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Falhas no Starlink, falta de informações e palavras amargas. A corda entre Zelensky e Trump partiu de vez?

No espaço de uma semana, Ucrânia enfrentou falhas no Starlink e nas informações militares vindas dos EUA. Trump, pressionado pelas intercalares, aponta a Zelensky. É um ponto de não-retorno?

Cátia Bruno
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“Se Trump mandasse nos Estados Unidos em 1939, acho que seria aliado de Hitler. E, ao lado do gueto de Varsóvia, Witkoff e Kushner teriam construído um complexo de hotéis de luxo.” As palavras, ditas por membro dos serviços secretos ucranianos a um jornalista da Economist, ilustram bem o nível de indignação de Kiev face às últimas declarações e ações do Presidente norte-americano.

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Ao longo das últimas semanas, o nível de tensão entre Trump e o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, escalou. Tudo começou com o anúncio por parte do Presidente norte-americano de um acordo energético entre EUA e Rússia, seguido de uma garantia de cessar-fogo — que foi rapidamente quebrado por Moscovo. Depois, vieram as ameaças, com Trump a sugerir que a Ucrânia devia mudar de chefe de Estado.

https://observador.pt/especiais/ucrania-o-acordo-do-gasoleo-a-exigencia-de-eleicoes-e-a-rutura-trump-zelensky/#title-2

Esta semana, a situação deteriorou-se ainda mais. Primeiro, o sistema Starlink (detido por Elon Musk) registou falhas na frente de combate; depois, os ucranianos denunciaram falhas nas informações militares fornecidas regularmente pelos serviços secretos norte-americanos; por fim, Trump voltou a adiar a imposição de sanções à Rússia. E, pelo meio, os dois líderes trocaram palavras amargas.

Uma “deterioração” que a vice-diretora do Centro para a Eurásia do Atlantic Council, Shelby Magid, considera “profundamente preocupante”. “Trump parece estar a virar a atenção e a culpa para a Ucrânia, talvez para desviar a atenção dos problemas que enfrenta no Irão”, diz a especialista ao Observador. Já a reação de Zelensky, considera, “é completamente compreensível e reflete o ambiente que se vive na Ucrânia”. “Zelensky e a sua equipa sabem que têm de manter um equilíbrio entre defender a Ucrânia e preservar uma relação crítica com os EUA. Mas a sua vontade para falar de forma franca também ajuda a mostrar aos norte-americanos e à comunidade internacional no geral o que está em causa”, acrescenta Magid.

A grande dúvida, porém, é uma: a relação entre Trump e Zelensky quebrou definitivamente? Ou, tal como aconteceu depois do malfadado encontro na Sala Oval em 2025, ainda é possível voltar atrás?

A quebra no serviço do Starlink. “Isto para nós é como um ataque nuclear”

Os soldados ucranianos notaram as primeiras falhas na terça-feira à noite. Quando um drone ultrapassava a velocidade de 160 quilómetros por hora, o sistema Starlink desligava.

O pânico instalou-se entre as forças na frente de combate. Sem o sistema de comunicações de satélite da SpaceX, não é possível operar drones de reconhecimento nem intercetar projéteis russos. E o sistema continuou em baixo durante horas. “Isto para nós é como um ataque nuclear. Todas as operações estão suspensas. Isto vai custar muitas vidas”, confessou um responsável militar ucraniano ao Politico.

Kiev apressou-se a apontar o dedo aos Estados Unidos: “Esta ação não pode ser uma coincidência, está ligada à atual situação política”, declarou um dos conselheiros de Zelensky, Serhiy Beskrestnov.

Horas mais tarde, Elon Musk, dono da SpaceX, sacudia responsabilidades: “Os sistemas Starshield são propriedade do Governo norte-americano e controlados por ele. Quaisquer limites à velocidade ou utilização são decididos pelo Exército norte-americano e, em última análise, pelo Presidente dos Estados Unidos.” Mas Donald Trump apressou-se a responder: “Verifiquei esta manhã, não fomos nós”, disse na quarta-feira. “Nem sei se foi alguém, porque não fui eu e não acho que tenha sido o Elon.” Na quinta-feira, o sistema voltou a estar operacional.

