A manifestação começou depois da hora marcada na Praça da Batalha, mas rapidamente chegou a outra praça da baixa portuense, que nos últimos dias tem sido a casa de muitos manifestantes que pernoitaram na rua para protestar contra o aumento dos preços da habitação. Este sábado, os jovens do movimento Acampada juntaram-se à marcha da CGTP. O palco não era deles, mas quando chegaram à Praça D. João I, ouviu-se um grande aplauso.
Com os braços erguidos, transportavam com eles uma tenda, símbolo maior dos seus protestos, com várias mensagens inscritas: “Nem renda nem tenda”; “4 rendas mais caução mais um fiador mais um rim”. Em reação aos aplausos que recebeu dos manifestantes, Cristiana Leal, nova porta-voz do grupo, agradeceu o reconhecimento das pessoas.
“Fomos recebidos com todo o carinho, as pessoas sabem que nós estamos a lutar pelo mesmo que elas, estamos todos a lutar pelo mesmo e é só isso que importa”, disse à Lusa. Horas antes, ainda na Praça da Batalha, João Silveira disse que era “importante renovar as caras”, quando justificou a sua saída do cargo de porta-voz do movimento Acampada, garantindo que continuaria envolvido na organização do grupo.
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Na mesma praça, antes do arranque da marcha da CGTP pelas ruas do Porto, o coordenador da União de Sindicatos do Porto disse que todos os “movimentos são bem-vindos”, reconhecendo a importância e o impacto da luta da Acampada, que se juntou este sábado ao protesto da central sindical, iniciado meia hora depois da hora marcada.
Nas ruas, vários sindicalistas apontam o exemplo da queda do pacote laboral como prova de que as manifestações públicas valem a pena. “Foi a luta dos trabalhadores que derrotou o pacote laboral, que ninguém se engane. Foram as grandes greves gerais, foram as manifestações que tornaram completamente impossível a continuação do projeto e que fizeram com que fosse eventualmente rejeitado no parlamento”, defendeu o jovem sindicalista David Leite. Por esse motivo, apontam já ao futuro com a convocatória de uma manifestação para o dia da votação do Orçamento do Estado.



Entre turistas curiosos com tantos cartazes, marcha encheu ruas. “Estamos cá em representação de todos os trabalhadores”
O pequeno percurso entre as duas praças fez-se a um passo lento entre os turistas que enchiam, desde cedo, as ruas mais emblemáticas da cidade. Foi na Rua de Santa Catarina que mais estrangeiros apontaram para as bandeiras e cartazes dos mais variados sindicatos, desde grupos de trabalhadores agrícolas a profissionais ligados à educação.
Os cartazes de protesto levados nas mãos dos manifestantes refletiam as várias reivindicações em causa no protesto deste sábado, ao contrário do que foi acontecendo nas ruas do Porto nos últimos dias, com críticas direcionadas quase exclusivamente à questão da habitação. “Consideramos fundamental, para dar resposta a este aumento do custo de vida, o aumento dos salários e o aumento das pensões, esse é o caminho para dar resposta a todo o aumento do custo de vida”, contextualizou Filipe Pereira, resumindo essa preocupação global com diferentes áreas.
Só pelas 11h30 começaram a chegar à Praça D. João I os primeiros manifestantes, onde eram esperados por Miguel Pereira, sentado num muro a observar a multidão. “Hoje estamos cá em representação de todos os trabalhadores portugueses, [contra] o custo de vida muito elevado em Portugal, face aos nossos ordenados, à habitação extremamente cara, os nossos rendimentos extremamente baixos…”, elencou o fotógrafo de 54 anos, sem intenção de parar na enumeração.
Mas as maiores críticas de Miguel estavam reservadas para o “excesso de carga policial” vivido na praça que agora se começava a encher de mais manifestantes. “Diariamente, em Portugal, existem situações de ofensas, de ameaças, de agressões aos trabalhadores, ao serviço das suas empresas, trabalhadores ao serviço do Estado (…) e a polícia pouco ou nada intervém”, reclamou. “Citando as palavras dos nossos governantes, querem ser implacáveis, sejam com quem devem ser, querem usar uma postura musculada, usem-na com quem devem usar”.
