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(A) :: "A minha sala de estar é o Universo". Neil deGrasse Tyson, o astrofísico que colocou milhões a "olhar para cima"

"A minha sala de estar é o Universo". Neil deGrasse Tyson, o astrofísico que colocou milhões a "olhar para cima"

O astrofísico mais conhecido do planeta está em Lisboa para uma exibição ao vivo do seu podcast StarTalk, com o humorista Chuck Nice. Em entrevista ao Observador, partilham a paixão pela Ciência.

Martim Andrade
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Inês Lacerda
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Matilde Inês
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Beatriz Martins
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Fascinado pelo “olhar para cima”, Neil deGrasse Tyson quer que todos façam o mesmo. O astrofísico norte-americano só percebeu o impacto que as suas palavras tinham quando, há mais de 30 anos, decidiu inserir uma explicação visual, com gestos ao nível da cintura, numa entrevista complexa sobre a descoberta de um planeta que orbitava outra estrela. De toda a informação rigorosa que deu, naquela que foi a sua primeira grande entrevista a nível nacional, o que ficou desse momento foi o “movimento de oscilação” que fez com a anca. Foi nessa altura que um cientista que “ninguém conhecia de lado nenhum”, que dirigia o maior planetário da Cidade de Nova Iorque, percebeu que bastava “uma frase curta, algo interessante e divertido” para despertar a curiosidade das pessoas. E, a partir daí, milhões de pessoas começaram a “olhar para cima”.

Neil deGrasse Tyson estuda o Universo desde os nove anos, fruto de um interesse despertado por uma visita ao Hayden Planetarium — a instituição que continua a coordenar nos dias de hoje. Descreve-se como o “astrofísico pessoal” de todos aqueles que precisam, mas é na educação e divulgação de ciência que encontrou a sua paixão. Tudo por causa de um gesto inconsciente durante um direto televisivo. “A partir desse dia, comecei a praticar. Olhava ao espelho e pedia à minha mulher para gritar palavras como ‘buraco negro’, ‘Saturno’, ‘Universo’, e criava três frases — às vezes quatro, às vezes duas, mas em média três frases — que fossem informativas, fizessem sorrir e fossem apelativas”, explica em entrevista ao Observador.

A partir desse treino, em frente ao espelho, nasceu aquele que é, possivelmente, o maior comunicador de ciência da atualidade. Desde programas de televisão, iniciativas locais e podcasts, a cara e as analogias de Neil deGrasse Tyson começaram a chegar a todo o mundo. Para além de aparições mais recorrentes nos telejornais, o astrofísico “tomava notas” das interações que tinha quando alguém pedia uma explicação sobre fenómenos espaciais. “Respondia e monitorizava a expressão facial delas com base na palavra ou frase que usava. Se subissem as sobrancelhas, pensava: ‘Esta é boa, vou guardá-la'”. Não havia, infelizmente, um bloco de notas com todas as anotações, mas o cientista acredita que o seu cérebro, o seu “cinto de utilidades imaginário” semelhante ao do Batman, deu conta do recado.

Neil deGrasse Tyson escolheu Portugal para estrear o StarTalk Live em solo europeu. É neste programa, habitualmente gravado em estúdio com o humorista Chuck Nice, que o astrofísico responde às “curiosidades cósmicas” dos seus ouvintes e entrevista cientistas de diferentes áreas, sempre motivado pela sua própria curiosidade. E, como conta o humorista ao Observador, Neil “tem sempre uma resposta”.

https://www.youtube.com/watch?v=p1wvdcngV8c

“A minha missão é moldar uma resposta de forma a que seja inesquecível”

Neil e Chuck estão em território português desde quarta-feira, dia 7 de outubro. O grande foco da viagem é a apresentação do projeto conjunto na Sala Tejo do MEO Arena, mas há espaço para explorar diferentes pontos do país. Comeram porco preto em Estremoz e percebes em Lisboa, e ainda viram uma competição de surf na Ericeira. Mas, na capital, uma cidade que Chuck Nice descreve como “nunca parada”, acabam também por participar noutras iniciativas de divulgação de ciência.

