(c) 2023 am|dev

(A) :: Duas assembleias, "tragam a vossa tenda" e a espera por "muito mais gente": a véspera da manifestação na Acampada do Porto

Duas assembleias, "tragam a vossa tenda" e a espera por "muito mais gente": a véspera da manifestação na Acampada do Porto

Fizeram-se duas assembleias por engano, mas "não há stress". Na praça D. João I, no Porto, distribuiu-se comida grátis e cantou-se com letras por código QR. Movimento espera "muita gente" no sábado.

Mariana Furtado
text
David Oliveira
photography

“Eu também fiz uma assembleia hoje à tarde”, diz um dos elementos da Acampada do Porto pela Habitação a João Silveira, porta-voz do movimento, que lhe responde não ter percebido por que razão tinha feito outra logo a seguir à que já tinha acontecido. “É que eu não sabia.” Depois de tranquilizar o colega, dizendo não haver “stress nenhum”, o porta-voz de 23 anos não esconde ao Observador a dificuldade em coordenar informações numa estrutura “completamente horizontal”: “Como temos vários porta-vozes e várias vozes a falar, às vezes isso resulta, de facto, em algumas falhas de comunicação ou em algumas mensagens que já não estão tão atualizadas como gostaríamos”, afirma, quando ainda algumas centenas de pessoas estavam, na noite de sexta-feira, a conviver na praça D. João I, no Porto, sem tendas.

Ainda há poucas certezas para o que poderá acontecer este sábado — o dia apontado por vários elementos do grupo como o dia que levará “mais gente” a juntar-se aos protestos, com a manifestação convocada pela CGTP. O movimento vai marcar presença no desfile que arranca às 10h30 da praça da Batalha e termina exatamente onde tudo começou: na praça D. João I, palco das vigílias dos últimos dias e dos confrontos com a polícia na madrugada de quinta-feira.

https://observador.pt/especiais/das-tendas-a-carga-policial-o-que-aconteceu-no-porto-e-o-que-diz-a-lei-sobre-a-atuacao-da-policia/

“Depois [da manifestação], iremos continuar aqui com atividades durante a tarde toda, até às 19h, altura em que teremos a nossa assembleia para decidir os próximos passos — se iremos pernoitar e como iremos pernoitar”, adianta João Silveira. E as tendas, retiradas pela polícia nas noites anteriores, podem mesmo voltar a ser montadas no chão da praça.

Minutos antes das 2h deste sábado, o movimento publicou um apelo no Instagram que deixa antever o desfecho da votação da próxima assembleia: “TRAGAM A VOSSA TENDA.”

A intenção do grupo é ficar na Praça D. João I — que dizem ser “sua” — de sábado até terça-feira.

Um dia “mais calmo” de concertos e convívio para preparar o sábado com “muito mais gente”

Quem passasse pela praça durante a manhã de sexta-feira não via sinal das manifestações da última semana. Horas depois, ouvia-se jazz, houve uma jam session e até um ensaio de canto. Tudo parte do programa diário do movimento que todos os elementos do grupo com quem o Observador falou dizem ter nascido de forma “completamente orgânica”, apesar de as primeiras tendas terem sido montadas após uma manifestação contra o custo de vida e pela habitação organizada pelo movimento Não Dá Mais para Viver Assim.

https://observador.pt/especiais/comunistas-e-bloquistas-lideram-movimentos-de-luta-pela-habitacao-mas-garantem-independencia-financeira-e-de-acao-face-aos-partidos/

Alguns jovens aproveitaram a tarde a pintar cartazes, conversar e andar de skate. E sempre que queriam dirigiam-se a uma mesa “comunitária” de comida e bebida à disposição de qualquer pessoa que passasse e quisesse servir-se. Nas imagens partilhadas após a carga policial de dia 15, é possível ver uma mesa com comida a ser derrubada pela polícia.

Leonor, da equipa de logística da Acampada, antecipava ao Observador uma concentração “mais calma” e com “menos mobilização” durante a noite, convicta de que haverá “muito mais gente” na manifestação de sábado.

Também Proença — nome pelo qual pede ao Observador para ser identificado — se mostra confiante de que sábado trará o dia até agora com “mais gente”.

“Até por ser fim de semana, a maioria dos estudantes já não estará em aulas, não terá de se deslocar tanto. E espero que cada vez consigamos ter mais pessoas”, explica o jovem de cabelo colorido sentado no chão, ao lado da oficina de cartazes.

Ao ritmo dos tambores e com a praça D. João I já a ficar composta, ouviam-se palavras de ordem: “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”. As letras das canções que animavam o final de tarde eram divulgadas através de um código QR impresso que passava de mão em mão, para que qualquer pessoa pudesse ler as letras no telemóvel e acompanhar. E quem quisesse falar bastava inscrever-se para uma intervenção de três minutos. Foi num destes momentos que, no dia 15 de outubro, um manifestante propôs que se atirasse um tijolo à casa do primeiro-ministro Luís Montenegro. “A gente precisa de encontrar o endereço da casa do primeiro-ministro e jogar um tijolo. (…) Acabou ontem essa porra de ser pacífico”, afirmou. “Não concordamos nada” com as declarações, assumiu de seguida o porta-voz João Silveira ao Observador, considerando no entanto que o primeiro-ministro estava a tentar “armar um espantalho” à volta do movimento.

https://observador.pt/2026/10/16/montenegro-critica-ameaca-a-casa-do-primeiro-ministro-movimento-fala-em-tentativa-de-criar-espantalho/

Esta sexta-feira, o advogado que representa a Acampada, Tiago Machado, foi um dos que pegaram no microfone para rebater as críticas de Paulo Núncio, deputado do CDS, garantindo que quem ali se manifestava era um “conjunto de pessoas educadas e ordeiras”. “Mantenham a postura que temos desde sábado”, pediu Tiago Machado aos manifestantes. E despediu-se: “Adoro-vos de coração.”

Pouco antes, também Jorge Pinto, deputado do Livre, tinha passado pela concentração para falar aos jornalistas. O dirigente denunciou a “violência gratuita e desproporcional” da intervenção policial da madrugada de quinta-feira e revelou ter enviado um conjunto de perguntas ao Ministério da Administração Interna para esclarecer a “cadeia de comando” por detrás da ordem de avançar sobre o cordão humano que permanecia às 3h no centro do Porto. A lei determina que as reuniões podem manter-se até às 0h30, o que foi invocado pela PSP; contudo, dias antes, tinha havido pessoas do movimento a passar a noite na praça, ao relento, e sem tendas.

“Parece-nos claro que houve desproporcionalidade” na “carga brutal” efetuada “contra manifestantes pacíficos”, num episódio que classificou como “algo inédito na nossa democracia”. Jorge Pinto apontou ainda o dedo ao presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, atribuindo-lhe “muitas culpas” no agravar do clima de tensão entre a polícia e os manifestantes. “Eu lamento profundamente que a polícia se tenha visto forçada a intervir daquela forma”, afirmou o autarca esta sexta-feira. “Genuinamente, eu não quero escalar, agora o meu apelo é à serenidade, à tranquilidade. A cidade do Porto, felizmente, está a trabalhar, está a funcionar com toda a normalidade.”

Do outro lado da rua, a polícia limitava-se a observar — como de resto fez todo o dia de sexta-feira. Este sábado, a manifestação da CGTP arranca às 10h30, e a “acampada” volta a ser uma possibilidade na Praça D. João I.