Enquanto o fotógrafo se virava para o palco montado do outro lado da praça, em frente ao Rivoli, atrás dele, na Rua de Sá da Bandeira, continuavam a caminhar lentamente muitos manifestantes, que apelavam, aos gritos, por temas desde o fim da guerra à defesa do Serviço Nacional de Saúde.




“PS não pode querer dar-se bem com Deus e o diabo”
Pouco tempo depois da chegada à praça, vários dirigentes sindicais subiram ao palco improvisado para dirigir, através dos altifalantes, mensagens aos manifestantes. Meia hora depois da chegada das primeiras pessoas, ainda havia manifestantes a percorrer a Rua de Santa Catarina.
Já com a praça cheia, e perto do fim da manifestação, Filipe Pereira subiu ao palco para agradecer a mobilização e olhar para o futuro, anunciando a convocatória de uma nova concentração, dia 24 de novembro, em frente à Assembleia da República. Precisamente no dia em que será votado o Orçamento do Estado.
Esta mobilização, segundo explicou ao Observador, não perde força mesmo que o Orçamento do Estado esteja encaminhado com a abstenção do Partido Socialista. “Nós hoje deixámos aqui uma mensagem bem clara e que foi muito bem entendida pelos milhares de manifestantes. Nós temos um governo do PSD/CDS, minoritário, que para levar a cabo as suas políticas necessita sempre de ter o apoio e o suporte de outros partidos. Tem tido o apoio e o suporte por parte do Chega e da Iniciativa Liberal, mas também deixámos uma mensagem ao Partido Socialista, porque não pode estar no muro e querer dar-se bem com Deus e com o diabo”, acusou Filipe Pereira.
“Nós temos uma proposta de Orçamento do Estado que vem no mesmo sentido das políticas que têm seguido. Um Orçamento do Estado que dá borlas aos grandes grupos económicos (…) e para aquilo que são os trabalhadores, aqueles que realmente produzem a riqueza, para aqueles que trabalharam uma vida inteira, aquilo que têm lá são autênticas migalhas e medidas praticamente paliativas”.
Para essa mobilização em frente à Assembleia da República, a 24 de novembro, Filipe Pereira tem grandes expectativas, esperando a repetição da mobilização notada, no Porto, nos últimos dias. “Hoje podemos dizer e afirmar que o povo saiu à rua aqui no distrito do Porto”. A mobilização nas ruas portuenses, segundo o sindicalista, comprova a “força” e o “peso” dos trabalhadores. “Os trabalhadores saíram à rua. (…) A luta vai certamente intensificar-se, conforme tem vindo a acontecer”.
Este “acordar” das pessoas — desde “reformados” a “jovens” — surge porque os salários e pensões “de miséria” não chegam “para fazer face àquilo que são as despesas”. Condenou ainda um “ataque aos serviços públicos, nomeadamente ao Serviço Nacional de Saúde, à escola pública, à habitação e à tentativa de ataque à segurança social”. “Não nos deixam outra alternativa que não seja vir para aqui”, acrescentou.

“A luta deles é a nossa luta”. CGTP solidária com jovens acampados
A receção com aplausos de alguns membros da Acampada, na chegada, esta manhã, à Praça D. João I, é um exemplo da solidariedade notada entre os manifestantes que participaram na marcha da CGTP para com o movimento que na madrugada de quinta-feira foi alvo de uma forte carga policial. “A luta deles é a nossa luta. Estamos unidos em prol disso mesmo, porque não há outro caminho que não seja lutarmos perante aquilo que é a ofensiva e as políticas completamente erradas por parte deste Governo e de quem o suporta”, explicou Filipe Pereira aos jornalistas.
“O direito à habitação é hoje um flagelo no nosso país”, disse, condenando uma nova lei que diz facilitar os despejos e o aumento das rendas. “Nós estamos solidários com a luta destes jovens que têm estado aqui no Porto, eles próprios juntaram-se a nós nesta manifestação, nós também estamos com eles porque as causas são iguais. Agora, esta [manifestação da CGTP] é uma manifestação mais geral. Nós sabemos que para combater o preço da habitação no nosso país, necessitamos de ter mais salários, de ter melhores pensões porque só dessa forma é que vamos dar resposta àquilo que é o aumento brutal do custo de vida”.