Na véspera do espetáculo que contará com a presença das cientistas convidadas Zita Martins e Marta Cortesão, Neil deGrasse Tyson e o seu coanfitrião pararam no Pavilhão do Conhecimento, para dar o pontapé de saída de um debate sobre o Espaço e a geopolítica. “We are a way for the universe to know itself“. Somos uma forma de o Universo se conhecer. A frase foi dita pelo nova-iorquino no auditório José Mariano Gago, mas foi cunhada por uma das suas grandes referências profissionais, Carl Sagan.

À porta do museu e exposição interativa na zona oriental de Lisboa, forma-se uma fila que demorou mais de meia hora a chegar ao fim. As pessoas avançavam e, com um sorriso na cara e algum nervosismo, tiravam fotos com o astrofísico. Todos estavam lá para o mesmo, ainda que Neil deGrasse Tyson não fosse um dos participantes no debate. E o público passava por todas as idades, dos mais novos aos adultos que se conseguiram escapar às suas responsabilidades profissionais.

"Os planetas em rotação orbitam a sua estrela hospedeira ao longo dos seus caminhos designados, como dançarinos a fazer piruetas num balé cósmico coreografado pelas forças da gravidade"
Neil deGrasse Tyson, astrofísico e comunicador de ciência

A audiência já não é a mesma que se formou naquele dia há 31 anos. Neil deGrasse Tyson é um fenómeno mundial que conseguiu esgotar, em apenas quatro dias e num país que nunca tinha sequer visitado, um podcast ao vivo sobre ciência. “Para um educador, isso não é pressão. Isso é uma alegria. É a razão pela qual o faço, em primeiro lugar”, confessa ao Observador. Todos os dias, as perguntas sobre buracos negros, a existência de vida extraterrestre ou o “desaparecimento” de Plutão da lista de planetas do sistema solar entopem os seus canais. Para Neil, isso traduz-se num sinal de que, agora, “todos olhamos para cima, mesmo que não nos peçam”.

“Fico impressionado com o alcance do nosso podcast a nível internacional. Fico sempre impressionado por, quando publico um livro, ser imediatamente traduzido para 30 línguas diferentes. Sinto-me muito honrado, profundamente honrado por isso. Mas isso não é uma pressão maior, é um dever: o dever de servir a curiosidade de todos, não importa onde estejam”, acrescenta. O desafio, na qualidade de divulgador científico que diz ter a missão de aguçar a curiosidade nas pessoas, é garantir que não se atravessa a linha fina entre a explicação demasiado técnica e a simplificação radical.

Porém, o astrofísico acredita que já ultrapassou essa barreira. “Acho que nunca fui acusado de simplificar demasiado”, brinca. É algo de que se orgulha. Se tiver de “explicar de forma ainda mais simples” numa segunda tentativa, vê isso como uma derrota. “Significaria que falhei da primeira vez”, aponta. “O meu trabalho é não falhar da primeira vez, para que entendam exatamente como devem entender, não numa versão aguada. Se usar uma metáfora elaborada, o meu objetivo é torná-la precisa, mesmo na metáfora”.

Dá o exemplo da “frase favorita que alguma vez compôs”. “Os planetas em rotação orbitam a sua estrela hospedeira ao longo dos seus caminhos designados, como dançarinos a fazer piruetas num balé cósmico coreografado pelas forças da gravidade”. É, de facto, uma metáfora que ajuda a explicar as órbitas planetárias, sem entrar na ciência fundamental. “É metaforicamente precisa, não é simplificada. Permite pensar na força da gravidade a mover as coisas como um coreógrafo, recorrendo às artes. Isso é um exemplo de elevar o conceito em vez de o simplificar, tornando-o acessível a todos”. A frase favorita de Chuck é: “Lamento, mas isso não é dinheiro suficiente!”.

É importante conseguir transmitir uma imagem visual na explicação. Se disser que o Sol tem um volume de cerca de 1.400 milhões de quilómetros cúbicos, é possível que a informação entre por um ouvido e saia pelo outro. “Se fosse oco, poderias despejar 1 milhão de Terras lá para dentro e ainda sobrava espaço”, exemplifica Neil deGrasse Tyson. “Nunca mais vai esquecer isso: um milhão, o Sol oco, despejar a Terra. Não disse ‘deixar cair uma Terra de cada vez’, disse ‘despejar’. Isso cria uma imagem, como se fosse quase líquido”, completa.