No dia seguinte, porém, o jornal britânico Telegraph divulgou que o próprio Elon Musk terá pedido ao Presidente norte-americano para que fossem introduzidos limites à velocidade do Starlink na Ucrânia, citando quatro fontes anónimas. “Ele escreveu um tweet a dizer que é inocente e que foi a administração que o fez. A realidade é que foram ambos”, disse uma das fontes.

Zelensky reconheceu entretanto que o sistema voltou a estar funcional, mas, segundo o Presidente ucraniano, continua a ter limitações. “O meu ministro da Defesa está em contacto [com os EUA] e dizem-me que há sinais da Casa Branca de que os sistemas voltarão a ter todas as capacidades. Voltaram a ter os limites de velocidade que tinham antes? Não. Mas está a voltar? Sim”, esclareceu o Presidente.

Se as falhas persistirem, porém, a capacidade de defesa da Ucrânia pode ficar comprometida, alertam vários especialistas. “O Starlink também é usado pelos intercetores que protegem as cidades ucranianas dos Shaheds russos modificados. Sem essa proteção, os drones russos vão atingir edifícios residenciais, hospitais e escolas, como alvos numa carreira de tiro”, avisou Oleksandra Matviichuk, advogada de direitos humanos ucraniana. “Deixem-me ser franca: o sangue das crianças ucranianas estará nas mãos do dono [da Starlink] e de toda a equipa desta empresa norte-americana.”

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Esta quarta-feira, os efeitos das falhas do sistema já se fizeram sentir. A Rússia levou a cabo um ataque com 39 mísseis balísticos, um dos maiores desde o início da guerra em 2022, segundo o New York Times. Na capital ucraniana, 600 mil pessoas ficaram sem eletricidade — um método de guerra russo conhecido por sodcit, que prevê a destruição de infraestruturas críticas de um país, levando a população à exaustão. O risco de uma “crise humanitária maior está a crescer”, garante Shelby Magid ao Observador. “A Ucrânia já está a enfrentar quebras no fornecimento de energia e disrupções nos serviços essenciais, incluindo o abastecimento de água.”

Falta das informações habituais dadas pelos EUA e escassez de mísseis para Patriots deixam Ucrânia encurralada

E o Starlink não é o único fator desestabilizador na frente de guerra. Segundo Kiev, os ucranianos não receberam as informações habituais sobre um vindouro ataque russo na noite de terça-feira.

Habitualmente, os serviços secretos dos EUA transmitem aos ucranianos a informação que conseguem recolher sobre os ataques russos planeados, mas, segundo o New York Times, desta vez isso não aconteceu. Washington nega ter cortado a passagem de informações à Ucrânia — tanto por fontes em privado, como pela viva voz do Presidente.

“Vamos morrer porque não recebemos os avisos dos ataques com mísseis balísticos”, avisou o analista militar ucraniano Oleh Katkov ao Times. “Isso significa que não conseguimos chegar aos abrigos a tempo. E não temos os meios para abater esses mísseis.”

A situação também é crítica ao nível do material necessário para essa interceção. Isto porque, de acordo com a CNN, a Ucrânia ficou sem mísseis para o sistema de defesa anti-aérea norte-americano Patriot, essencial para abater os mísseis e drones russos. “Quase todos os mísseis balísticos do último ataque não foram intercetados por falta de mísseis”, disse uma fonte à televisão norte-americana na quinta-feira.

A analista Shelby Magid considera que o fornecimento dos Patriots é “a prioridade imediata”. “A Ucrânia está a desenvolver capacidades domésticas de defesa aérea e drones de interceção, que podem ajudar a conter alguns ataques russos. Mas não conseguem substituir os sistemas Patriot contra os mísseis balísticos”, avisa.

Um responsável ucraniano confessou ao Washington Post que, a 7 de outubro, já só havia 10 mísseis dos Patriots em território ucraniano.

Um Zelensky “mais difícil de lidar do que Putin” e um Trump que “atraiçou” a Ucrânia. As críticas mútuas entre os Presidentes norte-americano e ucraniano

Toda esta crise para a Ucrânia agrava-se com as declarações públicas de Donald Trump ao longo da última semana.

Há poucos dias, o Presidente norte-americano defendeu o seu acordo energético com a Rússia, destacando que o país concordou em enviar para os EUA “milhões e milhões de barris de petróleo e de combustível”. E, este sábado, decidiu bloquear as sanções à Rússia decretadas pelo Congresso que iam entrar em vigor dali a dois dias.

