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Enfants Rouges. O mercado de Paris que resistiu 400 anos no Marais até ser destruído pelo fogo

Fundado em 1615, o mais antigo mercado coberto de Paris nasceu com Luis XIII, deveu o seu rebatismo a órfãos, foi salvo em 1994 e totalmente consumido pelas chamas.

Larissa Faria
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Os vizinhos e comerciantes do Marché Couvert des Enfants Rouges, em Paris, impediram que o espaço fosse demolido em duas ocasiões. Mas não esperavam que este fosse dominado pelas chamas entre a noite do passado domingo e a manhã de segunda-feira. O mais antigo mercado coberto da capital de França, aberto em 1615 durante o início do reinado de Luís XIII, tornou-se ao longo dos seus quatro séculos de abertura um espaço adorado pelos residentes do bairro de Marais, que faziam ali as suas compras e aproveitavam também os restaurantes com sabores de vários países — que acabaram por atrair também os turistas.

Um incêndio de origem ainda desconhecida destruiu a estrutura de cerca de 1.000 metros quadrados na madrugada de 12 de outubro, mas não foram registados feridos nem danos a edifícios vizinhos. Foram danificadas 17 bancas de venda de frutas, verduras, flores, queijo, talho, peixaria e espaços de restauração. Nelas, trabalhavam cerca de uma centena de pessoas. O mercado público foi aberto com o nome Petit Marché du Marais (“pequeno mercado do Marais”, em tradução literal para português), quando o Marais era um bairro “em pleno desenvolvimento em redor da Place Royale, atual Place des Vosges”, refere a Fundação do Património de França.

https://x.com/fr_presstv/status/2109693076134301936

O nome atual foi dado em 1772, aquando do fecho de um hospital e orfanato que existiam nas proximidades. O título de “mercado coberto das crianças vermelhas” (numa tradução direta) remonta a este período do século XVIII, quando crianças do orfanato (aberto em 1536 pela princesa Margarida de Valois) caminhavam vestidas com túnicas vermelhas que haviam recebido como doação. Naquela época em que não existiam ainda os grandes supermercados, era naquele reduto de pequenos produtores onde as pessoas compravam alimentos e conviviam. O tesoureiro real e filantropo Jean-Claude Geoffroy d’Assy, dono do terreno, aproveitou o movimento de comércio que já existia naquela zona (mas que era até então ilegal) para abrir o mercado.

Para além do nome oficial Marché Couvert des Enfants Rouges, chegou também a ser conhecido como Marché de Beauce, em referência à rua paralela ao espaço. Em 1912, a Câmara Municipal de Paris comprou o espaço dos herdeiros de Geoffroy d’Assy e decidiu instalar naquela morada uma área com 12 vacas para a venda de leite fresco. A iniciativa durou dois anos, sendo encerrada em 1914 com o início da Primeira Guerra Mundial, que levou à degradação do mercado ao longo daquele século.

O funcionamento não foi ininterrupto ao longo dos 400 anos de história: na década de 1980, uma mobilização de residentes defensores do espaço impediu que a estrutura fosse demolida. Este movimento levou a que em 1982, o marché situado no 3.º arrondissement de Paris fosse classificado como monumento histórico. Doze anos depois, em 1994, chegou a ser encerrado por não estar em condições salubres para a abertura ao público, pelo que nesse ano o município considerou novamente a demolição para que o terreno fosse transformado num parque de estacionamento.

Mais uma vez, a insistência de comerciantes e residentes na defesa do património impediu a ação das escavadoras, que estavam já prontas para mandar abaixo as paredes. “Juntos, organizaram um cerco ao local, chegando a dormir à porta para o salvar”, refere a Fundação do Património de França. Com as reivindicações da comunidade ouvidas, foram feitas remodelações no mercado durante seis anos, sendo este reaberto no início dos anos 2000 como um espaço também de restauração, com comida de rua preparada por pessoas de vários países.

