(c) 2023 am|dev

(A) :: Entrevista. Joaquim Chissano responde a Mondlane: "Um não é mais povo do que o outro"

Entrevista. Joaquim Chissano responde a Mondlane: "Um não é mais povo do que o outro"

Instituições são para respeitar. Quem organiza protestos deve pesar consequências. Porque "morte é morte". Antigo Presidente deixa recado a Mondlane: interesse do povo deve estar acima de egoísmos.

Dulce Neto
text
Inês Lacerda
photography

Estadista? Não, “homem do povo”. Durante oito dias, Joaquim Chissano deu uma “aula magistral”, assinou protocolos, ouviu elogios de Seguro e Marcelo, esteve no Fólio em Óbidos, em Coimbra na Universidade, na Assembleia da República e na sede da CPLP, em Lisboa, e em Cascais, nos Paços do Concelho. Mas, não foi “como estadista” que o antigo Presidente de Moçambique veio a Portugal, garante ao Observador.

“Vim cá como homem do povo para criar condições para podermos trabalhar com os portugueses que quiserem trabalhar para ajudarmos o nosso povo, ajudar o nosso Governo a fazer coisas”, diz no final de uma entrevista ao Observador, no Grémio Literário, na capital portuguesa. A mesma cidade onde aprendeu a “andar de elétrico”, pois em “Moçambique só tinha visto os carris onde outrora passara o elétrico”, contou na abertura do ano letivo na Universidade Europeia, em Moscavide, nesta segunda-feira. Para logo a seguir provocar o riso no auditório: “Quando cheguei a Lisboa [para estudar Medicina, no início dos anos 60] ouvi uma anedota: um aluno disse para o professor Marcello Caetano: ‘Oh senhor professor, lá em Lourenço Marques salvei-me por um triz de um leão, corri e entrei no elétrico e safei-me!’ Ao que Marcello respondeu: ‘Ó meu filho, acredito num leão em Lourenço Marques, mas elétrico…”.

Neste roteiro em que deu a conhecer o trabalho da Fundação Joaquim Chissano, a histórica figura moçambicana contou histórias e piadas, trouxe memórias de negociações e de momentos difíceis, apelou aos jovens e aos líderes. Uma palavra foi denominador comum de todos os seus discursos: a paz.

No memorando de entendimento que assinou com a câmara de Cascais, figura a paz como um dos eixos centrais, por exemplo. Na Universidade Europeia, onde o Presidente de Portugal exaltou o seu papel na construção de um Moçambique democrático sem conflitos armados, não só salientou o programa para a paz da sua Fundação, como lembrou a lição aprendida, ao fim de 16 anos de guerra civil, quando assinou o Acordo com a Renamo, a 4 de outubro de 1992. “A paz faz-se com quem pensa diferente e até com quem ontem foi adversário político e inimigo no campo militar”.

No Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, salientou que “a cultura é muito importante para a paz e a paz é fundamental” para o seu país. Durante o debate “Portugal-Moçambique: Diálogo, Cooperação e Desenvolvimento”, na Fundação Mário Soares e Maria Barroso, ao lado do seu homólogo Marcelo Rebelo de Sousa e do líder socialista, José Luís Carneiro, afirmou: “O consenso encontra-se com um diálogo persistente, criando em primeiro lugar a confiança”. Já na sede da CPLP, o presidente honorário da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), o partido no poder há 51 anos, e chefe de Estado moçambicano durante 18 anos, entre 1986 e 2005, referiu que “há várias maneiras de trazer consensos quando há problemas muito complexos e a melhor maneira às vezes é o silêncio”.

Paz, diálogo e consenso foram ideias que cruzaram as respostas de Joaquim Chissano na entrevista ao Observador, enquanto ia batendo ligeiramente com as mãos na mesa, com o seu anel de ouro a marcar o ritmo das palavras no tampo de madeira. Em Moçambique arrancou o Diálogo Nacional Inclusivo, processo nascido depois da violência nos protestos pós-eleitorais do final de 2024 e início de 2025 em que pelo menos 400 pessoas morreram (número de organizações não governamentais e do partido Anamola). Mas quando o Observador perguntou se a iniciativa — que é patrocinada pela União Europeia e foi apresentada ao mais alto nível pelo Presidente Daniel Chapo na 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, em setembro — incluía o principal opositor político, Venâncio Mondlane, o grande rosto da mobilização da contestação nas ruas, e o seu partido Anamola, a resposta, levemente impaciente, foi tudo menos clara.

