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(A) :: Da engenharia de género ao abandono das mulheres

Da engenharia de género ao abandono das mulheres

Em Portugal prefere-se entupir o SNS com comparticipação de antidepressivos e suportar faturas milionárias em baixas médicas repetidas a criar uma política pública integrada de apoio à menopausa.

Marco António Reis
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Ouvi, há dias, um destacado político do nosso rotativo “arco-do-poder” encher o peito numa conferência qualquer, para debitar as virtudes do país na “igualdade de género”. Falou-se de quotas, de paridade nas listas partidárias, de linguagem inclusiva e de semântica corporativa. Tudo muito limpinho, muito perfumado e devidamente empacotado para consumo televisivo e regozijo europeu.

Gasta-se hoje um tempo precioso, em parlamentos e comissões de peritos, a debater com solene gravidade a proliferação de dezenas de variantes e neo-identidades de género que artificialmente se vão reproduzindo em laboratórios ideológicos e modas intelectuais. Contudo, enquanto se inventam conceitos para responder às agendas do momento, escamoteia-se de forma profundamente hipócrita uma consequência estritamente natural do ser humano — algo que está há séculos ao nosso lado no dia-a-dia de metade da população, que lá esteve sempre e lá permanecerá enquanto a espécie existir.

Prefiro uma má verdade a uma boa mentira: esta preocupação do bloco central com as causas em voga é uma fraude intelectual. É uma cosmética barata destinada a esconder a total cobardia política, o alheamento burocrático e a misoginia funcional com que o Estado português trata a saúde e a vida real do eleitorado feminino.

Façamos um exercício de rigor e olhemos para os factos sem o filtro da propaganda partidária.

Portugal tem hoje cerca de 500 mil mulheres em idade produtiva entre os 45 e os 55 anos integradas no mercado de trabalho. Falamos de quase 20% da força de trabalho ativa feminina — mulheres no auge da sua maturidade profissional, experiência e valor estratégico para as empresas e para a administração pública. É precisamente nesta janela de topo de carreira que a biologia impõe a menopausa, cuja idade média de diagnóstico em Portugal ronda os 51 anos. E o que nos dizem os dados clínicos? Que mais de 80% destas mulheres enfrentam sintomas moderados a severos — da insónia crónica e esgotamento físico ao nevoeiro cognitivo, ansiedade e depressão.

A evidência científica é, no entanto, cristalina: a suplementação específica e as Terapêuticas de Substituição Hormonal (TSH) têm a capacidade comprovada de transformar radicalmente este quadro. Quando devidamente prescritas, não só aliviam de forma substancial — e em muitos casos eliminam por completo — os sintomas agudos do quotidiano, como travam a degradação física a longo prazo, prevenindo a perda acelerada de densidade óssea (osteoporose), o aumento do risco cardiovascular e o envelhecimento tecidual precoce. Trata-se de ciência médica elementar aplicada à preservação da saúde e da capacidade funcional do organismo.

E o que faz o Estado português perante este recurso terapêutico? Rigorosamente nada. A comparticipação pública para a suplementação e tratamentos específicos de apoio à menopausa é exatamente zero. Tratados pela burocracia oficial como se fossem privilégios estéticos ou caprichos privados, estes custos ficam integralmente a cargo da carteira de cada mulher. Enquanto o SNS não hesita em financiar fármacos paliativos que apenas mascaram as consequências — atulhando as prescrições com ansiolíticos e antidepressivos —, recusa-se a apoiar a prevenção e o tratamento da causa real. Quem tem capacidade financeira para pagar dezenas ou centenas de euros mensais na farmácia, trata-se; quem não tem, que aguente o calvário em silêncio.

E o que faz o Estado português perante este cenário global? Olhar para o lado com aquele alheamento distante e provincial de quem acha que o assunto pertence ao foro privado, aos manuais de biologia ou às piadas de mau gosto de café.

A cegueira nacional torna-se ainda mais gritante quando confrontada com a realidade internacional. A OCDE, nos seus relatórios mais recentes sobre o envelhecimento populacional (Women, Work and the Population Puzzle e Employment Outlook), avisa com clareza: conter as saídas prematuras da força de trabalho sénior e reter o talento feminino na maturidade é vital para a sustentabilidade dos países desenvolvidos, podendo injetar até 0,26 pontos percentuais no crescimento anual do PIB per capita.

