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Benjamin Moser e a história dos judeus que se opuseram ao sionismo

Como é que a memória judaica se constrói através daqueles que criticaram a criação de um estado soberano? O Observador faz a pré-publicação de um excerto do livro "Antissionismo", a publicar dia 19.

Observador
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No momento da publicação original nos EUA, há poucas semanas, foi elogiado e criticado na mesma medida. A 19 de outubro, chega a edição portuguesa, pela Penguin, com tradução de Guilherme Pires. “Antissionismo” é o ensaio histórico através do qual Benjamin Moser (n.1976) propõe uma história do judaísmo contada através daqueles que questionaram, criticaram e se opuseram ao sionismo, a doutrina que advoga a criação de um estado judaico soberano.

Moser — que ganhou reconhecimento como biógrafo de Clarice Lispector e Susan Sontag (ambos os livros publicados em Portugal, o último valeu-lhe o prémio Pulizter em 2020) começa pela memória pessoal. Judeu americano, nascido em Houston, no Texas, neto de judeus alemães (mas nascidos naquilo que é hoje a Polónia), o autor conta como tomou contacto com o sionismo, o que tal ideologia representa na própria família e como essa memória, aliada à atualidade, o levou a escrever um livro onde não esconde uma firme crença pessoal.

Escreve o autor: “Com este livro, pretendo diminuir a sensação de solidão que essas pessoas possam sentir. Ofereço-o como contributo para o movimento de tantas pessoas nobres que estão a trabalhar para construir uma visão alternativa da vida judaica, livre de racismo, nacionalismo e militarismo. É uma tentativa de dizer, especialmente às pessoas mais novas, que não somos os primeiros e que não precisamos de começar do zero”.

Antissionismo compõe-se de 12 retratos de outros jantos judeus, todos ilustres nos seus contextos: Edwin Montagu, Jacob Israel de Haan, Ahmad Sadiq Saad, Hyman Judah Schachtel, Avi Shlaim, Hannah Arendt, Maxime Rdoinson, Felicia Langer, Helena Salem, Ronnie Kasrils e Nan Goldin. O primeiro é Aaron Samuel Tamares, que ficou na história como Rabino Sensível e que foi um dos primeiros opositores vocais ao sionismo moderno, como fundado por Theodor Herzl, no final do século XIX. É deste primeiro capítulo que publicamos um excerto em primeira mão.

Quando o sionismo moderno surgiu, foi recebido com profundo desconforto pela maioria dos rabinos — e não apenas devido a questões doutrinárias como os Três Juramentos. As autoridades tradicionais viram algo muito mais grave: uma tentativa de redefinir o judaísmo numa identidade secular e nacionalista, despojando-o do seu núcleo religioso. Desde o início, o sionismo foi agressivamente secular. Os seus antecedentes ideológicos não estavam no judaísmo, mas na escatologia cristã e no nacionalismo romântico: precisamente no tipo de chauvinismo e jingoísmo a que os judeus haviam renunciado. Adotou uma definição dos judeus como uma «raça» que, notaram os rabinos, era a mesma definição que os antissemitas usavam. Ambos concordavam que os judeus eram elementos estrangeiros nas terras a que chamavam lar. Tamares imaginou a queixa típica de um antissemita: «Judeus, que queixas têm contra nós? Porque insistem em residir neste lugar, onde, pela vossa própria admissão sionista, são meros estrangeiros temporários? Vão para o vosso próprio país, a Palestina, onde são agora a maioria dominante; e enquanto o fazem, certifiquem-se de nos agradecer a gentileza por reconhecermos os vossos “direitos históricos” à terra de Israel!» O sionismo substituiu uma identidade religiosa sublime por uma identidade nacional vulgar. «Teria o nosso sangue sido derramado durante dezoito séculos para nos equipararmos à Bulgária?», perguntou o Hafetz Haim, o grande talmudista.