Sobre esses cinco meses de violência na rua, Joaquim Chissano, que dentro de dias faz 87 anos, aconselhou a que “cada um metesse a mão na sua consciência”, e defendeu que quem organiza protestos devia pesar bem as consequências de um eventual descontrolo das manifestações, porque “morte é morte”, não interessa de quem. O antigo líder moçambicano, que também foi o primeiro chefe da diplomacia de Moçambique independente sob a presidência do mítico Samora Machel e o primeiro-ministro de transição (1974-1975) não perdeu a oportunidade de lançar uma indireta ao carismático Mondlane que arrasta multidões: “O povo deve estar acima dos nossos egoísmos”.

O Presidente português, António José Seguro, elogiou o seu papel na construção da paz, da democracia multipartidária e na abertura da economia moçambicana e agradeceu-lhe por continuar a ser uma voz da paz e do diálogo. Ao olhar para o percurso de Moçambique desde que deixou a Presidência, que balanço faz? Revê-se neste país atual?
Sim, revejo-me. Precisamente neste momento, porque em Moçambique só se fala de diálogo nacional e inclusivo. E que é um diálogo que começou já há vários meses e que está progredindo, está tomando forma em vários escalões da população. Portanto, a busca não é apenas de consolidação da paz, mas também de reconciliação e de inclusividade, de espírito de tolerância.
Quando eu deixei a presidência estávamos em paz, embora houvesse alguns distúrbios localizados num ponto do país, que era um ponto no centro do país, mas todo o território estava tranquilo e continuou até agora. E agora esse tal ponto passou para o norte por outros motivos, que é um movimento estranho, novo, que aconteceu e que tem o nome de terrorismo.

Está a falar em Cabo Delgado.
Cabo Delgado. Mas o país está mesmo assim a marchar.

Mas já que fala em Cabo Delgado, é uma guerra que se prolonga há muitos anos, apesar das operações militares e apesar do apoio externo. O que é que, na sua opinião, falhou na resposta do Estado para que esta insurgência continuasse a encontrar condições para persistir?
Primeiro foi a surpresa. Penso que ninguém estava à espera de um movimento jihadista com características de extremismo islâmico em Moçambique. E [para encontrar as] formas de combater este mal, que era novo na zona, não só em Moçambique, mas em toda a região, foi preciso fazer um estudo e o que se encontrou foi a mobilização, primeiro das nossas populações e, segundo, pedir apoios externos.

Que existem…
Então tivemos os apoios externos primeiro da região e de um país amigo que é o Ruanda. E serviu para ir repelindo os ataques. E hoje os ataques já são muito brandos, pelo menos permitem o retorno das atividades económicas, mesmo aquelas que tinham fechado, que reabriram. Dou o exemplo dos projetos de gás com os franceses da Total, que reabriram em grande. O aparecimento da segunda plataforma dá confiança aos investidores e muito mais a nós próprios, moçambicanos.

Mas acha que é possível resolver este problema militarmente? Sem enfrentar a pobreza, a exclusão e a falta de oportunidades daquela população?
Não se deve pensar em resolver apenas militarmente. Por isso, saúdo os esforços que o Governo está a fazer, de mobilização das populações e da juventude, para que a luta contra o terrorismo seja levada a cabo por todos, em várias frentes.

O caminho que está traçado é o ideal? Não prevê ou não aconselha aqui nenhuma mudança de estratégia?
Bom, esta já é uma mudança de estratégia, no sentido de que realmente toda a gente está envolvida, as religiões todas [por exemplo]. Os muçulmanos, em particular, nas suas diferenças, juntam-se contra este mal. [Aposta-se] na educação das crianças, dos jovens, e [há] o esforço económico para melhorar a vida das próprias populações, [para] a criação de ocupação, para não dizer emprego, mas de ocupação, que possa aumentar rendimentos familiares e de jovens.

É uma coisa de que eles se queixam muito. Dizem que é uma zona rica em recursos naturais, que as grandes empresas estão lá, mas depois não sentem o reflexo disso na sua vida.
Sim, mas isso é a falta ainda da visão de como as empresas funcionam. São instaladas e têm que começar a funcionar, e [só] começam a dar rendimento a um dado momento. Pensa-se muito que é chegar e já ter o que distribuir… É preciso um bocadinho de paciência. E o Governo vai encontrando essas fórmulas para ir resolvendo o que pode, mas esperando que essas empresas, num futuro próximo, possam ter mais inputs para a própria população. Por exemplo, o projeto da Total estava encerrado, não estava a tirar dinheiro, o projeto está lá, mas não estava a tirar dinheiro nenhum. Agora vai tirar dinheiro para resolver vários assuntos essenciais, penso eu, que é o que deve ser, para que depois haja um ritmo maior de formação das pessoas, para arranjar emprego, alimentos, etc., melhores condições de vida.