A curiosidade incessante e o misto entre humor e rigor que se tornou uma receita para o sucesso

Enquanto Neil mantém o foco na ciência, Chuck é “o engraçado”. A parceria no StarTalk dura há quase duas décadas. O podcast estreou em 2009, primeiro como programa de rádio, até que eventualmente se transformou numa presença eterna no bolso de todos nós. Dois episódios por semana, todas as semanas, mais de uma hora de conversa entre Neil e Chuck ou entre cientistas, na ausência do humorista. Mas com anos e anos a falar sobre astrofísica, Chuck Nice, de forma humilde, admite que o conhecimento tem entrado.

“Quero arranjar um diploma para lhe dar, como um doutoramento do StarTalk”, brinca Neil deGrasse Tyson. “Além de ser já um ativista climático, começou [no podcast] com uma sensibilidade para ciência e a sua fluência continuou a crescer [ao longo dos anos]”. O astrofísico até diz, num tom jocoso, que se preocupa com “o monstro” que criou. Às vezes é Chuck quem conduz a explicação científica enquanto Neil “se encosta à cadeira”.

"Perguntar-me sobre o universo é como perguntar a alguém sobre o seu guarda-roupa", compara o astrofísico. São perguntas que me estão a fazer sobre a minha sala de estar. E a minha sala de estar é o Universo"
Neil deGrasse Tyson, astrofísico e comunicador de ciência

O StarTalk foi ideia do cientista. “Quando nos conhecemos, disse-me que o programa era um cruzamento de cultura pop, ciência e humor. Na altura, pensei que era muito estúpido”, confessa, entre risos, o humorista. E apesar de ser o “cómico” de serviço, aponta para o valor “engraçado” e “divertido” do seu coanfitrião. “[Neil] nem precisava realmente de um comediante ao seu lado”, atira Chuck Nice. “Prefiro que sejas tu o engraçado, para eu me focar na ciência”, responde Neil deGrasse Tyson.

“Do ponto de vista da neurociência, quando evocas uma emoção, estás a consolidar memórias”, explica… o humorista. “A grande vantagem do StarTalk é que as pessoas aprendem muito, porque se estão a divertir”, acrescenta, antes de ser interrompido por Neil, que refere que esta dinâmica “evita que se pareça com uma leitura de uma página da Wikipédia”, o que “qualquer um consegue fazer”. “É por isso que lhe chamo Google Negro”, devolve o humorista, que faz a pequena sala à margem do átrio do Pavilhão do Conhecimento explodir em risos.

Neil é “a pessoa mais curiosa” que Chuck conhece. “Não falamos apenas de astrofísica. Não importa o tipo de ciência ou facto curioso”, conta ao Observador que em múltiplas instâncias, em viagens de carro, ouve — e numa imitação quase idêntica — um “Sabias que…”. O ex-apresentador televisivo, que participou em múltiplos programas de divulgação de ciência, não se considera “muito inteligente”, mas considera que a sua “curiosidade” e “interesse” consistente permitem adquirir um conhecimento “imenso” todos os episódios. “Se estes especialistas me estão a ensinar algo, de certeza que estão a ensinar a mais alguém”, expõe o humorista.

Mas para além da curiosidade, do humor e das referências a filmes de ficção científica, que são uma presença habitual nos episódios e explicações dos conceitos mais complexos, há a experiência do astrofísico. Para além das décadas à frente do maior planetário da Cidade de Nova Iorque e do seu tempo enquanto investigador, Neil deGrasse Tyson participa em múltiplas iniciativas públicas, entre entrevistas e eventos ao vivo. E, até à data, não se recorda de um momento em que lhe tenha faltado uma resposta. “Se alguém sabe o suficiente sobre astrofísica para me deixar sem resposta, não precisava de me ter feito uma pergunta, em primeiro lugar”.