«Dezoito séculos» referia-se a outra ofensa: a negação do valor religioso do Exílio. A expressão shlilat há’galut, «negação da Diás-pora», foi popularizada por Ahad Há’Am. Passou a conotar um desprezo cruel por qualquer cultura judaica fora do sionismo: uma visão mais bem resumida pelo romancista israelita A. B. Yehoshua, que disse que qualquer judaísmo na Diáspora era «masturbação». Mesmo quando não posto em termos tão francos, isto era extremamente ofensivo. Era uma negação da cultura, da religião, da história e do sacrifício judaicos. Adotava muitos dos mais cruéis clichés antissemitas. Havia algo de errado com os judeus, que estavam doentes; que falavam uma língua degradada (o iídiche); que eram efeminados. Judah Leib Gordon instou-os a «ser um homem na rua, um judeu em casa», insinuando assim que os judeus não eram homens. Deviam tornar-se «semelhantes a todas as nações», insinuando assim que eram piores do que as outras nações. «O vocabulário de abuso na literatura hebraica — onde os judeus falam uns com os outros sem medo de exagerar — é de um tipo que só se encontra na literatura antissemita da pior espécie», escreveu Yehezkel Kaufmann, ele próprio um sionista, em 1936. Compilou um resumo deste abuso antissemita: «A vida judaica é uma “vida de cão” que evoca repulsa»; «Nem uma pátria, nem um povo, nem humanos»; «Ciganos, cães imundos, desumanos, cães feridos»; «Parasitismo, pessoas profundamente inúteis»; «Escravos, hilotas, a impureza mais vil, vermes, imundície, desenraizamento parasitário»; «uma nação parasitária.»

Tamares, por sua vez, via que o Exílio tinha um significado positivo. Tornou o judaísmo uma religião mundial em vez de um culto local: este era também um dos princípios do judaísmo reformista. Exortava os judeus a agarrarem-se à Torá em vez de às paixões mais sórdidas engendradas por reis, exércitos ou territórios, e ensinava-lhes que, mais tarde ou mais cedo, a devoção iria — ao longo do vasto panorama histórico que a mente religiosa contempla — inaugurar uma era de salvação.

Tamares escreve: Deverá um povo eterno como este, agora purificado nestes dois mil anos da escória do corpo, querer regressar e recomeçar tudo, como as nações que sofrem processos e mudanças, para depois regressar e se incorporar de novo na matéria vulgar da «condição de Estado», com toda a sua política e a sua hoste de intrigas, depositando assim a sua existência nas mãos de uma entidade perecível, no pó que se desvanece?

Tamares rejeitava a alegação sionista de que o território definia uma nação. «Eles decidiram que uma pessoa não deve ser julgada pelo seu mérito, mas sim pelas suas posses terrenas», escreveu. Por outras palavras, a nossa nação não o era por via da sua Torá, mas sim através dos seus bens imóveis. Para ele, isto abolia as lições do exílio, que libertava os judeus das pressões desonrosas da política e concentrava as suas energias no interior de cada um: «O nosso testamento de “ser uma luz para as nações” não põe sobre nós o fardo da responsabilidade de agir ou de pensar em função das nações gentias; em vez disso, esta luz deve ser focada internamente.» A responsabilidade que a dádiva da Torá pusera sobre os judeus era pesada. As consequências do fracasso em cumpri-la eram severas. Se os judeus se tornassem como qualquer outro país, «a nossa nação perecerá e a nossa missão para com as nações morrerá também». O exílio dificultava a vida — «A nossa religião foi esculpida pela perseguição e o exílio, e tecida no mesmo tear que a nossa vida, que tem sido muito diferente da de todas as outras nações» —, mas era também um «adorno espiritual.» Negar o exílio era destruir este adorno. «Se presumirmos», escreveu ele, «que o exílio é desprezível e prejudica a alma, de que vale a nossa história, e que esperança temos para o nosso futuro nacional?»

O exílio incutiu empatia. «Amoleceu os nossos corações e plantou em nós sentimentos de compaixão pelo sofrimento dos outros, pelo qual também nos sentíamos tocados.» E num panorama mais amplo, trouxe um benefício paradoxal. Nações que perseguiam os judeus, que confiavam em exércitos, apareciam e desapareciam. Os judeus impotentes, sentados no salão de orações, a estudar as Escrituras — confiando não em armas mas apenas em Deus — tinham perdurado miraculosamente. Numa das frases culminantes, extensas e encantatórias que tornam a sua prosa tão hipnótica, Tamares escreve:

