Morreu esta sexta-feira, em casa, o jornalista e escritor Joaquim Letria, aos 82 anos, confirmou o Observador junto da família. Letria ficou conhecido do grande público também pelos vários programas televisivos que apresentou na RTP e por momentos marcantes da história da televisão, como quando entrevistou uma cadeira vazia — onde deveria estar o então ministro das Finanças Miguel Cadilhe, que não compareceu à entrevista — ou quando moderou o debate entre Álvaro Cunhal e Mário Soares, em 1975.
O velório de Joaquim Letria está marcado para este sábado, a partir das 17h30, na Capela Mortuária da Igreja da Praça de Londres, em Lisboa.
Letria, um dos mais conceituados jornalistas portugueses, foi fundador dos semanários O Jornal e Tal & Qual e da revista Sábado e recebeu o Prémio da Imprensa na categoria ‘Televisão’, em 1974.
Nascido a 8 de novembro de 1943, em Lisboa, filiou-se no Partido Comunista aos 16 anos, tendo sido militante durante os oito anos seguintes. Em 1963, começou a trabalhar como jornalista no Diário de Lisboa, tendo também colaborado com a revista Flama e com o Rádio Clube Português.
Foi repórter internacional da agência The Associated Press e correspondente da Deutsche Presse-Agentur até 1970. Pouco depois, concorreu a um lugar na BBC, acabando por se mudar para Londres.
Em 1974, Joaquim Letria decidiu voltar a Portugal para dirigir a informação da RTP pós-25 de Abril. Esteve no ar mais de 24 horas na cobertura das primeiras eleições pós-revolução, em abril de 1975. Moderou também, em conjunto com José Carlos Megre, o célebre debate entre Álvaro Cunhal e Mário Soares, em novembro de 1975.
Depois de um desentendimento com o então Presidente da República, António de Spínola, que chegou a defender o despedimento de Letria da RTP, recebeu o Prémio da Imprensa na categoria ‘Televisão’, atribuído pela Casa da Imprensa, “pela vivacidade e o tom pessoal que conferiu ao seu trabalho”.
Um dos episódios mais caricatos da carreira de Joaquim Letria envolveu uma entrevista, a que o economista e então ministro das Finanças Miguel Cadilhe não compareceu. Letria acabou por fazer perguntas a uma cadeira vazia.
Em 1975, ajudou a fundar o semanário O Jornal, passando, pouco depois, para a agência noticiosa portuguesa ANOP. Foi ainda fundador de outro semanário, o Tal & Qual, e ainda da revista Sábado.
Já nos anos 80, e de regresso à RTP, Joaquim Letria enveredou pela criação e apresentação de programas, o que o tornaria popular junto do grande público. Criou e dirigiu os programas o Directíssimo e o Tal & Qual, que misturavam informação com entretenimento.
Letria foi também porta-voz da presidência da República, durante os mandatos de Ramalho Eanes, lugar que desempenhou até 1986. Regressou depois à RTP, onde apresentou o programa Já Está.
Voltou, no entanto, a sair, em 1988, para fundar e dirigir a revista Sábado. Em 1992, voltaria à televisão para apresentar o programa Rosa dos Ventos, na RTP Internacional. Ainda nos anos 90, apresentou os programas Apanhados e o talk show Conversa Afiada.
Nos anos seguintes, lançou os livros ‘A Verdade Confiscada. Escândalo – A Armadilha da Nova Censura’ e ‘Histórias Para Ler e Deitar Fora’, tendo colaborado com a Rádio Comercial e com o jornal diário 24 Horas.
Foi eleito presidente do Sindicato dos Jornalistas e lecionou, durante 20 anos, como professor convidado, na Escola Superior de Jornalismo do Porto, na Universidade Independente e na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo integrado o corpo docente do Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração (ISCIA) de Aveiro. Fez ainda consultoria de comunicação.
José Luís Carneiro diz que “o jornalismo e a democracia portuguesa ficaram mais pobres”. Benfica lamenta morte
O secretário-geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, já reagiu à morte de Joaquim Letria, considerando que “o jornalismo e a democracia portuguesa ficaram mais pobres”. Numa publicação no X, José Luís Carneiro diz que o jornalista e escritor foi “uma referência maior da nossa comunicação, um pioneiro da televisão livre e independente e um espírito permanentemente inquieto, dotado de uma lucidez, inteligência e cultura ímpares”.
https://twitter.com/jl_carneiro/status/2111070268571439229
“Endereço à família, aos amigos e a toda a classe jornalística as minhas mais sentidas condolências neste momento de luto. Até sempre, Joaquim Letria”, escreveu o líder do PS.
Já a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, lamentou também a morte de Letria, classificando-o como “uma das figuras mais marcantes do jornalismo do pós-25 de Abril”. Numa mensagem publicada na rede social X, Balseiro Lopes lembrou o “profissional multifacetado da comunicação, fundador de vários projetos editoriais, autor de vários livros”. “O país perde uma das figuras mais marcantes do jornalismo do pós-25 de Abril”, acrescentou a governante.
Também o Benfica, clube do qual Joaquim Letria era assumidamente adepto, veio manifestar “profundo pesar pelo falecimento de Joaquim Letria, figura de referência do jornalismo português e assumido benfiquista”. “Ao longo de uma extensa e prestigiada carreira, Joaquim Letria marcou de forma indelével a comunicação social em Portugal, deixando um legado reconhecido por sucessivas gerações de profissionais e pelo público. Neste momento de consternação, o Sport Lisboa e Benfica endereça as mais sentidas condolências à sua família, aos amigos e a todos os que com ele privaram”, escreve o clube, numa nota publicada no site oficial.
https://observador.pt/programas/resposta-pronta/o-joaquim-letria-foi-um-gigante-na-nossa-profissao/
Na Rádio Observador, o amigo e também jornalista Gonçalo Pereira Rosa defendeu que Letria “foi um gigante” do jornalismo. “Foi o único jornalista que conseguiu dominar todas as plataformas. Foi um jornalista de agência, de imprensa escrita, fundou revistas, foi apresentador de televisão e depois foi ainda para a rádio. Foi o homem dos cinco instrumentos”, disse Gonçalo Pereira Rosa, lembrando também a fase de cronista de Joaquim Letria, quando, já no século XXI, Letria “distribuía bordadas à esquerda e à direita pouco se importando se estava a ferir as suscetibilidades de alguém”. “Era um espírito livre”, lembrou.