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Invasão de países vizinhos e milícias femininas. Irão renova arsenal e prepara-se para guerra total com os EUA

Irão está a mobilizar sociedade para guerra total contra os EUA e até envia militares aos jardins de infância para contar histórias sobre a guerra. Mas possível ofensiva dos EUA só após intercalares.

José Carlos Duarte
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Há ataques a navios, versões contestadas sobre quem controla o Estreito de Ormuz e ameaças de parte a parte. Nove meses depois de os Estados Unidos da América (EUA) iniciarem uma guerra contra o Irão, os dois países mantêm-se num impasse. A diplomacia, uma via que já foi explorada, não está a dar frutos: Washington e Teerão não chegam a acordo e recusam-se a fazer cedências. Militarmente, a situação está congelada devido às eleições intercalares norte-americanas. Donald Trump não quer perder votos para os democratas e pretende evitar uma situação de instabilidade financeira a todo o custo. Ora, o regime iraniano está a aproveitar esta quase trégua para se rearmar e para desenvolver planos para suster uma ofensiva norte-americana.

O Presidente norte-americano já deixou no ar que pode voltar a atacar o Irão. Insistindo no argumento de que o país “não pode desenvolver uma arma nuclear”, Donald Trump parece inclinado a voltar a bombardear território iraniano e esperar resolver a situação de vez. Israel, que também terá eleições no final de outubro — estando em risco a permanência de Benjamin Netanyahu no poder —, pode juntar-se a uma renovada operação militar. Em qualquer caso, o líder da Casa Branca já garantiu que os novos ataques só acontecerão depois de 3 de novembro, dia das intercalares.

Atualmente, os Estados Unidos têm em curso uma guerra económica contra o país desde meados de agosto, impondo sanções e desmantelando as redes de financiamento iranianas. Mesmo assim, o Irão tem resistido. Profundamente militarizado, o regime está cada vez mais violento, não existindo qualquer espaço para protestos ou dissidências. Aproveitando-se da mobilização popular contra o conflito, Teerão não tem cedido à Casa Branca — e tem visto com bons olhos a ofensiva dos aliados no Iémen, os houthis, que estão a conquistar cada vez mais parcelas de território iemenita e a atacar a Arábia Saudita.

Perante as ameaças que pairam no ar, a Guarda Revolucionária, a instituição que controla praticamente todas as instituições no Irão após a morte do ayatollah Ali Khamenei, está a preparar-se para uma guerra total — em ar, terra e mar — contra os Estados Unidos. Como o Wall Street Journal detalha, o país está a intensificar a sua capacidade de dissuasão e a renovar o seu arsenal. Se Donald Trump premir o gatilho, o regime está pronto para retaliar, num plano que prevê a retoma de ataques aos aliados norte-americanos no Médio Oriente.

Histórias de guerra nos jardins de infância e a fortificação dos complexos nucleares: os planos internos do Irão

Segundo imagens de satélite consultadas pelo Wall Street Journal, o Irão está a fortalecer as redondezas das suas instalações nucleares, bem como as fronteiras com os países vizinhos. O objetivo é proteger o programa nuclear — ao qual Donald Trump se opõe categoricamente — e evitar uma invasão terrestre, principalmente oriunda do Iraque. No início da guerra, Donald Trump e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, esperavam que os curdos iraquianos e iranianos forjassem uma aliança e começassem uma ofensiva terrestre no Irão. O plano nunca foi avante.

Entre todos os alvos em território iraniano, em público, Donald Trump ameaçou por várias vezes atacar a Montanha Pickaxe, um complexo nuclear subterrâneo altamente fortificado. Ora, a Guarda Revolucionária está, pelo menos desde o mês passado, a fortificar as suas imediações para evitar que caia nas mãos de forças rivais no caso de uma invasão terrestre.

https://observador.pt/especiais/pickaxe-mountain-a-fortaleza-nuclear-iraniana-que-sobreviveu-a-todos-os-ataques-e-que-agora-trump-promete-destruir-com-toda-a-forca/

Para além disso, o nível de proteção dos bunkers também está a ser reforçado. Após a morte de Ali Khamenei e de vários dirigentes de topo do regime, Teerão pretende evitar um novo cenário em que os seus líderes acabem mortos. Na mesma linha, Gholamreza Jalali, o responsável por desenhar os planos de contingência iranianos, indicou à imprensa iraniana que os aeroportos, portos marítimos e centrais elétricas estão a ser “preparados para condições em tempo de guerra”.

Ao mesmo tempo, para evitar que a opinião pública esmoreça e que surjam vozes contra o conflito, têm sido convocadas várias manifestações a favor do regime por todo o país. Foram também instalados cartazes nas ruas a aconselhar os civis a realizar treinos em armamento, nomeadamente no uso de mísseis antiaéreos portáteis e espingardas de precisão.