Agora que o arco do nosso poder e o nosso braço político estão quebrados há dois mil anos, e que já organizámos o nosso modo de vida para existir sem um Estado judaico; agora que o nosso povo já sofreu a sua morte política, e a alma do nosso povo já teve o privilégio de se despojar do corpo disforme da ostentação política e do fardo de reis e oficiais, e ainda assim voar na terra dos vivos, mesmo após a remoção do corpo político, para viver a vida espiritual sem as necessidades vulgares da carne; agora que o nosso povo já teve o privilégio de apresentar ao mundo a grande visão de que é possível a um povo espiritual, mesmo desprovido de todos os adornos materiais de uma nação, sobreviver longamente aos povos que têm à sua disposição força e poder materiais: como, então, deverá um povo eterno como este, agora purificado nestes dois mil anos da escória do corpo, querer regressar e recomeçar tudo, como as nações que sofrem processos e mudanças, para depois regressar e se incorporar de novo na matéria vulgar da «condição de Estado», com toda a sua política e a sua hoste de intrigas, depositando assim a sua existência nas mãos de uma entidade perecível, no pó que se desvanece?

Em 1905 — cinco anos após a sua desilusão em Londres e nove anos antes do eclodir de uma guerra mundial — Tamares previu a chegada da guerra num livro chamado Ha-Yahadut ve-ha-Herut [Sobre o Judaísmo e a Liberdade]. O nacionalismo, alertou, estava a preparar um «banquete terrível para toda a família da humanidade, uma devastação como nunca se viu, nem mesmo nos dias da Peste Negra, um dia de calamidade, uma “guerra mundial” que se aproxima lenta mas firmemente». Recordou aos judeus o seu dever de melhorar o mundo. «A sua crença de que a guerra era o assunto que exigia a atenção mais urgente dos que combatem pela liberdade fortaleceu ainda mais a sua convicção de que o povo judaico foi chamado para servir como vanguarda da libertação mundial, pois quem mais do que o judeu é mais avesso à guerra e viveu mais de perto o horror do massacre?»

A guerra eclodiu.

«A ignomínia do mundo dos gentios desvelou-se perante os olhos do Rabino Sensível.»

Em todos os países, a elite intelectual, «mesmo os maiores humanitários entre eles, os escritores sentimentais que costumavam lamentar o sofrimento das classes mais pobres e chorar a tragédia da vida», apoiou a carnificina. E o mesmo — e aqui o rabino não foi totalmente preciso — fizeram os defensores do socialismo. O massacre deu a Tamares mais razões para acreditar que o judaísmo pacifista havia estado certo desde o início. «A cultura europeia, que tinha humilhado e cuspido no judeu, tirava agora a sua máscara e mostrava a sua verdadeira face — e o judeu podia erguer a cabeça outra vez», escreveu. Ainda assim, para alguém com o seu «tem-peramento tempestuoso», sentia-se frustrado pela sua impotência. Tamares tentou mudar as mentalidades dos que o rodeavam: «Sempre que tinha uma conversa, encontrava uma forma de apontar a fraude e a distorção dos nossos dias. Sempre que escrevia uma carta, conseguia pôr umas quantas alfinetadas no Bezerro de Ouro dos dias de hoje.»

Começou a escrever uma lista negra de figuras públicas judaicas, especialmente escritores, que eram «portadores da doença». Mesmo um apoio tácito podia levar a que um escritor ganhasse o seu lugar na lista: «Na opinião do Rabino Sensível, quando um escritor proferia uma expressão como “Estamos, de facto, a viver um tempo decisivo”, isso era o suficiente para lhe granjear a designação de tolo, no mínimo, se não mesmo de verdadeiro vilão.» Ele sabia que isto não tinha qualquer importância. Sabia que não conseguia «acalmar a consternação que sentia com a guerra através de trivialidades como rotular um ou outro escritor como portador da pestilência dos aduladores da guerra, ou ao deixar um comentário farpado numa carta a este ou àquele oportunista do conflito bélico».

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Após a guerra, Tamares escreveu um tratado, Knesset Yisrael ve-Milḥamot ha-Goyim [A Criação de Israel e as Guerras das Nações], no qual «investiu todas as suas esperanças de redenção humana no povo judaico». Rejeitou a tentação de culpar qualquer um dos lados: «Como se as Potências Aliadas estivessem a escrever filactérios enquanto os alemães se preparavam para a guerra!» Rejeitou a tentação de culpar apenas os governantes: se os corações das pessoas não contivessem maldade, os apelos ao massacre não teriam qualquer influência. Rejeitou o nacionalismo como idolatria — «esse ídolo conhecido como “a pátria”, bem como a sua adoração conhecida como “guerra”» — e rejeitou, também, a crença progressiva na ciência. Na sua visão, o progresso tecnológico nunca fora acompanhado de um progresso moral:

As nações modernas ocupam-se com matérias de civilização e bem-estar social, e fazem disso um grande alarido: semeiam e plantam, constroem pontes, pavimentam autoestradas, fabricam, organizam feiras, etc. Mas o espírito motivador de todas estas atividades é o tipo mais baixo de egotismo. Todas estas ocupações e atividades são empreendidas exclusivamente na busca fervorosa de riqueza, de posses e carreiras. O demónio da destruição e da aniquilação, que supervisiona todas estas atividades e estruturas estabelecidas pela sua ferramenta de flagrante egotismo, apoia-as e completa-as com uma expressão de escárnio.

