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Em Serralves: o caminho que vai das pedras até ao céu, com Lee Ufan

Aos 90 anos, o reputado artista coreano expõe uma série de pinturas e esculturas, pela primeira vez, em Portugal. O diálogo de Ufan com a Casa e o Parque de Serralves pode ser testemunhado até março.

Carina Fonseca
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Lee Ufan disfarça bem os 90 anos completados recentemente. Conseguimos imaginar um dia de trabalho normal na sua vida de artista viajante, nascido na Coreia do Sul, mas sem pouso único: da caminhada matinal de uma hora realizada logo ao acordar, esteja onde estiver; à capacidade de suster a respiração, durante dois minutos, enquanto trabalha numa tela. Esses e outros aspetos das suas rotinas pessoais e de trabalho surgem em conversa na Casa de Serralves, no Porto, enquanto decorrem os preparativos para a sua primeira exposição em Portugal, prestes a ser inaugurada naquele museu de arte contemporânea. Fragmentos do Infinito reúne um conjunto de esculturas e pinturas instaladas no interior da villa e ao ar livre, num diálogo com o que existe em volta.

Em nota oficial, sublinha-se a “abordagem inovadora do artista à relação entre paisagem natural e espaço arquitetónico”. E, de facto, a Casa de Serralves parece transformar-se ao acolher os quadros de Lee Ufan, peças de forte impacto, apesar da “economia do gesto” que comunicam, para usar a expressão de Philippe Vergne, curador da exposição. “Estou muito entusiasmado! Há muito tempo que queria trabalhar com ele”, revela o também ex-diretor do Museu. Uma das pinturas apresentadas foi mesmo concebida especificamente para aquele local, naquele local, ou melhor, numa “sala dentro de uma sala”, de aspeto minimalista, criada para o efeito. Serralves apelida-as de “pinturas meditativas”.

Ufan explica, por intermédio de uma tradutora, que não pratica propriamente meditação, ou talvez o faça à sua maneira. Nas pausas de trabalho, gosta de beber uma caneca de chá, de sentir paz de espírito e, às vezes, de fitar a tela em branco. Mas põe a tónica na respiração: antes de fazer deslizar o pincel sobre a tela, respira fundo; mas, quando começa a pintar, sustém a respiração durante um minuto e meio ou dois minutos, proeza justificada com muitos anos de treino. “Esta é uma parte muito importante, porque há muita fisicalidade no centro da sua prática. E ele sente que, ao restringir a respiração, pode estar em sintonia com o universo ou com o cosmos”, traduzem-nos.

A experiência do visitante assume ainda outros contornos diante de obras que combinam pedra, luz e sombra, ou mesmo o som dos nossos passos sobre placas de xisto entre paredes, numa tentativa de dotar o espaço de algo primitivo, como acontece com a obra “Relatum — Dwelling” (2026). Entretanto, lá fora, joga-se com elementos visuais do edifício, mas também com a natureza, do chão relvado às árvores tendentes para o céu, esse que surge refletido numa das obras e se torna parte dela. Chama-se “Relatum — The Sky Road” e é uma espécie de passadeira espelhada que se estende pela relva, em diálogo com duas pedras, cada uma pesando mais de uma tonelada. Os visitantes são convidados a percorrer esse trajeto, como se caminhassem no céu, por isso, já se adivinha o seu potencial enquanto “íman do Instagram”, comenta Philippe Vergne. Mas é, sobretudo, um exemplo de como a obra de Lee Ufan conjuga elementos naturais e industriais, ou seja, o que já existe e o que a humanidade se encarrega de transformar. A propósito, o que parece um espelho é, na verdade, aço inoxidável, material bem presente nas obras deste que é “um dos mais celebrados nomes da arte contemporânea das últimas seis décadas” (só neste ano, tem obras patentes em Nova Iorque e Veneza, além do Porto).

