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A central que acendeu o país e vive a prazo

Em abril de 2025, foi uma central em Gondomar que devolveu a luz a Portugal. Desde 2022 promete-se um concurso para lhe dar futuro. Nunca houve. O próximo prazo é 31 de dezembro.

Gaspar do Amaral
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Na tarde de 28 de abril de 2025, Portugal inteiro ficou às escuras. Os semáforos apagaram-se, os elevadores pararam entre andares, as caixas dos supermercados deixaram de abrir. Para voltar a acender um país não basta carregar num interruptor: é preciso uma primeira central capaz de arrancar sozinha, sem receber eletricidade de ninguém, e de ir depois emprestando a sua força à rede, linha a linha, até as outras centrais conseguirem voltar. Chama-se a isto arranque autónomo.
Uma das duas centrais que fizeram esse trabalho em Portugal foi a da Tapada do Outeiro, em Gondomar. A outra foi a barragem de Castelo do Bode.
Dezoito meses depois, essa central vive como um inquilino com contrato renovado mês a mês. E o próximo prazo é daqui a poucas semanas.

Um concurso que nunca chegou

A Tapada do Outeiro é a mais antiga central a gás de ciclo combinado do país: queima gás desde 1997 e está em serviço industrial desde o fim de 1999. Tem 990 megawatts.
O que são 990 megawatts? Pense numa torneira. Os megawatts dizem quanta água passa por segundo; os megawatts-hora dizem quanta água encheu o balde. Uma casa portuguesa média gasta cerca de 3 000 quilowatts-hora por ano. Dividindo pelas 8 760 horas do ano, dá uma torneira aberta, em média, a 0,34 quilowatts. Com 990 megawatts, ou seja, 990 000 quilowatts, abastece-se o consumo médio de quase três milhões de casas (990 000 ÷ 0,34 ≈ 2,9 milhões).
O contrato com que a central nasceu terminou em março de 2024. Para depois disso, o Estado prometeu um concurso que escolhesse quem a explora e lhe desse futuro, com painéis solares ao lado e, mais tarde, gases renováveis. Em novembro de 2022, o concurso foi anunciado para 2023. Em julho de 2023, seria lançado «o mais rapidamente possível». Em dezembro de 2023, ainda não tinha data. Em janeiro de 2024, a crise política empurrou-o para o Governo seguinte.
O que veio a seguir foi uma solução transitória, depois prorrogada até março de 2026, e agora com novo prazo: 31 de dezembro de 2026.
É como um seguro automóvel renovado de três em três meses, sempre na véspera de caducar. Funciona. Mas ninguém faz planos a dez anos com um seguro assim — nem quem paga, nem quem é pago.

Porque é que o mercado não chega

Poderia perguntar-se: se a central é útil, porque não se paga sozinha, a vender eletricidade?
Porque o sol e o vento produzem mais barato, e bem. As centrais a gás passaram a trabalhar só quando eles faltam. Em 2022, as centrais a gás portuguesas deram mais de 2 000 megawatts durante 4 202 horas. Em 2025, durante 32 horas. Uma central que trabalha 32 horas por ano é como um táxi que só tem clientes num fim de semana: o dono paga o seguro, a revisão e a licença o ano inteiro, e a conta não fecha.
Entretanto, quem segura as semanas sem vento mudou de mãos. Entre 10 e 12 de outubro deste ano quase não houve vento em Portugal. Em média, mais de metade da eletricidade que consumimos veio de Espanha; numa das horas, 96 %. Correu bem, porque Espanha tinha eletricidade de sobra. A pergunta é o que acontece no dia em que a mesma calmaria apanhar a Península inteira e Espanha precisar da sua.
Espanha, aliás, já respondeu por si: em maio, a Comissão Europeia aprovou-lhe um mecanismo de 9 mil milhões de euros em dez anos para pagar a quem garante estar disponível nos dias difíceis.

A régua e a medição

Em fevereiro, o país fixou uma régua nova. Chama-se norma de fiabilidade e diz quantas horas por ano aceitamos que possa faltar eletricidade: 1,46 horas, num ano de 8 760. Dividido pelos 365 dias, é como aceitar 14 segundos por dia (1,46 × 3 600 ÷ 365 ≈ 14). A régua antiga aceitava cinco horas; a nova é mais de três vezes mais exigente.
Em junho, o relatório oficial de segurança de abastecimento, o RMSA-E 2025, mediu o país contra essa régua. No teste de stress para 2026 — que já conta com a Tapada do Outeiro a trabalhar o ano inteiro — deu 12,8 horas: cerca de dois minutos por dia, nove vezes a régua. Pela metodologia nacional, nenhum dos cenários a cumpre. Para 2030, faltam entre 1 240 e 1 690 megawatts de potência garantida. E, numa das análises, sem as centrais a gás, mais de 500 horas por ano.
Um ano antes, o relatório anterior tinha feito a conta mais simples de todas: se a Tapada do Outeiro tivesse fechado no fim de 2024, o país teria 291 horas por ano com eletricidade insuficiente. O relatório de 2025 vai mais longe e recomenda prever a continuidade da central para além de 2029.
Ou seja: os relatórios do Estado dizem que a central é precisa. O que o Estado ainda não disse é por quanto tempo, a que preço e quem paga.

O preço que não se vê

Sob o contrato antigo, só o primeiro trimestre de 2024 custou cerca de 50 milhões de euros, pagos nas tarifas por todos os consumidores. Desde então, as prorrogações foram feitas com base numa estimativa de «custos razoáveis» proposta pela Direção-Geral de Energia e aceite pelo regulador. Procurei o valor e não o encontrei publicado.
Não digo que seja caro. Digo que não sabemos. E uma decisão que se paga na fatura de todos deve ter o preço à vista de todos.
Em junho, o Governo anunciou um mecanismo de capacidade para pagar a quem garante estar disponível quando o sistema precisa. É o caminho certo. Mas um mecanismo destes precisa de aprovação de Bruxelas, de regras e de leilões — e isso não acontece até 31 de dezembro.

O que se pede antes de 31 de dezembro

Não peço que se escolha entre o gás e as renováveis. Essa escolha está feita, e bem. Peço que se trate o seguro como seguro.
Três coisas, antes de o prazo caducar:

  • Uma decisão publicada e com horizonte. Não mais três meses, nem mais nove: o tempo necessário até o mecanismo de capacidade estar a funcionar, com a data escrita.
  • O preço publicado. Quanto custa por ano manter 990 megawatts prontos, em euros e em cêntimos por família.
  • Quem paga, dito com todas as letras. A tarifa, o Orçamento ou os produtores que mais beneficiam de haver reserva — mas dito, e não descoberto mais tarde na fatura.

Num dia normal, ninguém pensa na central de Gondomar. Ela existe para os dias que não são normais. Em abril de 2025 tivemos um desses dias, e foi ela que acendeu a primeira luz.
Seria estranho que, dezoito meses depois, a deixássemos a viver de prorrogações de última hora — e ainda mais estranho que só voltássemos a pensar nela no próximo dia em que for precisa.