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(A) :: O coração gigante que se perdeu num calcanhar de Aquiles (a crónica do Betis-FC Porto)

O coração gigante que se perdeu num calcanhar de Aquiles (a crónica do Betis-FC Porto)

FC Porto correu mais sem saber para onde na primeira parte, reagiu da melhor forma com a reviravolta em seis minutos mas acabou por ver resistência cair por erros próprios que o Betis soube ver (3-2).

Bruno Roseiro
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Henrik Larsson ainda foi conseguindo adiar a história, o pulmão de Derlei carimbou em definitivo aquilo que parecia há muito destino. Quando tinha assumido o comando do FC Porto, no início de 2002, José Mourinho prometeu o Campeonato em 2003. Cumpriu. Com o bónus da Taça de Portugal. Com o principal extra que voltou a colocar os dragões a vencerem na Europa, numa final da Taça UEFA frente aos escoceses do Celtic ganha no prolongamento. A conquista da Liga dos Campeões em Gelsenkirchen no ano seguinte ficou como o apogeu de uma era de ouro mas a forma como os azuis e brancos resgataram a decisão de 2003 para si ficou nos livros de história do clube. Agora, mais de 23 anos depois, o clube regressava ao La Cartuja, em Sevilha.

https://observador.pt/liveblogs/betis-fc-porto-dragoes-procuram-primeira-vitoria-na-liga-dos-campeoes-em-estadio-com-boas-memorias/

“Se serve de inspiração? Claro que eu e o presidente falámos sobre certas memórias. Não recentemente mas vamos ter o jantar de hoje [terça-feira] e o almoço de amanhã [quarta-feira] para que essa faísca apareça. Acredito que, com a atmosfera que vamos encontrar aqui, com o apoio dos nossos adeptos, vamos estar ao nosso melhor nível e vamos conseguir ligar memórias do passado ao presente”, comentara Francesco Farioli, não só a propósito da presença do agora presidente André Villas-Boas na equipa técnica da conquista dessa final de 2003 mas também sobre um dia onde a imagem de Jorge Costa estaria ainda mais presente, não só pela conquista da Taça UEFA (foi titular e capitão de equipa) mas por ser o dia em que cumpriria 58 anos.

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Se em jogos de Champions não é necessária uma motivação extra – e são os próprios jogadores e treinadores que admitem isso –, o FC Porto tinha ainda mais razões para se galvanizar à procura da primeira vitória na competição depois do arranque com uma derrota no Dragão frente ao Manchester City. Problema? A equipa que tinha pela frente, atual terceira classificada da La Liga com os mesmos pontos do Real Madrid e só atrás do Barcelona que deu o salto em relação às últimas épocas na mesma com Manuel Pellegrini como técnico e um Isco versão vintage que continuava a fazer a diferença como se viu na goleada diante do Osasuna na derradeira jornada. Mais do que o médio espanhol, Farioli elogiava todo o poder de fogo dos sevilhanos.

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“Não olhamos só para o Isco. É um jogador capaz de trazer criatividade ao jogo, uma contribuição muito forte com bola em vários momentos e uma enorme capacidade para gerar vantagens. Mas têm três ou quatro extremos de elite, muito fortes no 1×1 e com grande capacidade de finalização, além de dois avançados com muita mobilidade e capacidade de ligação. É uma equipa. Não podem ser um dos melhores ataques da LaLiga se não tiverem qualidade, é uma mistura entre qualidade individual e um coletivo muito forte. O Betis está numa ótima forma, jogam num nível muito alto na LaLiga, vêm de uma sequência de resultados positivos impressionantes e têm o mesmo treinador há muito tempo, um treinador lendário, com mais de 1200 jogos como profissional. Vai exigir muito de nós, as nossas melhores versões”, frisara o técnico italiano.

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Para dificultar ainda mais a tarefa, Farioli tinha uma baixa de peso como Jan Bednarek, que estava a cumprir castigo. Não havia o líder polaco do eixo central recuado, também não havia Chris Smalling e Prpic por não estarem inscritos na prova, o próprio Nehuén Pérez podia não estar ainda nas melhores condições para 90 minutos. “É uma ausência relevante, claro. Tem um grande impacto na equipa, não só a nível de exibições mas também de liderança. Temos esse problema, conseguimos recuperar o Nehuén, há outras possibilidades. Mas o sentimento e a confiança neste grupo estão muito bem. Não interessa quem vai estar em campo, conseguimos sempre encontrar as melhores soluções e respostas”, apontava Farioli, sem revelar a equipa.

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Como era esperado, houve alterações. Pablo Rosario fez dupla com Kiwior no eixo central recuado, Martim Fernandes entrou para a direita em vez de Alberto Costa, Gabri Veiga regressou às opções iniciais em vez de Hwang, Borja Sainz rendeu o lesionado William Gomes. Mais: quando mexeu, a equipa foi melhorando, com Samu a mostrar que está prestes a ficar com o lugar de 9 e Santi Giménez a mostrar que pode ser uma boa arma em jogos que peçam um futebol mais direto. O problema foi tudo o resto. Foi ter uma parte inteira a falhar passes atrás de passes, foi não aproveitar os brindes do adversário, foi não saber agarrar o momento do encontro quando a reviravolta chegou em pouco mais de cinco minutos. Depois, houve um calcanhar de Aquiles que o Betis explorou da melhor maneira: Francisco Moura, já em claro desgaste físico, foi superado no 2-2 por Antony e cometeu o penálti do 3-2 final de Isco. Assim se explica a derrota dos dragões, que mostraram outra vez um coração enorme para nunca se renderem até caírem por erros próprios.