Certamente, depois de terem vislumbrado as dezenas de milhões de cadáveres amontoados pelo nacionalismo, incluindo os de cen-tenas de milhares de judeus, os judeus rejeitá-lo-iam — mas não o haviam feito, e tinham de facto desenvolvido um nacionalismo próprio. É por isso que o seu maior desprezo estava reservado para os sionistas, «que não só falavam como proxenetas de guerra, mas também agiam como tal». Enquanto o nacionalismo incendiava o mundo, «os nossos românticos do sionismo acorreram para se aquecer nas chamas», escreveu ele. «Os seus olhos pequenos e brilhantes começaram a cintilar com faíscas lupinas, na esperança de que tivesse chegado a hora de manifestar o seu nobre sonho de uma “Pátria”.» Tamares apelava, agora, ao orgulho em recusar precisamente o que arruinara o mundo. Os judeus fracos, «perseguidos e espoliados», haviam provado ser mais fortes: «O orgulho e a grandeza das nações são insignificantes quando comparados com a nossa longevidade e a nossa história maravilhosa — mais longa do que a de qualquer outra nação.» A visão do exílio era a esperança que os judeus ofereciam ao mundo, a esperança de uma vida fora — e acima — da nacionalidade política.

Agora, quando a cultura europeia foi irremediavelmente quebrada e a sua nudez é revelada a todos; agora, quando se aproxima do abismo juntamente com todo o orgulho e a glória das nações territoriais; agora, quando a devastação absoluta da riqueza e da glória das nações que dependem da sua soberania e dos seus territórios se tornou explícita; agora, quando a terrível fraude da sua vida espiritual e material foi exposta; agora, quando os seus passatempos e os seus ideais (incluindo o seu nacionalismo) se revelam falidos…

Agora, mais do que nunca — quando as próprias pessoas cuja oposição e censura ao nacionalismo tinham provado estar corretas —, os sionistas apressaram-se a abraçar as ideias que estavam a devastar o mundo. Tamares denunciou esta loucura com uma metáfora tipicamente invulgar:

Num determinado país, todos nasciam corcundas. Certa vez, uma pessoa de costas direitas visitou esta terra e, vendo tal deformidade, pensou para si mesma que os habitantes da terra o veriam como o homem perfeito. Quando a população local o viu, no entanto, lamentou-se e partilhou da sua miséria: «És um indivíduo tão disforme. Temos de te operar, de te dar a tua corcunda.»

A sugestão de deformidade podia não ser casual. Naqueles anos, os judeus eram muitas vezes retratados como sinistros, perigosos e de aparência anormal: no filme inspirado em Drácula, Nosferatu, por exemplo, que estreou em 1922, o Conde Orlok, com o seu nariz adunco, o seu andar agachado e as suas longas unhas em forma de garra, era amiúde visto como semelhante a um judeu. Mas para Tamares, os judeus não eram corcundas. Os sionistas estavam a tentar deformá-los — a torná-los iguais a todos os outros — sob o pretexto, ironicamente, de prevenir a «assimilação». Tamares detestava essa palavra. Sugeria que os judeus que alcançavam a eman-cipação legal perdiam a sua identidade. Para Tamares, os sionistas confundiam propositadamente a assimilação — tornar-se iguais a todos os outros — com a luta pela igualdade cívica, a liberdade religiosa e os direitos humanos. Tal igualdade, por recusar distinções raciais ou religiosas, era a inimiga do nacionalismo — e os sionistas, por consequência, opunham-se-lhe. Afirmando preservar o povo judaico, estavam, em vez disso, a torná-lo idêntico às outras nações, com os seus reis e exércitos e territórios — um tipo de assimilação muito mais perigoso, escreveu Tamares em 1930: «O sionismo polí-tico aspira inteiramente a nadar com a corrente e a assemelhar-se às outras nações.»