O país está numa crise financeira e económica profunda, muito diferente daquela que deixou quando saiu da presidência. Nessa altura procurou reconstruir a economia depois da guerra, criou condições para o desenvolvimento, conseguiu muito apoio externo. Penso que no seu tempo a cooperação internacional chegou a significar 81 dólares per capita, em Moçambique, quando os outros países tinham apenas 27… Mas hoje o país enfrenta graves dificuldades económicas e a população sente que não beneficia da riqueza nacional. Onde é que se perdeu o rumo? Como é que explica que grandes empresas como a Mozal, por exemplo, tenham deixado Moçambique?
No caso da Mozal, eu penso que é a estratégia da própria Mozal [a maior indústria e o maior projeto de fundição de alumínio de Moçambique], que não funcionou como devia.

Não é um problema do país?
Eu penso que não, é um problema da empresa. A Mozal, por aquilo que eu oiço, não estou muito por dentro, depende da energia que compra na África do Sul. Nós fornecemos de Cahora Bassa [uma das maiores centrais hidroelétricas de África] energia para a África do Sul e a África do Sul vende energia à Mozal. Então é preciso criar as coisas de outra forma. É o que se está a discutir agora. Os que sucederem à Mozal certamente vão encontrar soluções, porque em Moçambique pode-se produzir ainda mais energia.
É um esquema da empresa e da política geral. A Mozal foi criada quando eu era chefe de Estado, e eu gostei muito porque foi um sinal de abertura para as empresas internacionais, sobretudo porque eles treinaram pessoal moçambicano que trabalhou na Mozal, mesmo em postos de direção, e depois criaram possibilidades de indústrias periféricas criadas para cooperar com a Mozal onde fosse necessário. Agora, a Mozal não está lá, mas as atividades das outras empresas continuam.

O FMI alertou recentemente para as dificuldades e vulnerabilidades da economia moçambicana. É um quadro muito diferente do que aquele que deixou, certo?
Sim, mas aquilo que eu deixei, já passou por várias fases. Moçambique já esteve na lista cinzenta e já saiu [lista do Grupo de Ação Financeira Internacional que inclui os países que estão sob monitorização reforçada devido a deficiências nos seus sistemas de prevenção e combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo. Moçambique entrou nesta lista internacional em outubro de 2022]. Neste Governo, já não está na lista cinzenta. Está a começar a fase ascendente de novo.

"Cada um tem de meter a mão na consciência e pensar que não se deve provocar situações de distúrbio que não possam ser controladas."

Tem então uma visão muito otimista sobre o modelo de desenvolvimento económico de Moçambique?
Tenho. Muito otimista.

Acha que seguiram as suas pisadas?
Seria demais dizer que seguiram as minhas pisadas, porque os tempos mudam e os obstáculos são diferentes. Eles tiveram o seu pensamento, tiveram muitas reuniões, porque já passou muito tempo. Eu saí em 2005, e já passaram 21 anos. Já passaram por lá diferentes Presidentes, não podem estar a seguir pisadas de há 21 anos. Agora estão a andar nas pisadas do tempo digital. Estão com muita energia, muita força nesse sentido.

Na sua presidência, Moçambique beneficiou de um importante alívio da dívida externa. Houve um perdão significativo, acima dos 70%, que permitiu libertar recursos para o desenvolvimento. Anos mais tarde, surgiram as dívidas ocultas, contraídas sem serem devidamente declaradas e que mergulharam o país numa crise financeira e comprometeram a confiança internacional. Como é que explica a diferença entre esses dois momentos? O que é que mudou na gestão e no controlo das finanças públicas para que um país que tinha conseguido reduzir substancialmente o endividamento acabasse depois por enfrentar um escândalo com consequências tão profundas?
Foi logo no meu segundo mandato que eu trabalhei para levantar esse endividamento. Depois veio um governo dirigido pelo Presidente Armando Guebuza que teve dois mandatos. Mas não acho correto fazer as comparações dessas duas instâncias. Tem que ver o problema dentro do governo do presidente Guebuza no segundo mandato, o que é que se passou e só ele é que poderá responder a isso. Mas quanto às dívidas ocultas foram bem tratadas porque passou tudo para o sistema judiciário, com julgamentos, etc. e tomaram-se as medidas que foi preciso tomar. Agora, o que importa para mim é pôr a economia nos carris e andar para frente.