O esforço é transversal a toda a sociedade iraniana e até inclui as mulheres: foi concluído o treino da primeira unidade feminina para táticas de guerrilha, utilização de drones e manuseamento de armas de fogo. Nem as crianças escapam a esta mobilização: em Sabzevar, uma cidade no nordeste do Irão, uma unidade da Guarda Revolucionária visitou um jardim de infância para ler uma história sobre o início da guerra — e mostrar um míssil norte-americano Tomahawk que terá sido derrubado pelas forças iranianas.

A sociedade está a ser toda mobilizada para o conflito. E isso acaba por beneficiar indiretamente o regime, num momento em que a liderança do país ainda não está bem definida. Mojtaba Khamenei — o novo ayatollah — ainda não apareceu em público desde a sua nomeação. Concentrados no esforço de guerra, os dirigentes iranianos sabem que, mesmo que não esteja garantida, a ameaça externa arregimenta apoiantes e fá-los não pensar em como será o futuro do país assim que as hostilidades cessarem.

Além disso, um eventual conflito serve para explicar o aumento do custo de vida, o aumento da taxa de inflação e as massivas sanções de que o país é alvo, bem como para justificar o aumento da repressão nas ruas. Depois dos massivos protestos que causaram dezenas de milhares de vítimas mortais em janeiro de 2026, o regime iraniano entende que a guerra — ou os preparativos para a mesma — serve como uma maneira de se autopreservar. Se não houver conflito? A tática resulta. Se houver conflito? Estão prontos para ripostar.

As ameaças de invadir países e os houthis mais fortes: os planos externos do Irão se for atacado

Logo no dia em que começou a guerra, a 28 de fevereiro, o Irão começou a atacar os países do Golfo Pérsico. Mísseis foram intercetados em cidades como o Dubai e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Praticamente toda a região, inclusive o neutro Omã, foi atingida pelo conflito. Se a ofensiva recomeçar, o regime iraniano prevê adotar a mesma tática e até intensificá-la.

Segundo o Wall Street Journal, os países fronteiriços estão a ser avisados pela Guarda Revolucionária de que podem ser alvo de uma invasão terrestre caso os Estados Unidos voltem a atacar o Irão. Seria uma escalada inédita por parte de Teerão, mas que também pode ser um bluff para pressionar os países do Golfo Pérsico a convencerem Donald Trump a não avançar com novos bombardeamentos.

De qualquer forma, caso seja atacado, o Irão voltará a antigos métodos. Nos Emirados Árabes Unidos, através de ataques aéreos e, tal como já fez no passado, a Guarda Revolucionária pode visar os data centers de multinacionais norte-americanas, bem como os cabos de fibra ótica marítimos. Na Arábia Saudita, os alvos primários podem voltar a ser as refinarias e infraestruturas petrolíferas do reino — o que complicaria ainda mais a situação da coroa saudita, que está a ser pressionada devido aos ataques dos houthis a partir do Iémen.

No mar, Teerão pretende intensificar os ataques aos navios mercantes que navegam no Golfo Pérsico e manter o bloqueio no Estreito de Ormuz. Em última instância, o regime iraniano procura voltar a semear o caos no mercado energético e fazer o mundo pagar o preço de uma nova ofensiva norte-americana.

Além do Estreito de Ormuz, por onde passavam milhões de barris de petróleo por dia, existe outro ponto nevrálgico com o qual o Irão pode contar: o Estreito de Bab el-Mandeb. O movimento dos houthis tem em curso uma ofensiva bem-sucedida para conquistar territórios ocupados pelo Governo internacionalmente reconhecido do Iémen. O grupo xiita, membro do Eixo da Resistência, já controla territorialmente as imediações desta via marítima estratégica.

A Arábia Saudita tem ripostado e, juntamente com as forças do Governo iemenita, tem levado a cabo uma contraofensiva para recuperar os territórios controlados pelos houthis. No entanto, a monarquia saudita está também sob constantes ofensivas aéreas do movimento xiita. Ainda no último fim de semana, o Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riade, foi alvo de vários ataques — num dos quais morreram 12 pessoas.

Segundo avançou o jornal Haaretz, Benjamin Netanyahu já se ofereceu para apoiar uma ofensiva saudita no Iémen. Contudo, o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, terá rejeitado o apoio israelita. De qualquer forma, Donald Trump pode também iniciar uma ofensiva em território iemenita em simultâneo com os bombardeamentos ao Irão. Esta terça-feira, o Presidente norte-americano acusou o grupo de estar “a portar-se muito mal” e a tentar “aumentar os preços do petróleo antes das eleições intercalares”.

