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(A) :: Brincar às revoluções é tão giro, não é?

Brincar às revoluções é tão giro, não é?

Que luta é esta dos acampamentos? É, obviamente, a luta pela “revolução”, como resumiu, com involuntária candura, Raquel Varela na CNN. Ou, pelo menos, é a luta por uma encenação da revolução.

Miguel Pinheiro
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Catarina Martins estava entusiasmadíssima: dava pulinhos, agitava o punho e gritava ao microfone até a voz, coitada, lhe começar a falhar, esgotada pela emoção, pelos bons sentimentos e pela luta de classes. Este comovente arroubo foi gravado em vídeo e aconteceu num protesto “pela habitação” no Porto, onde reapareceu, saída diretamente de um reconfortante voo vindo de Bruxelas, a antiga líder do Bloco de Esquerda (Lembram-se dele? É aquele partido que existiu em Portugal no início do século XXI e que se eclipsou depois de achar que ia para o governo na “geringonça”).

Ouvir o discurso de Catarina Martins é um ato sofrido, mas patriótico, porque permite perceber como pensa a esquerda radical. Resumindo, é isto: mobilizar várias micro-causas, travar várias micro-lutas e inventar vários micro-slogans para que, juntando todos os descontentamentos, no final surja, magicamente, uma grande causa, uma grande luta e um grande slogan. No congresso da agonia do Bloco, em 2025, depois do episódio da flotilha, Francisco Louçã tinha apelado ao partido para que colocasse os “pés bem assentes na terra” e se focasse na trilogia “salário, casa e hospital”. Não foi bem escutado. Mantendo a vertigem pelos keffiyehs palestinianos, Catarina Martins fez uma adaptação da fórmula. Na manifestação, preferiu referir-se a “paz, casa, salário”. Além de perder o slogan, perdeu o foco.

Em escassos três minutos, Catarina Martins começou por apelar à indignação por Maricarmen e por “todas as Maricarmens portuguesas” (sejam elas quem forem: talvez estivesse a pensar na avó de uma certa e determinada antiga líder partidária que estava imaginariamente aflita com as rendas). Logo a seguir, deu um salto de raciocínio para conseguir aterrar em Gaza. Segundo ela, a “desigualdade” económica em Portugal “é a mesma que alimenta o genocídio porque quem está a enriquecer com o empobrecimento de todos é quem está a fazer o genocídio”. Até a própria Catarina Martins percebeu que estava a esticar os limites da credulidade porque se sentiu obrigada a acrescentar, numa pífia tentativa de explicação: “Não há nenhuma contradição. É a mesma luta. Paz, casa, salário. Simples assim.”

De forma complicada, Catarina Martins regressou, retoricamente, a Portugal para lembrar “a derrota do pacote laboral” e a luta contra “o fascismo”, que está “a crescer”, para assim tentar juntar mais duas tribos. Logo depois, nova guinada. A antiga líder do Bloco informou a audiência de que “lutamos para que no Brasil saia 13 e saia Lula… e saia Lula!”. A seguir, acelerou para a comparação com França: “Sabemos que aqui em Portugal também há tantas escolas sem condições, tantos estudantes sem professores.” E, para terminar, apareceram, sem convite, os “tecnoligarcas” e os “senhores da guerra”. Catarina Martins insistiu repetidamente: “Estamos unidos em todas as lutas”. Ou então: “É por isso que hoje se juntam aqui tantas lutas”. Ou novamente: “É a mesma luta.”

Se é tudo “a mesma luta”, convém meditar: que luta é essa? É, obviamente, a luta pela “revolução”, como muito bem resumiu, com involuntária candura, Raquel Varela na CNN. Ou, pelo menos, é a luta por uma encenação da revolução, como está a acontecer em Espanha. Em Madrid, o “acampamento pela habitação” foi montado numa das principais praças da cidade há três semanas. Perante a inação das autoridades, ali ficou. Uma reportagem do El País conta que o protesto ocupa 12 mil metros quadrados e junta 1.800 tendas. O ajuntamento está dividido em três zonas, com 56 ruas e 62 praças improvisadas. Um dos ativistas explicou ao jornal que “cada bairro tem as suas próprias assembleias e são autogeridos”. Há uma “comissão de urbanismo”, uma “comissão de construção”, uma “comissão de cultura”, uma “comissão de comunicação”, uma “comissão de limpeza” e uma “comissão de mediação”, que trata da segurança. Traduzindo: ali, o Estado não entra.

Deslumbrado com esta “metrópole”, o El País conta que no acampamento escreve-se, imprime-se e distribui-se um jornal próprio, chamado “A Lona” e que a “notícia mais chamativa do segundo número foi o anúncio do casamento entre Erika e Kaeba”. Brincar às revoluções é tão giro, não é?