gerações têm efetivamente razões de queixa. Apesar de terem usufruído, e ainda usufruírem, de condições materiais e tecnológicas sem precedentes, as gerações mais novas foram alvo de várias experiências sociais únicas e prejudiciais: a desconstrução dos laços familiares e a desvalorização do compromisso, obrigações e sacrifícios que decorrem da família (mais sobre isto na próxima semana); regras de parentalidade gentil e fórmulas educativas permissivas; a sujeição a uma vida tecnológica; a destruição das comunidades nacionais e a quebra da lealdade comunitária que dá resposta às ânsias do nosso cérebro tribal; uma cultura centrada em direitos e revindicações que não os prepara para o trabalho, o sacrifício e os maus tempos que necessariamente virão (“the winter is coming” é, provavelmente, a melhor lição que podemos dar aos mais novos em qualquer altura da história).

Como não foram preparados para o inverno e o inverno parece estar a chegar, os mais novos sentem hoje que o estatuto de que pensavam beneficiar e que lhes ia garantir um conjunto de coisas – nomeadamente, de que a sua vida seria melhor do que a dos seus pais – está gradualmente a desaparecer.

3 O futuro da democracia liberal

A revolta parece, nesse sentido, inevitável: a sensação de perder estatuto, de nos sentirmos de certa forma humilhados ou desrespeitados quanto àquilo a que pensávamos ter direito, gera, naturalmente, reações. Mas é interessante notar como essa reação ganha forma a partir do vocabulário que os mais novos herdaram dos Boomers. Apelam, assim, às mesmas instituições, exigindo, nomeadamente, ao estado que resolva todos os seus problemas.

A filosofia da linguagem sempre o soube: estamos em certo sentido cativos da linguagem que dá forma ao nosso mundo e não é por isso surpreendente que estes jovens, vendo o sistema atual falhar, recorram ainda assim ao aparelho estatal para a resolução dos seus problemas. Muitas histórias antigas, como a do Robin dos Bosques ou do Guilherme Tell, ensinavam a desconfiança e a resistência perante o poder político – já no século XXI, reclama-se por mais estado numa contradição essencial: nunca como hoje se defendeu tanto espaço para a autonomia pessoal (do aborto e eutanásia ao “género”), mas simultaneamente parece insustentável que possamos trabalhar, ser bem-sucedidos ou simplesmente sobreviver sem a proteção do estado.

As propostas políticas mais populares entre os mais novos acabam, assim, por reforçar o vocabulário dos Boomers, exigindo uma intervenção ainda maior do estado – enquanto as condições que permitiram o estado do século XX desaparecem rapidamente: não há bebés, não há coesão social e não há crescimento económico. Nestes protestos está, assim, em jogo também o futuro da democracia liberal. E não se revela risonho.