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Sépsis. Porque é que os órgãos deixam de funcionar?

Miguel Soares provou que a gordura, essencial para sobreviver, é o principal combustível do organismo numa infeção grave. Seis anos depois de receber o Observador, estuda o tecido adiposo de doentes.

Sofia Teixeira
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Gonçalo Villaverde
photography

Este artigo faz parte da série “Antes e Depois”, um conjunto de reportagens sobre cientistas que já entrevistámos e cuja investigação revisitamos agora. 

Quando Miguel Che Soares nos recebeu pela primeira vez, a 21 de setembro de 2020, a segunda vaga da COVID-19 estava a aproximar-se. À entrada do Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, era preciso medir a temperatura e a entrevista foi feita ao ar livre, por precaução. Na altura, o investigador estava a tentar perceber melhor os mecanismos metabólicos envolvidos na sépsis — a resposta desregulada do organismo a uma infeção que pode levar à falência dos órgãos — que está associada a cerca de 11 milhões de mortes por ano em todo o mundo. A reportagem no Observador dava conta desse projeto.

Durante décadas, a investigação sobre a sépsis — ou septicémia — concentrou-se sobretudo em combater os agentes infeciosos e controlar a resposta imunitária. Miguel Soares e a sua equipa estavam a olhar para outra questão: a forma como o corpo gere os recursos energéticos de que precisa para continuar a funcionar. “Durante uma sépsis, o corpo reorganiza-se para ser o fígado a fornecer a glucose necessária”, explicava-nos em setembro de 2020. “Os doentes que morrem têm problemas de glicémia: uns têm glucose a mais, outros a menos. Estes mecanismos que regulam a capacidade de o fígado produzir glucose são essenciais: não para matar o microrganismo, mas para fazer com que os vários órgãos possam continuar a funcionar.” O projeto, iniciado no ano anterior, financiado pela Fundação “la Caixa” ao abrigo do Concurso HealthResearch, estava a estudar os genes associados à regulação do metabolismo da glucose.

Quando voltamos a conversar, precisamente seis anos depois, a 21 de setembro de 2026, muita coisa mudou. Desde logo, a instituição onde Miguel Soares trabalha: o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), onde nos recebeu em 2020, fundiu-se em outubro de 2024 com o Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM), dando origem ao Gulbenkian Institute for Molecular Medicine (GIMM).

Na investigação sobre a sépsis, também houve avanços, embora as respostas tenham gerado novas perguntas, como sempre acontece em ciência. “Percebemos que a glucose é muito importante, mas só durante um ou dois dias depois da infeção”, explica. Depois, há uma mudança. “A fonte de energia principal para sobreviver depois deste período inicial é o tecido adiposo. É a nossa gordura.” Por outras palavras, em resposta à infeção o organismo muda a forma como reparte a energia de que dispõe e troca de combustível: deixa de depender da glucose e passa a depender da gordura. Os resultados mais recentes da equipa indicam que esta mudança não é um simples efeito secundário da doença, mas uma resposta essencial para sobreviver à infeção — e que não se limita à sépsis.

Os financiamentos conquistados pelo cientista representam um apoio importante para o laboratório, num contexto em que a investigação continua dependente de oportunidades de financiamento escassas e pouco previsíveis. “Andamos sempre à procura de soluções para resolver o impossível, que é a falta crónica de financiamento do Estado”, diz o investigador.

Com base nesta observação, o cientista está agora a iniciar um projeto de três anos que pretende estudar diretamente o que acontece no tecido adiposo de pessoas com sépsis. O Sepsis-Atlas, em conjunto com o médico intensivista Daniel Costa Gomes, do Hospital de Santa Maria, pretende criar um mapa detalhado da atividade genética das células do tecido adiposo de doentes com choque séptico internados nos cuidados intensivos, para compreender melhor como este tecido reage a uma infeção grave e de que forma pode ajudar a proteger o organismo.

“No fundo”, explica, “vamos cartografar o que distingue os pacientes que sobrevivem dos que não sobrevivem à sépsis.” No final, todos os dados gerados serão disponibilizados à comunidade científica, para que outros investigadores possam explorá-los e procurar novas pistas para compreender e tratar a sépsis.

Quando pensamos em infeções graves e fatais, pensamos geralmente em bactérias e vírus. Mas também há parasitas que podem desencadear uma resposta desregulada do organismo, provocar sépsis e levar à falência de órgãos. É o que pode acontecer em casos de malária grave. Miguel Soares estuda há muitos anos como pode o organismo proteger-se dos danos provocados por esta infeção. Este ano, recebeu, pela segunda vez, uma bolsa ERC Advanced Grant, no valor de 2,5 milhões de euros, para financiar, durante cinco anos, o projeto KILLBILL, que vai investigar como a bilirrubina — o pigmento amarelo associado à icterícia — pode ajudar a combater o parasita, proteger os tecidos e modular a resposta imunitária.

A equipa (com Andrea Conroy, cientista canadiana baseada no Uganda) recebeu também financiamento da Fundação “la Caixa” para investigar o papel protetor da bilirrubina na lesão renal aguda associada à malária. Os resultados mais recentes do laboratório mostram que metabolitos como a bilirrubina, substâncias que o nosso próprio corpo produz, podem ser reaproveitados para atacar e matar os agentes infeciosos e, ao mesmo tempo, proteger-nos dos danos e das lesões que a infeção provoca nos tecidos. Isto liga duas estratégias de defesa distintas: a resistência, que consiste em eliminar o microrganismo, e a tolerância à doença, que consiste em limitar os estragos que a infeção causa no organismo.

“Vamos cartografar o que distingue os pacientes que sobrevivem dos que não sobrevivem à sépsis”, diz Miguel Soares. No final, todos os dados gerados serão disponibilizados à comunidade científica, para que outros investigadores possam explorá-los e procurar novas pistas para compreender e tratar a sépsis.

Os dois financiamentos representam um apoio importante para o laboratório, num contexto em que a investigação continua dependente de oportunidades de financiamento escassas e pouco previsíveis. “Andamos sempre à procura de soluções para resolver o impossível, que é a falta crónica de financiamento para ciência do Estado”, diz o investigador.

E a pressão não é apenas financeira. Nestes seis anos houve outra mudança: a rapidez com que foram desenvolvidas vacinas contra a COVID-19, apesar da desconfiança que também as rodeou, alimentou a ideia de que a investigação pode resolver problemas complexos quase à mesma velocidade com que surgem. Mas a ciência nem sempre avança ao ritmo das expectativas e da exigência de produzir rapidamente resultados comercializáveis.

Na sépsis, em particular, há ainda muito por compreender. Apesar das décadas de investigação, continua por esclarecer por que razão uma infeção grave leva órgãos como o fígado, os rins ou os pulmões a deixar de funcionar e como é possível evitar essa falência e aumentar a sobrevivência dos doentes.

É uma pergunta que acompanha Miguel Soares há muitos anos e que continua a orientar o seu trabalho. “No fundo, ao longo destas décadas de trabalho, a minha grande pergunta tem sido sempre a mesma: ‘porque é que morremos com uma doença infeciosa?’”