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Pequenos grandes avanços

Ciente de que nada do que faço muda o mundo posso atentar nos nadas que o vão mudando, nos quais se nota pouco.

Djaimilia Pereira de Almeida
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O tempo passa, vou envelhecendo. Sobram os dias em que ainda escolho por mim, tomo decisões, decido o curso dos meus dias e da minha vida. Diante da minha mínima esfera de influência, da pequena esfera de cada um, ao balanço do compasso do mundo, resta o pequeníssimo avanço que me mantém viva: uma, duas, três, quatro pessoas amadas, os meus livros, os lugares nos quais me reconheço. Sempre que vivo um avanço, dou conta da escala em que me movo, a escala exacta da minha vida, ciente da sua proporção ínfima. As grandes alegrias — que são? Que podem?

Mas ganho, a par e passo, o gozo dessa pequena vantagem, de não ir além do muito pouco, do parcial, do minoritário, do que outros não notam. E regozijo-me com os pequenos nadas que são as minhas vitórias, prezo os passos como os primeiros passos de uma criança, satisfaço-me sem nutrir a menor fantasia de que aquilo que me move é a transformação.

O negócio de uma escritora é o invísivel. Tento acordar os sentidos e os impulsos, estar atenta, à coca. Saia ou não de casa, interessa-me a ponta do sapato, o lóbulo da orelha, a unha partida, a collant esgarçada. Ou os putos a atravessar a passadeira em bando, quando ainda não sentiram na pele a maldade dos outros, e tudo neles é pureza e uma viola.

Já fui assim, estive ali. Íamos em grupo para a floresta: beber, fumar, tocar, cantar e chorar.

Apenas ciente de que nada do que faço muda o mundo posso atentar nos nadas que o vão mudando, nos quais se nota pouco. E aí, como um espectáculo sem intervalos, as coisas dão-se aos meus olhos, gratuitas e em catadupa. É o pescador que pesca e lança o peixe à água. A tatuagem sobre o umbigo da mulher enfadada, diante do marido, à mesa do restaurante. O arco das unhas de gel da funcionária da bomba de gasolina. A fúria do condutor de autocarro sem regras. As abelhas em redor das ostras. O cheiro da goiaba na fruteira (vaginal, felino?).

Estar feliz é, com sorte, condição de querer apenas uma coisa muito pequena de cada vez. Alegro-me com uma vírgula bem posta ou com um abraço. Com o pendente de um fio ou com fazer as pazes. Com a distância que ganhei do sofrimento ou com a cadela de vinte anos que vejo todos os dias. Com saber que não posso ver jamais a quem, no limite, sempre respondo. Com tudo quanto é só minha religião inventada.

Uma senhora que amo, com a vida por um fio, falava-me no outro dia de esperança, dizendo-me que só pedia mais cinco anos de vida. Senti-me tão pequena diante do seu desejo afinal tão sábio: que seria para mim saber que só teria mais cinco anos para viver?

Aos catorze, passava o dia a rir com as minhas amigas. Achávamos graça a tudo. Brincávamos com toda a gente. No ano seguinte, subitamente, tudo perdeu a piada. Passei a estar sempre triste. Estou destinada a passar a vida em busca das gargalhadas das minhas amigas desse tempo quando, só de as ouvir, desatava a rir sem razão, e assim a tarde inteira, todos os dias.