“Somos um pequeno fragmento do infinito”

Philippe Vergne, citado em comunicado, considera que “trabalhar com Lee Ufan é um privilégio e uma aprendizagem. Uma aprendizagem de rigor filosófico e estético intransigente. A sua utilização dos materiais, a sua linguagem, a sua sintaxe, tornaram-se cada vez mais profundas, precisas e exigentes ao longo dos anos”. Não duvida: “As suas pinturas e esculturas fazem-nos ver aquilo que é impercetível: a natureza do espaço, da luz, do tempo. Convida-nos a valorizar e a proteger aquilo que é efémero, aquilo que é mais vulnerável. Estar perante a obra de Lee Ufan é uma lição de humildade, pois recorda-nos que somos, no espaço e no tempo, um pequeno fragmento do infinito”.

A exposição engloba quatro pinturas da série “Response” (2023, 2025), “cada uma composta por uma tela branca com campos cromáticos em gradiente que passam do preto ao branco através de vermelhos e azuis luminosos”, descreve o mesmo comunicado. “Criadas durante o surgimento do movimento de pintura coreano Dansaekhwa [Pintura Monocromática], na década de 1970, estas obras recorrem a pinceladas mínimas, muitas vezes únicas, sobre superfícies amplas e meticulosamente preparadas, explorando a respiração, o tempo, o vazio e a presença. Estes gestos estabelecem um diálogo sereno entre a marca deixada pelo pincel e a perceção do vazio, convidando a uma contemplação pausada e silenciosa.”

Às pinturas juntam-se esculturas da série “Relatum”, termo que remonta aos anos 1970, alusivo ao diálogo entre elementos diversos. “Relatum — Dialogue” (2026) e “Relatum — Jump Stand” (2026) são algumas delas, todas combinando pedras de grande dimensão e materiais como placas de aço ou vidro. Lee Ufan constitui, aliás, o principal teórico do movimento de vanguarda japonês Mono-ha (“Escola das Coisas”), nascido entre fins da década de 1960 e inícios da década de 1970. Os adeptos deste importante movimento artístico do Japão do pós-guerra criavam com base em pedra, madeira, vidro e outros materiais em bruto, em ligação com o espaço circundante.

Filósofo, escritor, poeta e caminhante

Lee Ufan nasceu em Gyeongsangnam-do, na Coreia, mas vive e trabalha em Kamakura, no Japão, e em Paris, França. Também trabalha noutros pontos da Europa e vai muitas vezes à Coreia, por isso, entende que não tem raízes num só lugar e vê-se como um artista nómada. Além de pintor e escultor, Ufan é filósofo, escritor e poeta. Os seus dias de trabalho oscilam entre a escrita e as artes plásticas, sem descurar as referidas caminhadas com uma hora de duração, o primeiro gesto das manhãs. O percurso, que pode incluir paragens, é o mesmo em cada cidade, mas há dois modos de o seguir: a prestar atenção ao mundo exterior; ou concentrado no que tiver na cabeça, num fervor da imaginação que lhe pode valer embates contra árvores e outros obstáculos, na rua.

Da sua carreira com mais de 50 anos constam diversas exposições individuais, em lugares tão distintos como os Jardins do Rijksmuseum (Amesterdão, Países Baixos, 2024); a Art Gallery of New South Wales (Sydney, Austrália, 2024); o Centre Pompidou-Metz (Metz, França, 2019); o Palácio de Versalhes (Versalhes, França, 2014) ou o Museu Guggenheim (Nova Iorque, EUA, 2011). Em 2022, abriu portas o Lee Ufan Arles, após a inauguração do Lee Ufan Museum, em Naoshima, no Japão, em 2010, e do Space Lee Ufan, em Busan, na Coreia, em 2015. A organização de Fragmentos do Infinito está a cargo da Fundação de Serralves — Museu de Arte Contemporânea, em colaboração com a SCAI The Bathhouse.