Cristiana Leal, a nova voz do movimento Acampada, agradeceu o apoio e disse que não temia que a participação na marcha da CGTP contaminasse a imagem de independência do grupo. Citada pela Lusa, respondeu que se as causas forem “a melhoria das condições de vida e o aumento dos salários”, não se importa de ficar associada. “Nós somos um movimento apartidário, mas os partidos são formados por pessoas e essas pessoas estão connosco e estão com o nosso movimento”.
“Esta última semana foi uma vitória e foi o despertar de um povo. Nós, numa semana, conseguimos mobilizar todas estas pessoas, conseguimos que outras cidades se mobilizassem para se juntar a nós e conseguimos manter-nos durante uma semana e vai continuar o movimento de pessoas que querem mudar as coisas e que estão a trazer cada vez mais pessoas”, explicou, elogiando a mobilização que já se prolonga há uma semana.
A representar os jovens trabalhadores, David Leite, da Organização da Juventude Trabalhadora da CGTP, mostrou-se comovido com o protesto dos jovens pela habitação. “Estão a manifestar-se por algo que é um direito deles e estão a fazer uso do seu direito à manifestação”. Tal como nos acampamentos, o jovem sindicalista notou nesta marcha de sábado uma afluência “bastante maior” do que o esperado. “Com uma participação muito boa por parte dos trabalhadores, mas muito mais por parte dos jovens. Esteve aqui muita gente jovem a manifestar-se pelas suas reivindicações”, completou.
Tal como Filipe Pereira, também David Leite criticou um Orçamento do Estado que “não serve os trabalhadores”, prevendo “uma panóplia de cortes nos serviços públicos” e servindo apenas os interesses “do capital e das grandes empresas, em detrimento do povo e da população trabalhadora”. Para a manifestação marcada para a porta da Assembleia da República, espera ver “muitos milhares de trabalhadores” a contestar o documento.
Já o coordenador da União de Sindicatos do Porto lembrou que metade dos trabalhadores portugueses no ativo recebem menos de 1.000 euros mensais, por isso, questionou: “Como é que conseguem pagar uma renda de 2.300 euros”, aludindo à fixação desse valor como limite dos apoios fiscais aos senhorios, definido há mais de um ano pelo Governo. O coordenador sindical defendeu que entre os vários temas que têm estado no centro do debate — e dos protestos desta marcha — o aumento dos salários e das pensões são os mais urgentes.

Violência policial “é lamentável”. Manifestantes não esquecem carga policial
Nos gritos, nos cartazes e na mente de quem protesta nas ruas do Porto, ainda estão bem presentes as imagens da carga policial da madrugada de quinta-feira, quando a polícia investiu sobre as pessoas acampadas na Praça D. João I. “É um protesto justo e pacífico, que não haveria necessidade de haver qualquer tipo de violência. É lamentável que tenha havido”, denunciou David Leite.
Além da ação policial, sobram críticas do jovem sindicalista para a forma como o poder político reagiu a esta carga. “É aquilo que se tem esperado, que se tem visto deste Governo e destas forças que atacam os trabalhadores”. A intenção? “Minimizar e criticar e falar mal deste tipo de manifestações, sem se falar do problema”, apontou David. “Na questão da habitação não falaram, só falaram dos protestantes e de questões específicas dos protestantes e não dos problemas deles”.
As críticas do fotógrafo Miguel Pereira são repetidas e dirigidas concretamente a Pedro Duarte, presidente da Câmara do Porto. “Devia estar preocupado” em distribuir a polícia por “onde faz falta”, apontando ao problema — reconhecido pelo autarca e pelo Governo — do tráfico de droga “a céu aberto” no Porto e em outras cidades portuguesas. “Isto é muito grave, preocupem-se com isso”.
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“Como português que sou, acho que acima de tudo devemos manifestar-nos, temos todo o direito a manifestar-nos, sempre com regras, sempre com respeito pelos outros e sempre a respeitar as regras vigentes na nossa Constituição. Manifestação sim, violências não”, reiterou, apontando várias reivindicações como prioritárias: “habitação, melhores salários e falta de segurança”.
A manifestação da CGTP terminou no epicentro da polémica sobre a habitação em Portugal, na mesma praça onde jovens têm pernoitado e onde têm convivido com a violência policial (respondida, por vezes, com provocações às autoridades). O entoar do hino português finalizou um protesto que levou às ruas do Porto, novamente, e pela segunda vez em poucos dias, milhares de pessoas.