Durante a guerra, percebeu que a liderança sionista, em particular a de Chaim Weizmann, conspirava para usar a catástrofe em seu proveito. Foram recompensados em 1917, quando asseguraram a Declaração Balfour. «A reação à Declaração Balfour revelava já uma autodepreciação de longa data perante as nações territoriais e o desejo de se transformarem em algo semelhante a elas, um estado de espírito humilhante que hesitara em revelar-se anteriormente.» Após a guerra, os sionistas continuaram a tentar lucrar com isso: «A autodesignada delegação judaica [foi] à [conferência de paz em Paris] para entrar no Clube e recolher uma parte dos despojos da guerra mais sangrenta da história humana.» Os que evitavam os belicistas tinham razão:

Se os que estão ao leme de cada nação que participa nesta guerra alimentam o fogo desta conflagração, cospem o seu veneno e imundície em público e depois desfilam nas ruas sem que o público instintivamente se afaste do contacto com eles, como os animais que evitavam Caim depois do seu ato desprezível, por que razão deveríamos nós ser dissuadidos e sentirmo-nos envergonhados?

Para Tamares, os sionistas confundiam propositadamente a assimilação — tornar-se iguais a todos os outros — com a luta pela igualdade cívica, a liberdade religiosa e os direitos humanos. Tal igualdade, por recusar distinções raciais ou religiosas, era a inimiga do nacionalismo — e os sionistas, por consequência, opunham-se-lhe.

Em vez disso, os sionistas gabavam-se da sua proximidade com estas pessoas. De uma perspetiva religiosa, isto estava destinado a gerar consequências desastrosas: o estatuto dos judeus como «o povo escolhido» trazia benefícios, mas também acarretava res-ponsabilidades. Eles tinham uma «capacidade especial para poluir a atmosfera ética mais do que qualquer outra nação». O Talmude não deixa dúvidas: «É possível anular os efeitos da idolatria cometida pelos pagãos, mas os efeitos gerados pelos judeus nunca podem ser anulados.»

Tamares não rejeitava uma comunidade judaica na Palestina — sob a condição de que esta comunidade não tentasse estabelecer-se como um Estado político e militar. Qualquer cultura judaica que evitasse o judaísmo não tinha valor: «Sem o estudo da Torá, a “cultura hebraica” é uma terra desolada e estéril, desprovida de todo o conteúdo.» Ele traçou diferenças claras entre as suas ideias sobre a Terra de Israel e as dos sionistas. «Os sionistas políticos anseiam por uma terra sobre a qual os nossos reis caminharam, enquanto a nossa nação anseia pela terra sobre a qual os nossos profetas caminharam.» E os judeus tradicionais não procuram «a terra onde “os nossos pais travaram guerras”, mas aquela onde os profetas lançaram o fogo do inferno sobre as guerras». Os sionistas aspiram a «uma terra na qual a nossa nação será “uma nação como todas as outras” — enquanto o nosso povo anseia por uma terra na qual a nossa diferença em relação a todas as outras nações seja ainda mais enfatizada».

Embora fosse um escritor religioso, ele é também um pensador prático — e não teria visto qualquer contradição entre ser religioso e ser prático, tal como acreditava que os mandamentos da Torá, longe de serem fardos, melhoravam a vida. Violar o mandamento de que o judeu deve ser «tímido, compassivo e caridoso» era uma ofensa a Deus, e também aos homens: neste caso, aos palestinos. Tamares menciona que logo em 1897, um ano após o Judenstaat de Herzl, «não ocorreu a ninguém perguntar» por que razão as potências que perseguiam os judeus «deveriam compensar os seus delitos entregando propriedade estrangeira, terra otomana» — a terra de um império que não perseguia os judeus. Reiterou que nunca se tinha oposto à mudança dos judeus para a Palestina como imigrantes, «desejosos de um lugar pacífico no qual trabalhar e criar uma vida para si, um lugar que satisfizesse o seu desejo romântico de ouvir ecos da era bíblica ainda a ressoar nas montanhas de Judá».

Uma chegada modesta não teria assustado e provocado os árabes, e assim teria sido possível estabelecer gradualmente ali, na terra dos nossos antepassados, um assentamento hebraico para satisfação dos judeus em todo o lado, mesmo que este Yishuv não contivesse sonhos de «se tornar Estado» e «ter soberania», nem presumisse dominar os judeus em todo o lado como «professor de todos os judeus na Diáspora».