E o que é que é preciso para pôr a economia nos carris?
O que é preciso é o que está a ser conseguido agora, a comunidade internacional voltou a dar o apoio para que o Governo possa orientar a exploração dos recursos naturais em benefício do povo moçambicano. Já ouvi várias vezes o Presidente da República dizer que quer que os recursos naturais, como minerais e hidrocarbonetos, sejam transformados, pelo menos numa primeira fase, nas fases primárias de transformação, em Moçambique. Portanto, há uma orientação.
E a agricultura continua a ser a base fundamental onde o Governo põe a sua força, ouvi dizer agora que recomeçaram a produzir trigo, que já não se produzia, para evitar importação desse cereal, já é muito bom e há outros projetos na pecuária, etc. Ouço com muito agrado que não deixámos a agricultura por causa de hidrocarbonetos, ou por causa da grafite. E há uma tónica na formação de pessoas para poderem empreender melhor e formação de pessoas para transformação local dos nossos recursos. Eu penso que são linhas boas. Não vou esperar que a coisa seja de hoje para amanhã e que tudo mude, mas vai-se mesmo mudar com essa linha e podemos ultrapassar muitos países.

"É imperativo que tenhamos confiança nas instituições. Ou, se não for confiança, pelo menos que respeitemos as instituições e utilizemos outros meios de lutar para a transformação dessas instituições, para serem criadas aquelas que possam servir melhor o nosso povo."

O polícia branco e a bofetada do cipaio

Falava-me há pouco do diálogo da inclusão e da paz. Na sequência das eleições de 2024 e da contestação aos resultados eleitorais, morreram pelo menos 400 manifestantes na repressão dos protestos. Como é que olha para a dimensão desta tragédia?
Eu penso que cada um tem de meter a mão na consciência e pensar que não se deve provocar situações de distúrbio que não possam ser controladas.

https://observador.pt/especiais/protestos-em-mocambique-o-poder-esta-na-rua-e-adivinha-se-um-natal-violento/

Está a falar de Venâncio Mondlane?
De Venâncio ou de qualquer um. Vê-se muitas vezes nas ruas pessoas que fazem a justiça com as suas próprias mãos — pode não estar nenhum Mondlane no meio disso —, ou porque não confiam nas instituições. Eu tenho dito sempre que é imperativo que tenhamos confiança nas instituições. Ou, se não for confiança, pelo menos que respeitemos as instituições como estão e utilizemos outros meios de lutar para a transformação dessas instituições, para serem criadas aquelas que possam servir melhor o nosso povo.

"Não importa de onde é que vem a morte, de que lado vem a morte. A morte é a morte. Portanto, o que importa é evitar que haja mortes."

Mas na altura havia manifestações pacíficas a serem reprimidas violentamente.
Não sei o que chamar manifestações pacíficas e não pacíficas. Depende de como é que as manifestações são desencadeadas. E, depois, que reações é que provocam. Portanto, é preciso que essas pessoas [que as organizam], seja quem for, se querem ir para manifestações, têm que medir as consequências e ver como é que as devem organizar para não criar choques que depois causam morte. Não importa de onde é que vem a morte, de que lado vem a morte. A morte é a morte. Portanto, o que importa é evitar que haja mortes.
E as pessoas que organizam manifestações têm de ter muito cuidado, porque depois podem não ter o controlo da reação das populações. Eu dou de vez em quando um exemplo. Um dia eu estive com a minha tia na Baixa e fui interpelado por um polícia. Era um polícia branco. Portanto, um polícia era branco, o outro era cipaio [termo usado nas antigas colónias portuguesas para indicar um africano recrutado para funções subalternas nas forças policiais ou rurais]. Pediu-me o cartão, o bilhete de identidade. Naquela altura não havia nada disso. Nós andávamos com caderneta indígena e os outros andavam com bilhete de identidade. Eu não tinha nada disso, porque era estudante no secundário. O polícia ficou irritado, levantou a voz. Queria-se meter com a minha tia, eu pus-me entre a minha tia e o polícia. Quem me deu uma bofetada primeiro foi o cipaio, porque viu apenas a irritação do polícia chefe dele, e ele… deu-me uma bofetada. Deu-me com cacetadas, etc. Algemaram-me. Quem é o responsável? O polícia branco ou o polícia negro que me deu a bofetada?