A Fundação do Património e a Câmara de Paris anunciaram na quarta-feira uma campanha pública de angariação de fundos para a reconstrução daquele que consideram “há décadas um local emblemático do Marais e da vida parisiense“. Foram destruídos o telhado, a estrutura em madeira (em pilares de carvalho) e todas as bancas do espaço interno do mercado. A ação de 150 bombeiros que trabalharam no local evitou que fossem também tomados pelo fogo os portões do espaço e as lojas com acesso direto à rua, como é o caso da galeria fotográfica Fringe.

“Por volta das 4h15 do horário local [3h15 em Lisboa], os bombeiros de Paris intervieram num violento incêndio no mercado Enfants-Rouges. Apesar da rápida intervenção dos meios de socorro, o fogo devorou a área coberta do mercado. Foram necessárias nove mangueiras, sendo duas de grandes dimensões, para dominar o incêndio”, escreveu a corporação numa publicação no X.

https://x.com/PompiersParis/status/2109570335272050993

“Paris perdeu um sítio que faz parte da sua alma“, afirmou o presidente da Câmara de Paris, Emmanuel Grégoire, que prometeu num comunicado a reconstrução do espaço “respeitando a sua identidade, a sua história e as expetativas dos habitantes e dos comerciantes”. A autarquia garantiu ainda que irá “apoiar todos os comerciantes e residentes afetados por este terrível acontecimento, para que as atividades possam ser mantidas e sejam retomadas o mais rapidamente possível”. Emmanuel Grégoire disse que a Câmara está à procura de espaços temporários para os comerciantes afetados e que foi instaurado um inquérito para investigar a causa do incêndio.

De forma autónoma, os vendedores do mercado organizam uma angariação de fundos para que consigam manter os seus negócios e comprar os equipamentos danificados pelo fogo enquanto as portas não são reabertas. A campanha virtual foi criada por Noemie Wagner, vendedora no mercado há trinta anos e representante dos colegas que têm um negócio no mesmo espaço. “Criámos um fundo comum para ajudar os comerciantes a ultrapassar este período difícil e incerto. É a única recolha que vai diretamente para eles e não para a reconstrução do edifício”, afirma Noemie na sua página no Instagram. Dos 300 mil euros colocados como meta, foram arrecadados até ao momento pouco mais de 3 mil euros.

O restaurante japonês Chez Taeko, naquela morada há vinte anos, afirmou na sua página no Instagram esperar “voltar o mais rapidamente possível, ao lado dos outros comerciantes, e fazer reviver juntos este lugar que nos é tão querido“. Em busca de doações de equipamentos de cozinha, o restaurante diz estar disposto a colaborar em eventos e workshops para conseguir “dar a volta por cima” após o incêndio. Aberta há 26 anos no mercado, a loja de queijos “La petite ferme d’Ines” foi também atingida. Slimania Nesic, dona do negócio e que trabalhava com os filhos no local, lamentou o ocorrido numa entrevista a um jornal local.

O fotógrafo italiano Gaetano Sodaro, que vive em Paris, disse numa publicação no seu Instagram que o mercado era “um dos seus refúgios” na cidade. “Comecei lá a fotografar e encontrei tantas cores e humanidade“. Numa tentativa de ajudar a reconstruir a história que ardeu com o fogo, Gaetano levou aos comerciantes a ideia de reunir fotografias para montar uma exposição solidária para “preservar a memória [do Marché Couvert des Enfants Rouges] e apoiar quem lhe dá vida“. O fotógrafo convida qualquer pessoa que tenha feito registos naquele local para participar na ação. “Gostaríamos também de propor impressões em troca de doações para o fundo coletivo, em moldes a definir com os comerciantes”. Ao jornal Le Parisien, um vizinho do mercado lamentou também a perda. “Não era apenas um ponto turístico, era um verdadeiro centro do bairro“.