A religião não era uma obrigação; era também uma conveniência. A recusa sionista dos mandamentos tradicionais impossibilitara uma vida judaica pacífica — «Eles entraram num intenso barulho, aos gritos, com o orgulho ostensivo de “ocupantes” que conquistaram uma terra e pretendem impor o seu domínio sobre os habitantes originais» — e tornara o conflito inevitável. «Confiando na força de Balfour e ébrios de orgulho por estarem perto dele, os sionistas ignoraram o facto de que o lugar não era uma ilha recém-descoberta e inexplorada localizada nos confins da Terra, mas sim um sítio já habitado por um povo que certamente sentiria os objetivos “nacio-nalistas” e “soberano-políticos” como uma agulha a cravar-se na sua carne viva.»

Tamares percebeu que o sionismo não pretendia levar judeus para portos seguros. Tratava-se de dominar «algum povo “inculto” que se esgueirou para a terra e ali viveu uns meros mil e quinhentos anos.» O objetivo era «subjugar aquele povo “inculto” que agora lá vive», e «não porque os judeus precisassem pessoalmente de emigrar, mas de modo a alcançar uma “maioria” judaica e, assim, tornarem-se o povo dominante, superando em número os habitantes árabes originais da terra, que se tornariam então uma minoria “tolerada”». Ele escarneceu das alegações dos sionistas, típicas dos primeiros colonos, de estarem a elevar a condição dos nativos. «Pois em todos os mil anos em que habitou na Palestina, este povo inculto não conseguiu construir uma única linha ferroviária ou estação elétrica», disse ele. «Tão doente, de facto, estava este povo selvagem, que apesar de todos estes séculos a respirar o ar de Israel, que torna os homens sábios, nem sequer tinha inventado a máquina a vapor ou a eletricidade antes de estas terem sido sonhadas na Europa!»

Sob o domínio britânico, a Palestina passou de uma terra onde a violência sectária era quase desconhecida para um território onde os motins raciais eclodiam regularmente. O sionista britânico sir Herbert Samuels, que se tornou alto-comissário na Palestina em 1920, criou as condições para os colonos prosperarem. Os palestinos perceberam que os britânicos tomavam o partido dos judeus, chegando até a culpá-los por eventos como os motins de Jafa de 1921, que tiveram origem numa luta entre dois grupos judaicos, mas que depois inflamaram os ressentimentos nacionalistas árabes e acabaram numa brutal repressão britânica infligida aos palestinos. Ao longo da década de 1920, a situação piorou, especialmente em Jerusalém, e em particular devido à situação em torno do Muro das Lamentações. Acreditando-se que se trata do último resquício do Templo — embora esta teoria arqueológica seja altamente contestada —, o muro é conhecido pelos judeus como o Kotel e pelos muçulmanos como o Muro de Al-Burāq, em homenagem à criatura alada, o Burāq, que levou o Profeta ao céu. Maomé amarrou a criatura aqui, na orla do recinto sagrado, ou haram, que rodeia o Monte do Templo — além dos harams de Meca e Medina —, um dos três locais mais sagrados do Islão. Foi muito tempo gerido como um wagf, ou fundação islâmica. Sob o domínio muçulmano, era permitido aos judeus orar no local de acordo com as complexas regulamentações que governavam todos os locais sagrados, cristãos, muçulmanos e judaicos, e até ao advento do sionismo, estes acordos, aplicados com todo o rigor, causavam por vezes atritos, mas raramente eclodiam numa prolongada violência religiosa. As regras vinculavam muçulmanos e cristãos, bem como judeus, e incluíam proibições como o uso de certos instrumentos musicais, o abate de animais e a interrupção das orações islâmicas. Também proibiam os judeus de construir estruturas permanentes em frente ao muro, e era esta proibição que os sionistas, irreligiosos como eram, punham à prova constantemente.

A causa profunda da hostilidade árabe, de acordo com o relatório, era «a deceção das suas aspirações políticas e nacionais e o medo pelo seu futuro económico». Esta hostilidade devia-se principalmente à Declaração Balfour; à orientação do mandato britânico sob o alto-comissário sionista, sir Herbert Samuels; e à atitude dos novos imigrantes, provenientes sobretudo da Europa de Leste, que tinham começado a chegar ao país com justamente «o barulho e os gritos» que Tamares condenava.