A autoridade. Houve abuso do poder da autoridade.
Mas quem é que faz isso? Portanto, pode ter um Venâncio, que não queria tumultos, não queria nada disso, mas alguém aparece e pensa que é aquilo que é preciso fazer, e faz, parte uma montra, e vai por ali, etc. Se não se consegue controlar, aparece a autoridade, e a autoridade tem a autoridade para fazer aquilo, etc. O que é preciso é evitar, evitar isto, evitar. O diálogo é para isto.

"O polícia, na estrada, não pergunta 'você de que partido é?' Olha para o comportamento e age. E, se calhar, a polícia só vem a saber, quando sabe, que aquele era de partido tal, partido sicrano. Muita gente da Frelimo foi atacada, na minha aldeia, e não havia polícia nenhum que os defendesse. Não era porque eram da Frelimo."

Mas o Estado deve ser garante da segurança dos seus cidadãos quando eles se manifestam. Nessa altura, não sentiu necessidade de intervir publicamente, como uma voz histórica, com força e com poder, uma voz da paz e do diálogo em Moçambique?
Como é que intervém numa coisa dessa? Como é que você intervém? Estão na rua, estão a bater-se, vou eu saltar para a rua, dizer, ‘parem’?

Apelando ao diálogo, que demorou a surgir…
Eu penso que o que está a ser feito está correto. Há um diálogo, é isso que nós devemos apoiar. E, sobretudo, neste momento em que o diálogo está lá. Eu não vou estar aqui a dizer coisas para trás. O diálogo é para frente.

O julgamento de Venâncio Mondlane

O Anamola e a Renamo, dois partidos da oposição, têm denunciado o assassinato de membros e de apoiantes do partido, a violência contra pessoas ligadas à oposição. É um cenário muito diferente daquele a que tem apelado. O do diálogo, da paz, da construção de pontes. A minha pergunta é, que garantias deve o Estado dar aos cidadãos de que a sua segurança não depende da sua escolha política?
Eu penso que é necessário, mesmo que haja essa disciplina a que eu faço apelo, porque, de facto, a tarefa do Governo é defender o cidadão. E o polícia, na estrada, não pergunta “você de que partido é?” Olha para o comportamento e age. E, se calhar, a polícia só vem a saber, quando sabe, que aquele era de partido tal, partido sicrano. Muita gente da Frelimo foi atacada, na minha aldeia, e não havia polícia nenhum que os defendesse. Não é porque eram da Frelimo mas porque havia um tumulto… Posso dizer, mesmo da minha família, houve gente que foi atacada, porque nem sabiam quem eram.

Isso revela algum descontrolo da situação.
Não devemos simplificar esta situação de falta de controlo nas reações quando há dificuldades.

Isto aqui já é depois das reações. É já no exercício da ação política. De qualquer forma, Venâncio Mondlane vai sentar-se no tribunal, dia 17 de novembro, para responder sobre incitamento à violência e terrorismo.
Não sei.

Acha que o julgamento dele vai contribuir para pacificar o país?
Não sei.

Ou poderá aprofundar a confrontação?
Não sei. Quando se trata de tribunais, é melhor não fazer julgamento.

Pergunto pelo efeito que isso pode ter, o efeito do que pode sair do tribunal.
Pior isso. Deixa o julgamento correr. Se correr. Não estou a dizer que deve. Estou a dizer, deixa o que a autoridade judiciária quiser fazer, fazer. E o Governo não se devia intrometer, na minha opinião. E nós, muito menos. Eu não gosto de julgamento fora do julgamento. De julgamento antes do julgamento. Está-me a pedir para eu fazer um julgamento.

Não, não. Estava-lhe a perguntar o que acha que pode acontecer depois.
Se começar a dizer isso, já tenho que pressupor muita coisa. E vou dizer muita coisa. Que há isto, mais aquilo, mais aquilo. Já estaria a falar como juiz, como advogado.

"Eu já dei muitos conselhos a Daniel Chapo e ele está a seguir muitos deles."

