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E se a almoçarada do padel desse em restaurante? É Regabofe de marisco e prego do lombo

"Descontraída, boa onda" e, já agora, para almoços fora de horas a um passo do Marquês de Pombal. O que é que falta nesta marisqueira? A massada de lavagante que este seis cozinham depois dos jogos.

Maria Ramos Silva
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Inês Lacerda
photography

A história

Em qualquer caso, mas neste em particular, compreende-se que o compromisso desportivo seja uma mera desculpa para o que vem a seguir. “Nós queimávamos as calorias para as ganharmos a seguir”, admite Salvador Colaço, um dos seis amigos, e agora sócios, que se habituaram a rematar as partidas de padel com uma almoçarada semanal, ou mensal, improvisada em destinos como o Padel Factory, onde não faltavam petiscos como uma massada de lavagante – de tal forma lendária que já a pediram por aqui. Tudo pratos confecionados por cada dupla de atletas, que sessão após sessão ia elevando a fasquia, mais fora do campo do que dentro dele. “Na semana a seguir, lá vinham outros dois que queriam fazer melhor”, recorda, sobre um grupo que se formou há cerca de oito anos e que viu serem adiados cozinhados mais ambiciosos.

“Há anos que andamos nesta conversa. Temos que abrir um espaço. Todos gostamos de comer e beber bem, por isso havia esta conversa que fomos empurrando com a barriga, porque ninguém se queria meter na restauração. Todos os amigos que tenho na restauração me diziam: ‘foge disso!”. Mas o plano de fuga rendeu-se à certeza de um conceito que há muito marinava e quando por fim surgiu a oportunidade do espaço, foi: “bora, temos que avançar”.

O grupo de investidores tinha “100 por cento de certeza” de que seria uma marisqueira, não só pelo gosto pessoal mas por sentirem falta de mais espaços do género na cidade, que permitem, desde logo, estender os horários das refeições. “Quando queremos almoçar às duas e meia, três da tarde, não há nada. Aqui estamos o dia todo aberto. Temos clientes que já preferem ter a reunião à uma e se calhar vir almoçar às três, mais sossegados.” explica o fotógrafo, cujas fotos a preto e branco, espelho do imaginário nos interiores, decoram alguns dos recantos da casa.

À noite, pelo menos para já, a cozinha vai estender-se até às onze, com o espaço a encerrar pela uma, sobretudo em dias mais fortes, de quinta a sábado, para uma opção quase solitária na vida pós-laboral na Alexandre Herculano. “Achámos que a rua não era assim muito movimentada, mas é bastante, porque tens muitos hotéis aqui ao lado, e nós não tínhamos noção. E temos imensas pessoas que vêm de passagem”.

A Salvador, à frente da comunicação e redes, juntam-se Francisco Mira, Miguel Mouzinho, António Moura Dias e ainda os irmãos Pedro e Diogo Coucello, netos do fundador do histórico Fuso, em Arruda dos Vinhos, que trazem a bagagem da restauração para esta aventura. “Pai, tens que voltar para o Fuso porque vou abrir uma marisqueira em Lisboa!”, ri-se Diogo, recordando o momento em que comunicou em casa este desvio dos famosos bacalhau assado e costela, uma instituição desde o começo dos anos 70, a cerca de meia hora da capital.

O restaurante estreou-se em regime de abertura suave a partir da última semana de julho, os motores ainda foram aquecendo devagar em agosto, entre “coisas para afinar”, e é no regresso à rotina da cidade que a máquina vai mexendo mais. Regabofe? Aqui chegados, ainda haverá necessidade de explicar? “Não podia ser outro nome senão um grande Regabofe, que é o que nós fazemos nas nossas almoçaradas, comer e beber em abundância.”

O espaço

Onde antes funcionou um espaço dedicado ao ramen, as referências marítimas revelam-se nas redes, no típico impermeável amarelo pendurado numa das janelas para a rua, no balde para o vinho, ou na balança. Detalhes que pontuam uma decoração despojada, entre tampos de pedra, cadeiras de madeira, guardanapos de papel, ventoinha metálica no teto ou providenciais copos de aço inoxidável para manter a cerveja naquele ponto de frescura que separa a mediania da perfeição. “Foi pensar no que não temos, uma marisqueira mais cool, sem luz branca e barulhenta. Algo com mais onda, que tivesse a qualidade de produto como exigência máxima, a um preço justo dentro do marisco, que é um produto caro.”

