Foi no filme Os Reis do Mambo (1992) que Frankie Chavez se cruzou pela primeira vez com os ritmos e as harmonias que lhe abriram as portas para a música cubana. Descobriu depois Buena Vista Social Club (1999) e Compay Segundo e nunca mais parou de procurar referências. Foi por isso que lhe deu ainda mais gozo assinar a banda sonora de Os Escândalos de uma Revolucionária, o mais recente Podcast Plus do Observador que conta a história de Annie Silva Pais, a filha do último ditador da PIDE que fugiu do marido diplomata com a ajuda de Fidel Castro e se juntou à revolução cubana.
O mistério do desaparecimento de Annie, a separação sem aviso e uma nova vida completamente antagónica da que tinha tido até ali foram os pontos essenciais que quis traduzir para o tema central. “Tentei, com as bases que tinha de música cubana e coisas que já tinha experimentado, fazer uma mescla de tudo, focando-me precisamente nesses detalhes emocionais de mistério, de narração dramática e de romance”, explica ao Observador.
[o trailer de “Os Escândalos de uma Revolucionária”:]
https://www.youtube.com/watch?v=bAHS8B9UF64
Francisco, Frankie ou França — responde a qualquer um dos nomes, mas o mais fácil é começar por aquele que está no cartão de cidadão. Francisco Chaves nasceu em Lisboa, cresceu no Restelo e é o mais novo de quatro irmãos. Ainda assim, teve quase vida de filho único, já que o irmão mais “próximo” é, apesar disso, oito anos mais velho (os outros têm dez e 12 anos a mais). “A minha irmã, que é a mais velha, era quase uma segunda mãe para mim”, recorda agora.
Andava de bicicleta a toda a hora, ia a pé para a escola — que ficava na rua onde vivia — e passava horas a explorar o pinhal, mesmo em frente. Não adorava estudar, mas gostava de estar na escola e foi aí que teve o primeiro contacto com uma guitarra. “Estava no quarto ano, tinha nove anos e tivemos umas aulas extracurriculares. Mais tarde vieram uns professores de fora e começámos a ter aulas de guitarra clássica, já não era só aprender a colocar os dedos nas cordas.”
Em casa ouvia aquilo que herdava dos irmãos: Rolling Stones, Lou Reed, David Bowie. “Também fui buscar influências ao fado, porque era o que o meu pai ouvia, mas a minha praia era o rock.” A avó paterna tinha um piano e ele chegou a experimentar umas coisas. Mais tarde, quando o instrumento foi herdado pelos pais, tentou recuperá-lo, mas não havia muito a fazer. “Estava bastante degradado. O técnico disse-me: ‘Descasque isto, aproveite só a caixa e faça um bar’.”
Começou por tocar com os amigos por brincadeira e depois pertenceu a uma banda de garagem. “Literalmente de garagem, ensaiávamos numa garagem em Linda-a-Velha. Essa experiência já não a vivi com amigos. Alguém disse que eu tocava bem, eles estavam à procura e eu fui, sem conhecer ninguém, tocar guitarra.”
Os temas eram originais, embora nenhum de Frankie Chavez. “Quando entrei, as canções já estavam feitas.”
Por essa altura, estudava numa escola em Linda-a-Velha que dava equivalência ao conservatório, mas acabou por não aproveitar. “Tinha uma hora de instrumento, uma hora de coro e duas de formação musical. Tinha de cantar em alemão e coisas do género, o que não me agradava. Se tivesse feito a escola toda ali, poderia ter o curso do conservatório, os oito graus. Mas fui até ao terceiro grau e desisti, estupidamente. Estava naquela fase parva dos 16 ou 17 anos.”
Ainda no secundário, experimentou a área de saúde. Com ambos os pais médicos, uma clínica da família e um irmão a estudar farmácia, parecia uma escolha lógica — “mas depressa percebi que não era para mim”.