Em 1927, Yosef Hecht, um comandante da Haganá envolvido no assassínio do poeta neerlandês e antigo sionista Jacob Israël de Haan, fez explodir a casa de um xeque no bairro marroquino, mesmo em frente ao muro. Em 1928, plenamente conscientes de que esta ação era ilegal, os sionistas erigiram uma mechitza, uma divisória que separava os fiéis masculinos e femininos, no Yom Kippur. Os muçulmanos entenderam isto como um ato agressivo: a reivindicação do muro, e, por consequência, do próprio recinto sagrado. Isto não era uma fantasia árabe, uma vez que os sionistas declaravam esta ambição aberta e frequentemente. Uma investigação posterior da Comissão Real Britânica confirmou que os muçulmanos estavam alarmados com algo mais grave do que uma divisória feita de lona: os colonos judaicos eram vistos «não só como uma ameaça ao seu meio de subsistência, mas como um possível suserano do futuro». A causa profunda da hostilidade árabe, de acordo com o relatório, era «a deceção das suas aspirações políticas e nacionais e o medo pelo seu futuro económico». Esta hostilidade devia-se principalmente à Declaração Balfour; à orientação do mandato britânico sob o alto-comissário sionista, sir Herbert Samuels; e à atitude dos novos imigrantes, provenientes sobretudo da Europa de Leste, que tinham começado a chegar ao país com justamente «o barulho e os gritos» que Tamares condenava.

Os polícias enviados para remover a mechitza foram atacados pelos sionistas. A investigação britânica confirmou que o legado muçulmano era, de facto, o proprietário legal do muro, mas isto não desencorajou os sionistas, que no mês de agosto seguinte, após uma agitação crescente, começaram a organizar manifesta-ções. Espalharam-se rumores entre a população muçulmana de que os judeus tinham amaldiçoado o nome do Profeta, e a situação degenerou depressa ao ponto de gerar motins, e, depois, ataques violentos a pessoas e propriedades por todo o país. Por uma ironia perversa, as comunidades mais afetadas, especialmente em Safed e Hebron, foram as dos judeus palestinos, ou seja, os judeus indígenas. A maioria estava perfeitamente integrada na vida palestina antes da chegada dos sionistas estrangeiros e falava árabe. Muitos deles, também, opunham-se ferozmente ao sionismo. E foram eles que se tornaram as vítimas do desmoronar das relações entre judeus e os amotinados árabes que não distinguiam entre sionistas e não-sionistas, embora, segundo alguns relatos, os sublevados se focassem nas casas sionistas em vez de nas dos judeus palestinos. Muitos judeus foram abrigados e salvos por vizinhos e amigos árabes palestinos, mas em Hebron morreram dezenas de judeus. A comunidade acabou por ser desmantelada, retirada da sua cidade natal de autocarro pelos britânicos, tornando-os a primeira, mas certamente não a última, comunidade judaica árabe destruída na era do sionismo.

Mesmo distante, em Milejczyce, Tamares via o que estava a acontecer. Na sua obra final, Sheloshah Zivugim Bilti Hagunim [Três Uniões Inadequadas], publicada um ano após os motins na Palestina, culpou os sionistas por conspirarem para lucrar com o sangue derramado na Primeira Guerra Mundial: «Não houve confissão de culpa, nem mesmo esta admissão: nós somos os responsáveis pela terrível catástrofe que acaba de se abater sobre os judeus na terra de Israel.» Os judeus acreditaram sempre que a adoção da luta armada seria punida. As pessoas religiosas não ficaram surpreendidas com o destino do poeta sionista Yosef Haim Brenners, morto nos motins de Jafa de 1921. Ele escreveu: «Ouve, ó Israel! Nunca olho por olho. Dois olhos por um olho, todos os seus dentes por cada humilhação!» Para qualquer judeu piedoso, era acima de tudo um menosprezo sacrílego de uma prece muito sagrada, e a punição seria rápida e decisiva. Mas nem os motins de 1921 nem os massacres de 1929 deixaram os sionistas arrependidos. Eles nunca afirmaram: «Fomos nós que incitámos o nosso povo a fazer isto; fomos nós que ensinámos Israel a seguir os caminhos das nações e a cometer inclusive o mais hediondo dos pecados, o massacre», escreveu Tamares. Em vez disso, os sionistas exigiram a ajuda britânica para «pôr os árabes no tronco».