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(A) :: Passos Coelho e a crise existencial do PSD

Passos Coelho e a crise existencial do PSD

Luís Montenegro terá mais cedo ou mais tarde de esclarecer se, caso o Chega vença as próximas eleições, aceitará viabilizar um Governo liderado por Ventura ou preferirá reeditar uma nova geringonça

André Azevedo Alves
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A semana fica marcada pela entrevista concedida por Pedro Passos Coelho a Maria João Avillez e, em especial, pela disponibilidade explícita que manifestou para um regresso à política activa caso as circunstâncias do país e do PSD assim o propiciem. Perante um Governo que não ousa sequer tentar reformar e um partido que está auto-limitado à gestão do status quo – na feliz expressão de José Manuel Fernandes, o PSD encontra-se cada vez mais reduzido a um “partido de simples ocupação do poder” – a disponibilidade de Passos Coelho pode ser a última janela de oportunidade para evitar a substituição do PSD pelo Chega.

O sistema eleitoral português gera incentivos substanciais (ainda que não tão fortes como um sistema maioritário) para a bipolarização pelo que não é provável que a actual situação tripartida com AD, Chega e PS com dimensões similares se mantenha a médio e longo prazo. Entre os três, o risco é claramente maior para o PSD do que para o PS. Por um lado, porque o PS tem hoje um deserto à sua esquerda. Essa situação pode mudar mas não há para já no contexto português sinais de emergência de uma alternativa de esquerda populista viável. Por outro lado, e contrastando com o PS, porque o PSD está ladeado quer à sua esquerda quer à sua direita.

O cenário de substituição do PSD pelo Chega torna-se cada vez mais plausível por culpa do estado de desnorte e da letargia do PSD, pela incapacidade reformista e pelo desgaste acumulado por uma sucessão de casos mal resolvidos, com destaque para a inaceitável manutenção de Luís Neves como Ministro da Administração Interna. As sondagens que vão saindo reforçam a pertinência de equacionar seriamente esse cenário e, compreensivelmente, aumentam as preocupações e as movimentações no interior do PSD e do próprio Governo. Tendências que se vão acentuando à medida que algumas figuras chave no PSD e no Governo começam a interiorizar a convicção de que, mesmo ocupando o cargo de Primeiro-Ministro, Luís Montenegro pode ser um líder próximo de esgotar o seu prazo de validade político.

Neste contexto, proclamações públicas de inabalável confiança – como as recentes declarações do ministro Gonçalo Matias que consegue perspectivar no horizonte uma maioria absoluta para a AD – soam mais a desespero do que a convicções fundamentadas. Como bem salientou Pedro Passos Coelho, “há muita gente no Governo a achar que é a empurrar com a barriga que se chega à maioria absoluta”, mas não há qualquer evidência da viabilidade desse desígnio – aliás bem pelo contrário. Relativamente às sondagens e às perspectivas eleitorais é possível constatar crescentes ecos do que se passou nas recentes eleições presidenciais com o candidato apoiado pelo PSD. Perante os dados que se iam acumulando e que confirmavam que Luís Marques Mendes tinha sido uma péssima escolha e que o PSD se encaminhava para o dessatre eleitoral que acabou por se verificar, as reacções (públicas) por parte dos seus mais destacados apoiantes foram invariavelmente criticar ou desvalorizar as sondagens e reafirmar a sua total confiança no seu candidato. A derrota humilhante que os eleitores impuseram à estratégia do PSD nas presidenciais deveria ter funcionado como um banho de realidade para o partido mas, aparentemente, o choque não foi suficiente uma vez que assistimos agora a atitudes públicas muito similares.

O PSD prestaria um muito melhor serviço ao país (e, a prazo, a si próprio) reconhecendo que Passos Coelho tinha e tem razão. O PSD deveria efectivamente ter tentado seriamente negociar um acordo de governação com Chega e IL para ter uma base maioritária sólida que possibilitasse levar a cabo reformas estruturais. Falhando esse acordo, estaria em muito melhores condições para responsabilizar o Chega do que se encontra actualmente. Relativamente à IL, que continua a mostrar-se incapaz de capitalizar a seu favor o desgaste do PSD, Passos Coelho foi, uma vez mais, generoso ao considerar a “Iniciativa” como um parceiro potencialmente relevante, ainda que seja de admitir que o possa ter feito também em parte por razões instrumentais. Para algumas das reformas de que Portugal necessita seria positivo que a IL não desaparecesse e pudesse contrabalançar as tendência mais estatistas do Chega.

Há no entanto sinais cada vez mais fortes de que o tempo de o Chega poder apoiar um Governo liderado pelo PSD de Montenegro já passou. Com a sua extraordinária intuição política, André Ventura já percebeu que a letargia do PSD abre reais possibilidades de o Chega passar a liderar o espaço à direita do PS já nas próximas eleições. Um cenário que, a concretizar-se, muito provavelmente agravará as fracturas internas do PSD de uma forma que poderá ser muito difícil de resolver.

Para o próprio Pedro Passos Coelho, o caminho que se apresenta é estreito e incerto. Não basta retomar a liderança do PSD. Há uma década afastado da política activa, a janela de oportunidade para um regresso politicamente viável de Passos Coelho está a fechar-se e o próprio está certamente consciente disso mesmo. Acresce que não é de todo evidente que Passos pudesse assumir o cargo de Primeiro-Ministro num cenário pós-eleitoral no qual o Chega ficasse à frente do PSD.

Por seu lado, o ainda Primeiro-Ministro e líder do PSD Luís Montenegro terá mais cedo ou mais tarde de esclarecer se, caso o Chega vença as próximas eleições, aceitará viabilizar um Governo liderado por André Ventura ou preferirá reeditar uma nova versão da geringonça, mas desta vez com o PSD como muleta do PS. Caso a comprovadamente catastrófica estratégia das “linhas vermelhas” se mantenha e a liderança do partido não mude, o PSD arrisca-se assim seriamente a ir às próximas eleições com a posição suicidária de que um voto na AD será um voto para dar o poder ao PS.