Escolheu gestão no ISG (Instituto Superior de Gestão), um curso que lhe pareceu ser versátil e capaz de abrir portas em qualquer área. No quarto ano embarcou, como tantos outros jovens, no programa Erasmus e aí redescobriu a música. “Quando percebi que ia ter muitas horas livres [na faculdade], em vez de não fazer nada, resolvi ocupar o tempo de outra maneira. Estudei seis meses numa escola chamada Taller de Músics. Queria ter alguma formação no jazz e nos blues.”
Foi precisamente em Barcelona que começou a tocar ao vivo. “A primeira vez não foi lá muito feliz. Estava muito envergonhado e fora do meu elemento porque, como costumo dizer, sou guitarrista antes de ser compositor ou vocalista. Estava uma miúda a cantar e eu comecei simplesmente a fazer as segundas vozes. Às tantas comecei eu a cantar.”
Acabou por fazer mais dois concertos e, de regresso a Lisboa para o último ano do curso, estreou-se em bares. Nessa altura ainda cantava baixinho, tinha vergonha de se expor.
No tempo que lhe faltava até acabar os estudos, percebeu que queria voltar a viver fora do país. Decidiu fazer uma pós-graduação em marketing e, se possível, num sítio inesperado. “Eu e um amigo queríamos um sítio onde se falasse inglês. Pensámos nos EUA, na Califórnia, mas também pensámos na Austrália. Era mais barato ir para a Austrália e foi assim que desempatámos.”
A experiência durou um ano e meio. Aí, ganhava mais a tocar na rua do que em bares e isso deixou-o um pouco mais desinibido. “Em vez de estar a tocar em casa, ia para a rua, abria a caixa da guitarra e pingava dinheiro. Além disso, fiquei com uma prática enorme de improvisação porque às vezes estava a tocar 20 minutos seguidos. Se as pessoas estão ali e não arredam pé, não podes dizer que a música acabou.”
De novo de volta a Lisboa, juntou-se ao negócio da família e ficou a trabalhar na clínica entre 2006 e 2012. Em paralelo, tocou e gravou discos. O primeiro EP foi editado em 2010 e foi por essa altura que nasceu Frankie Chavez. Até aí, apresentava-se como França, alcunha que ganhou no quarto ano para ser possível distinguir os dois Franciscos da turma e que ainda hoje é usada por amigos e familiares.
“Como cantava em inglês, um amigo sugeriu que fosse um nome internacional e atirou para o ar Frankie Chavez. Depois, o Henrique Amaro [radialista na Antena 3, divulgador de música portuguesa e o responsável pelas coletâneas Optimus Discos], ligou-me e disse: ‘Pus o teu nome num concerto em Alcântara, com o Tó Trips’.”
Fez essa atuação, apareceu logo outra a seguir e o nome temporário foi ficando até se tornar definitivo. O primeiro disco de originais, Family Tree, ficou disponível um ano mais tarde. “Quando estava prestes a esgotar as férias com tudo isso, marcaram-me uma tournée com dez concertos na Europa, entre Alemanha, Países Baixos e França. Aí disse ao meu irmão que estava na altura de passar a pasta e pedi uma licença sem vencimento.”

Editou Heart & Spine (2014) e Double Or Nothing (2017). Entretanto, num momento decisivo que atribui às coincidências felizes da vida, cruzou-se com Peixe (guitarrista dos Ornatos Violeta e Pluto) e nasceu o projeto Miramar. Ambos tinham estado envolvidos no álbum homónimo dos They’re Heading West (2015) e, quando Frankie Chavez ouviu o resultado final, contactou o outro guitarrista, mesmo sem se conhecerem pessoalmente. “Mandei-lhe uma mensagem a dizer ‘Grande cena, grande disco’. Não sei se teve impacto, mas quando ele foi convidado para o festival Guitarras ao Alto, perguntou-me se queria ir com ele.”
Seguiram-se mais atuações e ambos perceberam que trabalhavam tão bem juntos que não tinham vontade de parar, mesmo com Peixe a viver no Porto e Frankie Chavez com morada em Lisboa. Editaram Miramar em 2019 e uma tournée em Itália que, devido à pandemia de Covid-19, ficou adiada para 2021. Entretanto editaram mais discos (Miramar II e Miramar III) e recentemente assinaram a banda sonora de uma série sobre Carolina Beatriz Ângelo, 2513 — O Número Que Deu Voz às Mulheres, que há-de estrear-se nos próximos meses.