Os cânticos dos cerca de 3.500 adeptos do FC Porto que se deslocaram num misto de saudosismo e convicção ao La Cartuja pareciam inspirar os dragões para terem uma daquelas entradas de peito feito à antiga mas o Betis não demorou a mostrar ao que vinha com duas situações de perigo em apenas dois minutos a mostrar movimentos erráticos pouco habituais na defesa azul e branca: Abde atirou cruzado para boa defesa de Diogo Costa para canto (2′), Marc Roca apareceu na área depois de uma tentativa defeituosa de corte de Francisco Moura mas o remate saiu ao lado (2′). A entrada foi titubeante, os momentos estavam ziguezagueantes, os erros individuais continuavam a surgir… sem resultados práticos: na primeira grande oportunidade do FC Porto no jogo, André Silva intercetou uma tentativa de passe de Álvaro Vallés, tentou o chapéu que ficou curto, o corte de Natan também foi defeituoso mas o desvio de cabeça do avançado bateu na trave (9′).

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O lance criou incerteza no Betis, os minutos seguintes voltaram a ter a formação de Sevilha por cima, com mais um remate perigoso do lateral Ángel Ortiz após jogada de Antony para defesa de Diogo Costa (14′). Se na posse os visitados dominavam por completo, nas tentativas de remate e nas bolas paradas também não ficavam atrás. Farioli, sempre de pé na zona técnica, ia mais vezes do que é habitual ao banco para falar com os adjuntos sobre o que se estava a passar, com o FC Porto a procurar quando podia colocar “gelo” na partida para travar o constante ímpeto ofensivo dos sevilhanos. Não dava. Quando a bola não entrava na área, se os lances pelos corredores laterais não tivessem resultado, havia sempre a hipótese da meia distância como se viu por Deossa, que atirou um míssil de pé esquerdo de fora da área que saiu a rasar o poste (27′). Até à primeira fase de construção, os dragões até estavam bem; a partir daí, falhavam passes e passes a fio…

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O FC Porto estava demasiado numa versão festa de gala, o FC Porto precisava daquela versão de fato de macaco para ganhar mais duelos, aumentar a intensidade no encontro, deixar de estar e ficar tão exposto aos movimentos ofensivos de Isco e companhia. Foi assim que, apesar de o lance ter sido depois anulado, os azuis e brancos chegaram ao golo: Gabri Veiga teve uma boa recuperação em zona ofensiva, o cruzamento para a área da esquerda foi andando entre ressaltos, Martim Fernandes atirou uma bomba que bateu na trave antes de entrar mas a jogada teve uma mão de Borja Sainz que invalidou o 1-0 perante o desespero de Farioli, que viu amarelo pelos protestos (40′). O intervalo chegaria mesmo sem golos mas com uma curiosidade: apesar de ser o Betis a dominar em quase todos os aspetos do jogo, o FC Porto teve as duas grandes oportunidades do encontro na primeira parte com um golo anulado e uma bola na trave. Era isso que dava esperança.

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Sem alterações em relação à primeira parte, o FC Porto parecia apostado em ter outra presença no campo. Aliás, a imagem inicial que saltou foi a de Pablo Rosario bem mais subido a agarrar em Parrott para que os azuis e brancos pudessem ter linhas mais altas mas criar zonas de pressão mais à frente. Problema? Os erros dos 45 minutos iniciais, alguns deles quase primários, continuavam a acontecer. E, nessa fase, o Betis soube aproveitar: Fran Garcia teve uma grande arrancada pelo meio após recuperar a bola, deixou em Abde e o ala formado no Barcelona atirou em arco ao ângulo sem hipóteses para o 1-0 (47′). Pouco depois, Alan Varela teve um passe disparatado para Kiwior, Antony conseguiu colocar-se no meio e rematou forte de pé esquerdo ao poste (49′). Os azuis e brancos, que tinham saído para o descanso a correr mais cinco quilómetros do que o adversário, continuava a não saber o que fazer e para onde ir. Os rasgos individuais iriam continuar.

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Os dragões precisavam de um sinal, de um impulso – de uma labareda. Face à incapacidade coletiva em criar esse momento, Gabri Veiga deu o mote e respondeu ao golo de Abde com outro momento de antologia: livre direto descaído sobre a esquerda, remate a passar por cima da barreira e Álvaro Vallés sem hipóteses de impedir o empate (55′). Os festejos não terminaram propriamente da melhor forma, com muitos empurrões entre jogadores entre três amarelos, mas estava dado o mote para surgir a outra versão do FC Porto muito assente naquele ADN tantas vezes recordado na figura de Jorge Costa. Foi assim que, já com Alberto Costa, Oskar Pietuszewski e Samu em campo, a reviravolta demorou pouco mais de cinco minutos, com Samu a combinar com Pepê à entrada da área antes de atirar um míssil que ainda bateu na trave para o 2-1 (61′). O encontro tinha mudado por completo e agora eram os dragões que estavam na sua zona de conforto.

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Esse era o momento do FC Porto. O Betis acusava esses dois golos portistas, as próprias bancadas tinham ficado congeladas perante a reação dos dragões, ouviam-se apenas os adeptos azuis e brancos a fazer a festa. No entanto, e depois de todas as indicações “preocupantes” que tinha deixado no primeiro tempo, manter em campo Francisco Moura em claro défice físico acabou por ser o calcanhar de Aquiles para a estratégia de Farioli: Antony passou pelo lateral antes de assistir Cucho Hernández para o empate (74′), Ángel Ortiz também passou pelo lateral já na área antes do toque que permitiu a segunda reviravolta de penálti a Isco (79′). Tudo voltava a mudar, agora de vez. Santi Giménez ainda teve uma grande oportunidade nos descontos com um desvio de cabeça para grande defesa de Álvaro Vallés mas a história do jogo estava escrita.

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