A autocrítica da Frelimo e os conselhos a Chapo

Em 2025, na África do Sul, fez umas declarações em que apelava ao diálogo. “É fundamental que reconheçamos que, ao longo do tempo, cometemos erros”, disse. Alertava para o facto de os movimentos que levaram à libertação e à independência das ex-colónias se tinham afastado do povo, das bases. De, em nome da estabilidade, estarem a fechar espaços de renovação e de, em nome da continuidade, não criar espaços para a participação ativa de todos. “Em muitos dos nossos países, assistimos ao enfraquecimento das instituições democráticas, ao crescente afastamento entre partidos e cidadãos, à apropriação de recursos públicos por interesses privados e à intolerância em relação a vozes dissidentes”, afirmou. Estava também a falar de Moçambique e da Frelimo?
Também de Moçambique, sim.

E da Frelimo?
E também da Frelimo. Sabe que tivemos uma conferência de quadros, agora há pouco tempo. Não acompanhou a conferência de quadros? Parámos e falámos sinceramente, abertamente.

Há um espírito de autocrítica na Frelimo?
De autocrítica e com consequências. Nós somos assim. Falamos das coisas. Não embelezamos nada. Foi sempre a maneira de ser da Frelimo. Então, o que eu disse ali, na África do Sul, reflete a maneira de ser da Frelimo.

Um outro problema que há neste momento em Moçambique prende-se com a África do Sul, que está a expulsar muitos imigrantes moçambicanos. Isto coloca um problema delicado a Daniel Chapo?
Não coloca um problema a Daniel Chapo. Coloca um problema aos moçambicanos que estão a ser expulsos.

E ao país que os recebe não?
Não são só moçambicanos, são nigerianos, ganenses e outros que estão a ser expulsos.

https://observador.pt/especiais/deportacoes-violencia-e-xenofobia-na-africa-do-sul-a-vaga-de-protestos-contra-a-imigracao-africana/

Mas como é que se pode resolver isto?
Primeiro, os governos devem encontrar-se e procurar soluções. O nosso Presidente já esteve lá e já mandou delegações e estão a ver se se encontra um consenso. Mas pronto, o que eu ouvi é que na África do Sul já há confrontos entre sul-africanos, já há mortes.

Isto pode contaminar Moçambique?
Não sei.

Se tivesse de dar um conselho a Daniel Chapo, que conselho lhe daria?
Eu já lhe dei muitos conselhos e ele está a seguir muitos deles. Quando ele me pede, nunca fui lá dar um conselho que ele não me peça, porque eu penso que ele está no caminho certo.

Sente-se confortável com o Governo de Chapo?
Até agora [sim].

A resposta a Mondlane

Perguntámos a Venâncio Mondlane se tinha alguma questão para lhe colocar. Ele pergunta-lhe se pode dizer numa frase, que legado é que lhe deixa a ele, como “sobrinho”, e à geração vindoura. Numa frase, o que é que diria?
Numa frase? Há muita coisa que se pode dizer numa frase, mas o que é certo é que nós devemos pensar no interesse do povo e deixar de lado os nossos egoísmos. Devemos juntar-nos e ser um povo e não achar que um é mais povo do que o outro.
Somos um povo e devemos procurar consenso, trabalhar no consenso e não saltar etapas, não pensar em realizar coisas que são impossíveis agora ou a curto prazo, temos que pensar em conjunto e ir resolvendo. Como fizemos com a Renamo. Enquanto não nos entendêssemos, púnhamos os pontos de lado, continuávamos a conversar até que conseguimos muitos consensos, os sete protocolos que saíram, que foram assinados e estão incorporados na Constituição de Moçambique.
Estamos a trabalhar em fases, não estamos a começar hoje a fazer negociações, começámos a fazer negociações desde a criação da Frelimo, fomos a negociações com os portugueses, fizemos negociações com o Ian Smith [primeiro-ministro da então Rodésia, hoje Zimbabué], fizemos negociações com o governo do Apartheid, com os outros portugueses revoltosos, etc. Fizemos sempre, sempre, sempre.

E agora há que fazer negociações com o Anamola?
Não é com o Anamola, é com o povo moçambicano. É com o povo moçambicano. É diálogo nacional, inclusivo. Não é com o Anamola, com a Renamo. É diálogo nacional, inclusivo. É o que eu gosto.

Incluindo também estes, Anamola e Renamo, por exemplo?
Diga as suas palavras se quiser, mas não as ponha na minha boca. É diálogo nacional, inclusivo.