Chuck, numa perfeita exibição daquela dinâmica que lhes é característica, conta uma história que retrata a expertise do astrofísico. “Estávamos numa festa e houve alguém que se aproximou. Estava a falar de uma área específica do céu e mostra algo ao Neil no telemóvel. Estava a falar de uma determinada constelação. E foi aí que o Neil diz: ‘Não está aí, está ali’. Ao que o sujeito responde: ‘Ah, então usas a aplicação?’, como se o Neil precisasse da aplicação”, recorda, ao mesmo tempo que Neil aponta para o cérebro, indicando a aplicação que usa.

Neil deGrasse Tyson equipara questões sobre o Universo às mais simples deliberações do quotidiano. “Perguntar-me sobre o universo é como perguntar a alguém sobre o seu guarda-roupa”, compara o astrofísico. Uma dúvida sobre o cosmos é, para Neil, semelhante a algo banal, como: “Onde compraste essa camisa?”. “São perguntas que me estão a fazer sobre a minha sala de estar. E a minha sala de estar é o Universo”, remata. E se Neil sente este conforto e domínio nos vários temas que aborda nos seus programas, Chuck não se revê no “à vontade” do amigo e admite: “Eu tenho de me preparar.”

“As inovações em ciência e tecnologia são os motores das economias do futuro”

“Com toda a informação que carrego, como é que a empacoto de forma a que uma pessoa oiça, aprenda, sorria e queira voltar para mais?”. Esta é a missão de qualquer comunicador de ciência. E, numa altura em que a “iliteracia científica” se manifesta de forma cada vez mais sonante, o papel de alguém que promove o conhecimento científico aumenta proporcionalmente. “Sabes que somos dos Estados Unidos, certo? Sabes quem está a governar o nosso país neste momento?”, brinca Chuck Nice. “Sabes que a nova forma de dizer ‘laranja’ é ‘idiota'”, continua, deixando uma implícita crítica ao Presidente norte-americano.

As insinuações deixadas pelo humorista encaixaram-se no tema discutido na sala a poucos metros de distância, umas horas mais tarde. “Does the Universe care about politics?” é a questão central do debate no auditório do Pavilhão do Conhecimento. No meio de uma nova corrida espacial, desta vez com a China e sem a União Soviética, vários especialistas, entre o Presidente da Agência Espacial Portuguesa, Ricardo Conde, e a diretora do SKA Observatory, Jessica Dempsey, discutiram o impacto da geopolítica no futuro da exploração espacial.

"O custo [de uma sociedade sem Ciência] é enorme, porque as inovações em ciência e tecnologia são os motores das economias do futuro. Mesmo na indústria agrícola, por exemplo, as eficiências são trazidas pela ciência e tecnologia. Tudo importa. E as pessoas não querem morrer nem querem morrer pobres"
Neil deGrasse Tyson, astrofísico e comunicador de ciência

E, nos Estados Unidos, continua a ser aparente que a força motriz deste interesse rejuvenescido por uma nova odisseia lunar advém de um esforço redobrado do lado de Pequim, como apontou Neil deGrasse Tyson. A ciência, mais uma vez, não é a impulsionadora destas empreitadas. Algo que, por não nascer de uma necessidade ou curiosidade científica, acaba por gerar “teóricos da conspiração e céticos que querem desacreditar tudo”, não apenas sobre o Espaço, mas toda a Ciência.

“Para mim, é importante desafiar as pessoas a pensar criticamente e a entender o que isso é”, aponta Chuck Nice, em resposta ao Observador. Sem passar por um reforço da Ciência no currículo escolar ou tornar lei ouvir o StarTalk, Neil deGrasse Tyson acredita que a melhor forma de combater a falta de literacia científica, não só nos EUA, mas em todo o mundo, passa por “mostrar às pessoas o custo para a sociedade de não abraçar a fronteira em evolução da ciência”. Um custo que classifica como “enorme”.

“O custo é enorme, porque as inovações em ciência e tecnologia são os motores das economias do futuro. Mesmo na indústria agrícola, por exemplo, as eficiências são trazidas pela ciência e tecnologia. Tudo importa. E as pessoas não querem morrer nem querem morrer pobres”, complementa o astrofísico. Nos seus exercícios diários de divulgação científica, refere que procura mostrar que sem ciência, sem um conhecimento científico generalizado na sociedade, as pessoas “podem morrer pobres”. E, “se a classe governante for rica, pode sinalizar uma mudança na condição humana”.