Os metros quadrados, ampliados pelo efeito dos espelhos XL nas paredes, permitem 58 lugares no interior – mais 14 no deck de esplanada. Ao fundo, uma sala que convida a convívios mais isolados e restritos, mas que fique claro que “descontração” é a palavra de ordem nesta marisqueira.

Inicialmente, ponderaram dar “apenas umas pinturas”, sem grandes intervenções na área, mas foram partindo aqui e ali e quando deram por isso impunha-se já “fazer uma coisa como deve ser”. O projeto acabou por ser entregue a Miguel Mouzinho, “que é arquiteto, já teve vários restaurantes, e ficou com a gestão da obra”, recorda Salvador. Explicado o conceito, e o budget, era claro que preferiam depositar o risco mais na parte gastronómica do que na decoração.

“Não queríamos estar aí com candeeiros xpto, e não sei mais o quê. Acho que ficou um mix engraçado, uma coisa simples, cool, descontraída, que à noite ganha uma vibe diferente”. À noite as luzes do teto são desligadas e acendem-se os candeeiros de mesa, para um ambiente mais “acolhedor e vivo”.

A comida

A carta é cirúrgica e à medida de uma cozinha onde “não dá para inventar muito”, dadas as limitações do espaço. Lembra-se da massada umas linhas acima? É provável que seja uma das especialidades em destaque num eventual cenário, previsto para breve, de prato do dia, quando atrás do balcão o serviço estiver perfeitamente oleado. Para já, não faltam alternativas para diferentes registos, com o chef Nuno Bandeira de Lima a fornecer orientações na cozinha. “Queremos fugir um bocadinho à marisqueira normal. A ideia não é ter a casca de sapateira que toda a marisqueira tem, ou o mesmo tipo de croquete. Temos um croquete de rabo de boi As nossas gambas da costa marinadas também são muito boas”, explica Salvador. “Ele percebeu bem o que queríamos e o Diogo também percebe muito de cozinha, viu logo o que deveríamos ter ou não. O que é que a nossa cozinha dá para fazer ou não.”

Para iniciar, presunto de pata negra (21 euros), os tais croquetes de rabo de boi (4,9 euros) com mostarda, a tal gamba da costa marinada (19,50 euros), as ostras com ovas tobiko (15 euros) ou os (incríveis) crocantes de camarão (11 euros). Do mar chegam ainda amêijoas à Bulhão Pato (29,50 euros), lapas (17,50), camarão alistado ao alhinho (ao quilo), camarão tigre ou carabineiros. Sem perder a terra de vista, e aquele conforto extra depois de lambuzar os dedos, há pica-pau à Regabofe (19,50), e prego do lombo no pão (14,50), que tanto se devora à mão com mostarda como se deixa cortar com faca pensada para o efeito. Talvez tenha sido sorte de principiante, mas neste dia de prova a tenrura da carne, mal passada, praticamente dispensava acessórios. Para quem não se alambazou tanto na primeira etapa, um bitoque do lombo (20) ou um ribeye do Uruguai para partilhar (49,50). “Não trabalhamos com o tipo de carne senão lombo e ribeye”. Para terminar, há tarte basca, abacaxi com raspas de lima ou salame de chocolate.

A carta de vinhos, com opções a copo, também é enxuta. Não há espaço em armazém para grandes stocks mas têm funcionado com taxa de rolha, portanto pode trazer a sua garrafa (alternativa? Também há cocktails, para quem preferir). A fechar, um Kaffa, um “café ótimo de uns amigos, que decidimos ter aqui”, apresenta Diogo, sobre a marca de cápsulas de café biológico.

Se estas mesas podem ser o próximo destino pós-sessão de padel? Deles, de certeza. Se não for alérgico ao marisco, o resto é consigo. “Já aqui comemos os seis, claro, várias vezes”.

Regabofe, R. Alexandre Herculano 17b, 1250-096 Lisboa. Das 12h30 às 23h00. Encerra ao domingo