A quadruplicação da linha ferroviária que passa dentro de Lisboa — a Linha de Cintura entre Roma-Areeiro e Sacavém — vai envolver a remodelação de várias estações ferroviárias, incluindo a Gare do Oriente. O projeto terá um grande impacto na zona oriental da capital. Há novos viadutos ferroviários que antecipam os acessos à futura terceira travessia do Tejo e preparam a entrada das ligações ferroviárias de alta velocidade, com uma intervenção prevista também para a Linha do Norte.
O projeto de execução é apresentado pela Infraestruturas de Portugal e está em consulta pública até 25 de novembro, no quadro do estudo de impacte ambiental. Em causa está um investimento total de quase 700 milhões de euros (688 milhões de euros). A duração prevista da empreitada é de 37 meses (três anos e 1 mês) para a Linha de Cintura e a Linha do Norte e de 20 meses para a Estação do Oriente.
As intervenções de maior dimensão financeira serão feitas na linha ferroviária — duplicação das atuais duas linhas e modernização da Linha do Norte — no valor de 400 milhões de euros — e na reabilitação da Gare do Oriente que vai custar 246 milhões de euros. Há ainda 42,5 milhões de euros para o novo terminal técnico do Oriente e 400 mil euros para um viaduto ferroviário de transição.
A ampliação e remodelação da Gare do Oriente foi desenvolvida com o arquiteto Santiago Calatrava, o autor da obra inaugurada em 1998, e vai permitir “um aumento muito significativo do número de comboios na Linha de Cintura e na Linha do Norte, além de criar condições para a futura implementação de novos serviços de alta velocidade entre Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid”, refere o resumo técnico do estudo.
Na ligação ao Porto, esta quadruplicação insere-se no projeto da linha de alta velocidade, numa primeira fase (enquanto não se avança com um novo corredor de entrada na capital), cujo primeiro troço entre Porto e Oiã começou agora a ser construído. A ligação a Madrid será assegurada através da terceira travessia do Tejo entre Chelas e Barreiro.
A Linha de Cintura já está quadruplicada desde o final do milénio passado entre Roma-Areeiro e Sete Rios, de onde segue para a margem sul via Ponte 25 de Abril. A grande remodelação da Linha do Norte feita nos anos de 1990 previa que a mesma intervenção fosse feita entre Roma-Areeiro e Braço de Prata, mas a obra não avançou.
O que é a Linha de Cintura?
A Linha de Cintura é a linha ferroviária em forma de arco (ou semi-anel) que cruza e contorna a cidade de Lisboa de oeste a leste, integrando todas as linhas de comboio que chegam à capital, com exceção da Linha de Cascais.
A quadruplicação (passagem de duas para quatro linhas) envolve uma extensão de apenas cerca de três quilómetros. O projeto para a Linha de Cintura prevê uma velocidade máxima de circulação de 100 quilómetros por hora para comboios convencionais e de mercadorias, subindo para 120 quilómetros para comboios basculantes (Alfa Pendular). A velocidade máxima de segurança para o troço da Linha do Norte é de 160 quilómetros para comboios de passageiros e 100 quilómetros para comboios de mercadorias.
Gare do Oriente cresce para Oeste e terá ponte com arco atirantado de grande impacto visual
A Gare do Oriente vai expandir-se para o lado oeste, passando a acolher mais três linhas num total de 11 com quatro plataformas de passageiros para os serviços suburbano e regional e mais duas novas plataformas para o serviço de longo curso. Haverá ainda novidades ao nível da estação rodoviária localizada ao lado da Gare do Oriente, que está na futura zona de expansão da estação ferroviária.

A solução estrutural desenvolvida por Santiago Calatrava envolve a construção de uma ponte em arco na estação do Oriente para a nova área. O arquiteto descreveu a solução como “um marco simbólico do compromisso de Portugal com a inovação e a conectividade” que procurou manter “a harmonia arquitetónica”. O impacto mais significativo do ponto de vista visual virá do “arco atirantado [suspenso], que se destaca acima de toda a estrutura, sendo este o elemento mais contrastante da nova infraestrutura”.
Este projeto inclui o viaduto ferroviário de transição que também será ampliado e reabilitado.
O novo layout da Gare do Oriente vai implicar mexidas no apeadeiro de Moscavide, nomeadamente a construção de nova sala de equipamentos. A estação ferroviária de Chelas vai passar a ter um interface com a estação de metro das Olaias e haverá também intervenções em Braço de Prata e no apeadeiro de Marvila para adequar estas instalações aos novos serviços.
Quatro novos viadutos ferroviários, dois com cruzamento de linhas
O empreendimento prevê a construção de seis novas obras ferroviárias — quatro viadutos, dois dos quais permitem cruzamento desnivelado de linhas férreas (flyover), e dois túneis ferroviários.
Um dos impactos visuais mais fortes na paisagem de Lisboa Oriental resultará da execução de três viadutos no Vale de Chelas. O viaduto norte para acomodar a via ascendente rápida da Linha de Cintura e a via descendente provisória apenas para a fase da construção. O viaduto central que terá duas vias de ligação à terceira travessia do Tejo (ascendente e descendente) e o viaduto sul que vai receber três vias da Linha de Cintura.
Esta solução foi adotada em alternativa a um aterro no Vale de Chelas. Outra obra de arte com impacto será o Flyover do Braço de Prata, um viaduto que vai permitir o cruzamento desnivelado de vias férreas da Linha de Cintura e da Linha do Norte, antes da entrada na estação de Braço de Prata. Esta solução pretende minimizar o impacto na exploração da Linha do Norte.

Estão igualmente previstos um novo terminal técnico do Oriente para otimizar a exploração da Gare do Oriente, maximizando a utilização de linhas e reduzindo o tempo de permanência dos comboios na via, a construção de cinco restabelecimentos rodoviários para assegurar a mobilidade local nas áreas afetadas e que foram articulados com a Câmara de Lisboa, e uma nova passagem pedonal (sobre a via férrea) em Chelas para substituir a passagem de nível que será suprimida.
Complexo desportivo do Clube Ferroviário na rota das expropriações
A área de intervenção abrange 75,6 hectares, a maioria dos quais (54,6 hectares) está em domínio público ferroviário, mas 21 hectares estão fora, o que implica expropriar cerca de 28% da zona a intervencionar. E nesta faixa será necessário demolir alguns edifícios. Segundo o resumo técnico disponibilizado na consulta pública, a maioria dos prédios a demolir não são usados para habitação permanente e muitos são “instalações precárias ou edifícios clássicos na condição de devolutos e/ou em estado avançado de degradação”. Haverá todavia outra “vítima”.
A afetação total do complexo desportivo do Clube Ferroviário de Portugal, na sequência das ações a realizar no apeadeiro de Marvila e na ligação à terceira travessia do Tejo, é indicada como um dos impactos cumulativos negativos.
No concelho de Lisboa, o projeto envolve as freguesias de Areeiro, Beato, Marvila e Parque das Nações. Em Loures, serão abrangidas as freguesias de Moscavide e Portela e Sacavém e Prior Velho.