A indignação não é um defeito de fabrico das democracias, é o seu oxigénio. Felizes as sociedades que, perante a asfixia das circunstâncias, recusam a anestesia do conformismo e saem à rua para resgatar o futuro. Em Portugal e na Europa de hoje, os motivos para o descontentamento não são construções teóricas, são faturas ao fim do mês. A crise imobiliária empurrou a classe média para a periferia da subsistência e esmagou a emancipação dos mais jovens, a inflação implacável devorou o poder de compra de mais de metade dos portugueses, e o trabalho, que outrora era o passaporte para a dignidade, transformou-se para muitos num esforço inglório que já não garante a fuga à pobreza. Manifestar-se contra esta decadência não é apenas um direito legítimo, é um dever cívico. O problema, contudo, começa quando a montra desta aflição real é assaltada por quem não quer resolver o presente, mas sim desenterrar os piores fantasmas do passado.
Recentemente, num exercício quotidiano de scroll pelas redes sociais, deparei-me com uma sucessão de vídeos de protestos que ecoam pelas capitais europeias. A internet, que nos foi prometida como a grande ágora da liberdade e da pluralidade, revelou-se um assustador espelho de uniformização. Rostos diferentes, geografias distintas, mas uma cartilha milimetricamente idêntica. Há uma coreografia discursiva ensaiada, uma dialética estéril e uma rigidez doutrinária que não brota do desespero genuíno de quem não consegue pagar a renda. Aquilo que vemos nos ecrãs não é o grito livre do cidadão comum, é a linguagem enlatada de laboratórios de agitação política.
O diagnóstico ascende ao plano do absurdo e do anacronismo quando percebemos que esta indignação legítima é embrulhada, sem pudor, em citações de Lenine e em elogios nostálgicos à antiga União Soviética. Assiste-se a uma perigosa amnésia coletiva onde uma “juventude dourada”, protegida pelas benesses do capitalismo ocidental que tanto finge desprezar, brinca aos pequenos Lenines e Estalines no TikTok. É o romantismo do totalitarismo de sofá, onde a barbárie histórica é reduzida a uma linha de merchandising estético e digital.
Esquecem-se estes novos revolucionários de olhar para a verdadeira história das revoltas trabalhistas. No século XIX, as lutas operárias que moldaram a Europa ocidental não nasceram de caprichos ideológicos, mas sim da miséria visceral das minas e das fábricas. O sindicalismo autêntico, de matriz reformista e pragmática, não queria destruir o mundo, queria torná-lo habitável. Exigia conquistas humanas e tangíveis: a jornada de oito horas, o descanso semanal, a proteção na doença e
um salário que alimentasse as famílias. Havia ali uma nobreza moral e uma justiça incontestável.
A grande tragédia do século XX ocorreu precisamente quando essa energia legítima dos trabalhadores foi sequestrada pelo dogmatismo marxista-leninista. Onde o operário pedia pão e dignidade, o partido exigiu a “ditadura do proletariado”. O resultado dessa captura é uma lição histórica que o algoritmo insiste em ocultar: os sindicatos livres foram esmagados, os comités de fábrica tornaram-se extensões da polícia política e os próprios trabalhadores acabaram subjugados pela fome ou enviados para os Gulags. Foi preciso esperar décadas para que, nos estaleiros de Gdansk, o sindicato Solidariedade recordasse ao mundo que o coletivismo de Estado é o maior inimigo da dignidade do trabalhador. É essa lição que a nostalgia barata das redes sociais tenta apagar.
Perante isto, impõe-se a pergunta essencial: afinal, qual é o objetivo?
A resposta é tão antiga quanto o próprio oportunismo político. Para as franjas radicais que hoje tentam cavalgar a frustração popular, a crise da habitação ou o custo de vida são meros combustíveis descartáveis. O intuito nunca foi encontrar soluções reformistas dentro do quadro democrático, mas sim instrumentalizar o sofrimento dos cidadãos para alimentar uma agenda de polarização e rutura civilizacional. O cidadão comum manifesta-se para pedir menos asfixia; o ativista profissional usa-o para validar um dogma que, se alguma vez fosse implementado, eliminaria a própria liberdade de expressão.
A Europa e Portugal não precisam de receitas soviéticas requentadas e formatadas para consumo rápido no Instagram. Precisamos de reformas estruturais, de choque fiscal, de dinamismo económico e de soluções pragmáticas para os problemas reais das famílias. Devemos continuar a exercer, com firmeza, o nosso direito à indignação e a exigir responsabilidades a quem governa. Mas temos de o fazer com os olhos bem abertos e com a lucidez necessária para não carregar aos ombros as bandeiras daqueles que, se chegassem ao poder, seriam os primeiríssimos a retirar-nos o direito de protestar.