Pouco tempo antes de o mundo se fechar em casa, compôs também um tema para o Festival da Canção de 2019, que terminou em quarto lugar. Apesar de a interpretação de Mundo a Mudar ter ficado a cargo dos Madrepaz, foi Frankie Chavez que a trabalhou. “Foi a primeira vez que colaborei com o Pedro Puppe [autor da letra] e aí percebi que, afinal, não me sentia mal a cantar em português.”
Durante o confinamento só foi capaz de criar um tema, precisamente em português. “Mandei-a ao Pedro, dos Oioai, que é um amigo e escreve muito bem em português, e ele mandou-me uma letra passados um dia ou dois. Comecei a trabalhar e comecei logo a sentir-me bem. Naquela altura andava um bocado desmotivado e aquilo entusiasmou-me.”
Na casa onde vivia nessa fase, em Alcântara, montou um mini estúdio com um computador, uma placa de som, três ou quatro guitarras e começou a escrever. “Tinha uma ideia à noite e no dia seguinte, como não havia mais nada para fazer, pegava nessa ideia.”
Começaram a surgir mais ideias em português e, ao fim de dois meses, tinham nascido oito ou nove temas — melhor ainda, eram temas que não tinha vergonha de cantar. “Ouvia muito Jorge Palma e, quando comecei a escrever, inevitavelmente ia ouvir os discos dele para perceber soluções, eram as minhas aulas práticas.”
Aliás, há uma ligação a Jorge Palma bem mais antiga e especial. Frankie Chavez foi baixista da primeira formação dos Toranja, incluída na coletânea Optimus 2001 que pretendia juntar bandas emergentes a nomes consagrados. “Juntaram os Toranja ao Jorge Palma. Nós tocámos Fome (Nesse Sempre) e depois o Jorge Palma foi lá gravar o piano. Imagina três putos a perceberem que tinham um tema gravado com o Palma.”


Alcântara chegou às lojas em 2023 e, não conseguindo desfazer-se de alguns medos antigos, Frankie Chavez estava convencido de que nunca seria capaz de o apresentar ao vivo por ser cantado em português. “Até pensei que devia ter saído com um heterónimo, mas depois a minha agente marcou-me uma série de datas.” Porém, depois do verão, mais nada. “Foi um disco em que não olhámos a meios, gravámos no Porto, num estúdio do caraças. E depois, zero. Depois da pandemia, as oportunidades diminuíram ainda mais. Também percebo, os programadores queriam apostas seguras. Podem dizer-me assim: ‘Olha, grava músicas que a malta ouça mais’. Claro, é válido. Mas, por exemplo, o Bons Sons é um ótimo exemplo de festival onde há espaço para todos. Os promotores deviam prestar mais atenção a isso.”
Com quatro filhos (dois rapazes de 16 e 13 anos e raparigas gémeas de dez), contas para pagar e as obrigações naturais da vida adulta, percebeu que não dava para contar só com a música. Regressou ao negócio da família, onde agora trata da gestão de vários espaços, e a decisão trouxe-lhe uma leveza inesperada.
“Durante muitos anos tinha de ser autossuficiente com a música. Fiz alguns movimentos estratégicos que não foram os ideias, mas isso faz parte do caminho, e agora voltei a encarar a música quase como um hobby, algo que tem de servir puramente para me dar prazer. O Peixe disse-me uma vez uma coisa que guardei para a vida: ‘O entusiasmo é a melhor ferramenta que há’. E é isso que sinto, é um prazer estar a tocar.”
Está atualmente a finalizar um álbum cujo primeiro single deverá ser partilhado no final de outubro. Canta de novo em inglês, como se fosse um regresso àquilo que o definiu no início da carreira. “Tentei ir um bocadinho buscar aquela essência de fazer música pelas razões certas. Mesmo que a malta não goste, se eu gostar e me trouxer felicidade, acho que isso é que importa. Tentei muito agarrar-me a esta ideia outra vez.”