“Nunca me vou esquecer”, advertiu Donald Trump, numa clara alusão a uma futura ofensiva militar contra o Iémen. Entre os membros do Eixo da Resistência, em comparação com o Hamas em Gaza e o Hezbollah no Líbano, os houthis são quem preserva uma maior capacidade militar. O Irão sabe que pode contar com eles se for preciso — e uma ofensiva norte-americana pode vir a ser esse momento.

Rápida e intensa. Como poderia ser uma ofensiva norte-americana?

Os últimos ataques norte-americanos ao Irão ocorreram no início de setembro. Desde aí, em campanha para as eleições intercalares, a administração Trump tem evitado atacar território iraniano. Donald Trump quer evitar a todo o custo uma nova escalada no preço dos combustíveis e um aumento do custo de vida antes de os eleitores irem às urnas.

Ainda assim, o chefe de Estado norte-americano indicou que, a partir de 3 de novembro, pode voltar a atacar o Irão. Nos bastidores, prosseguem as negociações com o regime iraniano. Não têm chegado a bom porto, ainda assim: nenhuma das partes mostra disponibilidade para ceder — o Irão prefere focar-se na reabertura do Estreito de Ormuz e no levantamento de sanções, ao passo que Donald Trump deseja garantir que o Irão nunca desenvolverá uma arma nuclear e exige que Teerão abdique de todo o urânio enriquecido que mantém.

Sem uma solução concreta no horizonte, Donald Trump tem ponderado voltar a bombardear o Irão, ainda que realce que só o fará depois das eleições intercalares. E já deixou um aviso: uma eventual derrota do Partido Republicano nas urnas — que poderá custar a perda da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado — não o fará mudar de ideias, assegurando que não é ele quem está no boletim de voto.

Em termos concretos, como noticiou a imprensa norte-americana, o Pentágono enviou, no início de outubro, mais um porta-aviões para o Médio Oriente, mobilizando também cerca de dez mil militares. Este reforço chegará ao terreno no final de novembro e incrementará a capacidade militar norte-americana para uma eventual nova vaga de ataques contra território iraniano.

De acordo com o New York Times, trata-se de uma “demonstração massiva de força” por parte dos Estados Unidos. O mesmo jornal revelou que, a 2 de outubro, dirigentes da segurança nacional norte-americana se reuniram na base militar de Camp David para discutir planos para um eventual bombardeamento ao Irão. Em cima da mesa esteve a hipótese de uma ofensiva curta e intensa, com a duração de três dias.

Por sua vez, uma fonte do Pentágono confirmou ao jornal Axios que existem planos em curso e que foram entregues a Donald Trump: “Os EUA estão numa posição muito forte com o controlo do Estreito de Ormuz e a economia iraniana em colapso. O Irão foi dizimado e as coisas ou correm bem, ou correm mal para eles. O Presidente Trump tem todas as cartas e fará o melhor para os Estados Unidos”.

Tal como aconteceu com o Irão, os Estados Unidos aproveitaram esta pausa estratégica para repor os seus stocks de munições — que, segundo indicou a imprensa norte-americana, estavam a ficar em níveis críticos. A principal escassez dizia respeito aos intercetores, essenciais para os sistemas de defesa aérea norte-americanos no Médio Oriente. Segundo a CNN internacional, cerca de 80% tinham sido gastos até agosto deste ano. Esta versão tem sido, no entanto, rejeitada por Donald Trump.

Nada está garantido neste momento. Como escreveu na semana passada na Truth Social, no dia em que indicou que apenas bombardearia o Irão após as intercalares, Trump reconhece que algumas negociações com o regime iraniano “estão a ser produtivas”. No entanto, neste momento, o cenário mais provável parece ser a retoma das hostilidades. Uma fonte israelita contou ao Axios que a discussão sobre uma “grande operação militar ganhou força”. “As probabilidades de ocorrer antes das eleições não são elevadas, mas não descartamos essa possibilidade. Após as eleições intercalares, as probabilidades de isso acontecer aumentam significativamente”, disse outra fonte de Israel ao mesmo jornal.

"Os EUA estão numa posição muito forte com o controlo do Estreito de Ormuz e a economia iraniana em colapso. O Irão foi dizimado e as coisas ou correm bem, ou correm mal para eles. O Presidente Trump tem todas as cartas e fará o melhor para os Estados Unidos."
Fonte do Pentágono ao jornal Axios

Todas as opções estão em aberto para Donald Trump. O Presidente norte-americano não quererá que a questão iraniana se torne uma mancha no seu mandato e pretende fechar o assunto de vez — ou, pelo menos, alcançar algo que possa apresentar internamente como uma vitória. Diante deste cenário, o Irão continua a mobilizar a sociedade para a guerra, assegurando com isso que o regime continua a sobreviver e a reprimir todas as vozes críticas.