Ao mesmo tempo, não tem poupado nos ataques a Zelensky, dizendo que ele é “mais difícil de lidar do que Putin” e classificando os ataques ucranianos a refinarias russas como “uma desgraça”. “Não sou um grande fã de Zelensky”, confessou mesmo Trump numa entrevista à Newsmax.

“Os recentes desenvolvimentos do que parece ser uma melhoria das relações EUA-Rússia, incluindo o acordo do gasóleo e o alívio das sanções, têm como motor a política interna [norte-americana] em vésperas das eleições intercalares”, explica Shelby Magid. “Trump está numa situação vulnerável por causa dos preços altos dos combustíveis. O acordo com a Rússia dificilmente causará uma descida significativa dos preços para os consumidores norte-americanos, mas permite-lhe mostrar que está a fazer alguma coisa.”

Trump enfrenta, contudo, uma dificuldade: vários senadores do Partido Republicano juntaram-se aos democratas em oposição ao acordo do gasóleo. Razão pela qual Stephen Sestanovich, do Council of Foreign Relations, especula que o Presidente pode vir a recuar desta posição dura face à Ucrânia. “Ele vai ser castigado nas intercalares ou podem dizer-lhe que Putin é o líder mundial que os americanos mais desprezam ou lembrá-lo do que aconteceu aos números de Biden depois do colapso no Afeganistão. No final de contas, Trump pode decidir que já tem demasiados problemas com que lidar”, escreveu o analista.

Zelensky, contudo, não quer colocar todas as fichas nessas possibilidades e tem procurado apoios alternativos junto da União Europeia. Esta sexta-feira, o Presidente ucraniano esteve em Bruxelas, onde apareceu ladeado pela presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. Zelensky agradeceu as promessas de apoio e aproveitou para deixar mais uma farpa a Trump, ao dizer que está grato por ser amparado por “líderes a sério”.

Dentro da UE, porém, há algumas reservas em apoiar totalmente Kiev. A Eslováquia e a Hungria continuam a importar petróleo russo e, ainda recentemente, o primeiro-ministro búlgaro elogiou o acordo energético EUA-Rússia. A especialista do Atlantic Council considera, porém, que as demonstrações públicas de apoio da Europa ao longo dos últimos dias são “particularmente importantes”. “Ainda há divisões dentro da UE e preocupações com eleições que estão no horizonte em vários países-chave”, reconhece. “Mas a resposta desta semana demonstra que há um consenso forte entre os parceiros europeus de que apoiar a Ucrânia é essencial para a segurança europeia.”

À margem de Bruxelas, Zelensky desdobrou-se numa série de entrevistas ao longo da última semana onde não poupou nas críticas a Donald Trump. Em entrevista a Piers Morgan, o chefe de Estado ucraniano disse sentir-se pessoalmente atraiçoado pelo homólogo norte-americano e, ao Financial Times, destacou que Trump “fala aberta e ruidosamente de como adora e respeita pessoas desse género”, referindo-se a Vladimir Putin. O jornalista que conduziu a entrevista, Alec Russell, confessou: “Não me lembro de ele alguma vez ter sido tão abertamente crítico de Trump.”

Mas Zelensky tem de combinar uma atitude em que faz frente a Trump ao mesmo tempo que não desbarata o apoio norte-americano. “O desafio é defender os interesses ucranianos sem dar a Trump pretextos para escalar a tensão ou colocar as culpas em Kiev”, resume Shelby Magid. “A agressão continuada de Putin é o problema central, tal como a tendência de algumas alas na Casa Branca de retratar Zelensky como o grande impedimento à paz, em vez do líder russo que começou esta guerra.”

Apesar disso, a analista considera que há um ponto positivo na nova postura de Zelensky, já que pode contribuir para que os europeus assumam uma posição de maior relevo: “Os comentários e jogadas preocupantes de Trump, em conjunto com a retórica dura de Zelensky, podem ter o papel útil ao sublinhar o que está em causa e a motivar uma resposta forte por parte dos europeus.”

No meio de uma semana caótica, uma conferência de imprensa deixou a nu o ato de equilibrismo que Volodymyr Zelensky executa neste momento. Questionado sobre se considera que Trump está a usá-lo como bode expiatório para os seus problemas internos, como os preços do combustível e a guerra do Irão, o Presidente ucraniano fez uma pausa de 15 segundos. Por fim, falou com um sorriso nos lábios: “Esta é a minha resposta.”