Em países de referência no espaço europeu, como o Reino Unido, o problema já deixou de ser tabu e passou à pasta da racionalidade económica. Os dados do NHS Confederation e do Department for Work and Pensions britânico são avassaladores: a menopausa não acompanhada custa à economia cerca de 14 milhões de dias de trabalho perdidos por ano (uma sangria de 1,8 mil milhões de libras no PIB) e mais de 1,5 mil milhões de libras anuais em impacto direto devido a mulheres que abandonam definitivamente o emprego. Inquéritos do CIPD e da Fawcett Society revelam que 10% das mulheres (1 em cada 10) demitem-se por falta de apoio no local de trabalho nesta fase e 25% reduzem o horário ou estagnam na carreira.

Enquanto estas economias debatem medidas concretas — como a comparticipação estatal de terapêuticas de substituição hormonal (TSH), a flexibilização das condições de trabalho e a formação de equipas médicas e empresariais —, o que faz o sapiente Estado português, governado há décadas pela alternância complacente entre PS e PSD?

A nossa resposta pública é o silêncio embrulhado em burocracia e em esoterismos de gabinete.

Quando chega a hora de apoiar a maternidade na juventude, o sistema empurra a mulher para uma carreira de obstáculos e penalizações veladas. Anos mais tarde, quando essa mesma mulher recupera o terreno a custo, atinge o pico da sua maturidade profissional e enfrenta a inevitabilidade da menopausa, a postura do Estado é exatamente a mesma: encolher os ombros, virar a cara e empurrá-la para a farmácia para comprar ansiolíticos.

Sim, leu bem. Em Portugal, prefere-se entupir o SNS com comparticipação de antidepressivos e suportar faturas milionárias em baixas médicas repetidas a criar uma política pública integrada de apoio à menopausa — que inclua a comparticipação séria da suplementação específica, terapêuticas hormonais adequadas e protocolos de saúde preventiva nas empresas.

E digo isto não apenas como cidadão ou observador crítico da comédia política nacional. Digo-o com a inquietação acrescida — e assumida — de quem é pai de duas jovens mulheres.

Olho para as minhas filhas e recuso-me a aceitar como “normal” que o país que lhes promete igualdade de papel passado esteja preparado para lhes aplicar esta dupla penalização biológica e laboral. Recuso-me a aceitar que o futuro delas passe por um mercado de trabalho insensível e por um Estado hipócrita que perde meses a discutir engenharia social e distrações académicas para parecer moderno na televisão, mas que lhes volta as costas quando a biologia e a realidade da vida exigem investimento público real e pragmático.

Apoiar financeiramente e na saúde as mulheres na menopausa não é uma concessão assistencialista nem um favor. É uma equação de pura inteligência económica onde todos ganham sem margem para dúvidas:

  • Ganha o Estado, que estanca a hemorragia em baixas médicas, consultas de urgência e medicação paliativa;
  • Ganham as empresas, que garantem a retenção do seu capital humano mais qualificado e experiente exatamente quando ele está pronto para liderar;
  • Ganham as famílias, que preservam a estabilidade emocional e o bem-estar dentro de casa;
  • E ganham, acima de tudo, as próprias mulheres, que deixam de ser condenadas a um calvário silencioso e indigno no auge das suas carreiras.

Mas para o “arco-do-poder”, dá muito menos trabalho navegar no mar das abstrações ideológicas do que mexer no orçamento da saúde e do trabalho para apoiar a vida concreta e inevitável das portuguesas. É a “boa mentira” da igualdade de fachada a sobrepor-se à “má verdade” de um país que desbarata o seu capital humano por puro preconceito, alheamento e incompetência.

Exigir responsabilidade, pragmatismo e apoio financeiro à saúde feminina nesta etapa crucial não é uma questão de moda ideológica. É uma exigência elementar de civilidade, de racionalidade económica e de respeito pelo futuro das nossas filhas. Boa ou má, é uma verdade que faz falta – e muita – a Portugal.