Em relação às eleições em Espanha, a direita portuguesa não pode ser neutral. Só há dois resultados possíveis. O PP e o Vox conquistam uma maioria de direita, ou o PSOE renova a maioria da geringonça à espanhola, com a extrema-esquerda e os independentistas bascos e catalães. Não há meio termo, não se pode sentar em cima do muro. É preciso estar de um lado. Bem sei que não estamos perante as escolhas perfeitas. Mas na política actual, cada vez menos se escolhe o ideal. Devemos aceitar o hábito de escolher o menos mau. Aliás, por ser o menos mau, é uma escolha com uma dimensão ética importante. O menos mau evita o pior, o péssimo. Por isso, o menos mau torna-se de certo modo o ‘melhor’.
As eleições em Espanha são obviamente importantes para Portugal, por várias razões. É o nosso vizinho e o país mais próximo de Portugal. Além disso, os dois países estão na União Europeia e enfrentam desafios semelhantes. Por fim, é altamente provável que se a direita vencer com maioria absoluta, haja um governo de coligação entre o PP e o Vox, a solução que a direita portuguesa rejeitou.
Contra o PP e o Vox, estão o PSOE, liderado por Pedro Sánchez, e os seus aliados de extrema-esquerda. O PM espanhol é um mentiroso compulsivo, um oportunista sem escrúpulos e que permitiu o crescimento de uma teia de corrupção à sua volta, nos mais próximos do seu partido e na sua família. Mas não vale a pena desenvolver o que já foi explicado inúmeras vezes. Faço apenas dois pontos em relação ao líder do PSOE.
Em primeiro lugar, se Sanchez colocasse o interesse do seu partido (e, obviamente, de Espanha) acima dos seus interesses, teria abandonado a liderança do PSOE e daria tempo ao partido para escolher um novo líder. Sanchez já não tem nada de novo a oferecer a Espanha, se for eleito, será mais do mesmo. Estamos a falar de um PM que não foi capaz de aprovar um orçamento nos últimos três anos. Se restasse um pingo de decência a Sanchez, diria que não se voltaria a candidatar e pediria ao PSOE para organizar eleições para a liderança. O partido iria para eleições com um novo líder, com propostas novas. Mas para Sanchez, a esquerda espanhola começa e acaba com ele.
Em segundo lugar, é necessário falar da habitação. Sanchez convocou eleições antecipadas em nome de uma nova política de habitação, aproveitando sem qualquer vergonha uma situação dramática com uma senhora de idade. O líder do PSOE quer agora fazer campanha contra a “especulação imobiliária” e contra os “fundos abutres” que investem no sector imobiliário. Sanchez foi PM durante os últimos oito anos, o período em que o investimento privado nas habitações foi o maior de sempre em Espanha. O que fez Sanchez durante oito anos contra os “fundos abutres”? Nada.
Mas se esse investimento imobiliário (em grande parte estrangeiro) entrou em Espanha foi porque o governo espanhol permitiu. Os fundos que investem no imobiliário não correm riscos políticos desnecessários. Se percebessem que o governo espanhol não recebia bem esses investimentos, não os teriam feito. Aliás, Sanchez gosta de sublinhar o crescimento económico espanhol. Esses investimentos imobiliários contribuíram de um modo decisivo para o crescimento económico de Espanha. Sanchez e os seus ministros sabem isso; por isso, sempre aceitaram os investimentos dos “fundos de abutre.” E se o PSOE ganhar as eleições, continuarão a aceitar. Sanchez está apenas a manipular sem pudor os jovens bem-intencionados e ingénuos que acampam no centro das cidades espanholas.
Regresso agora à direita portuguesa, ao PSD e ao CDS, onde se situam em relação às eleições espanholas? Eu não tenho qualquer dúvida: quero a vitória da direita espanhola, idealmente uma maioria absoluta do PP. Não havendo uma maioria absoluta do PP, altamente improvável, quero um governo entre o PP e o Vox. Mas o que quer a parte da direita da AD, anti-Chega, uma vitória do PSOE e de Sanchez para evitar que o Vox (o Chega de Espanha) chegue ao poder? Ou querem a vitória do PP e do Vox, aceitando a direita populista no governo? E se a direita populista pode governar em Espanha, por que razão não pode governar em Portugal, aliada à AD?