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Mais de um terço do calçado da Shein e Temu falha regras europeias

Investigação em sete países europeus, incluindo Portugal, concluiu que 35,5% do calçado analisado proveniente de plataformas como a Shein e Temu não cumpriu pelo menos um limite regulamentar europeu.

Agência Lusa
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Mais de um terço do calçado comprado em plataformas como a Shein e a Temu não cumpre os limites europeus relativos a substâncias químicas, concluiu um estudo da Confederação Europeia do Calçado (CEC) divulgado esta terça-feira.

A investigação europeia foi realizada entre fevereiro e maio de 2026, em sete países europeus, incluindo Portugal, e abrangeu 76 pares de calçado adquiridos nas três plataformas.

Dos pares analisados, 27 (35,5%) apresentaram pelo menos uma não conformidade com os limites regulamentares aplicáveis a substâncias como ftalatos, formaldeído, crómio hexavalente, metais pesados, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e parafinas cloradas de cadeia curta.

No caso dos ftalatos (substâncias químicas usadas para flexibilidade), 15 dos 50 pares testados ultrapassaram os limites legais, tendo sido identificada num dos produtos uma concentração de 37%, cerca de 370 vezes superior ao limite de 0,1% previsto na regulamentação europeia REACH, o regulamento sobre o registo, avaliação, autorização e restrição de produtos químicos.

O estudo identificou ainda incumprimentos em 30% das amostras analisadas para crómio hexavalente, 21,4% para parafinas cloradas de cadeia curta, 10% para hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, 9,3% para formaldeído e 4% para metais pesados.

A situação é particularmente preocupante no calçado comercializado como equipamento de proteção individual: dos dez modelos submetidos a ensaios físico-mecânicos e de segurança, oito não cumpriram pelo menos um dos requisitos aplicáveis.

Entre as falhas detetadas estão deficiências na resistência ao escorregamento e à perfuração, na proteção contra impactos e compressão, na resistência das biqueiras e na ligação entre a parte superior do calçado e a sola.

Foram também identificados produtos comercializados como calçado de segurança sem a documentação obrigatória de avaliação da conformidade, bem como alegações potencialmente enganosas.

Na análise por plataforma, foram detetadas não conformidades em 13 dos 27 pares provenientes da Shein (48,1%) e em 14 dos 46 adquiridos na Temu (30,4%).

O estudo analisou ainda três amostras de calçado da AliExpress em que não foram identificados incumprimentos.

A CEC ressalva que os resultados dizem respeito exclusivamente aos produtos testados, não podendo ser extrapolados para a totalidade da oferta das plataformas.

Citado no comunicado, o presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), Luís Onofre, considera que o estudo deve servir de alerta, defendendo que não se pode exigir à indústria europeia o cumprimento de regras rigorosas e permitir, em simultâneo, a entrada de produtos que não respeitam as mesmas exigências. O responsável alerta que esta situação condiciona a atividade das empresas europeias e coloca os consumidores em risco.

A CEC defende o reforço da fiscalização do mercado, da cooperação entre autoridades nacionais e serviços aduaneiros e da responsabilização das plataformas digitais que facilitam a comercialização de produtos não conformes.

A organização considera que todos os artigos vendidos aos consumidores europeus devem cumprir as mesmas exigências legais, independentemente da origem ou do canal de comercialização, e apela à Comissão Europeia e aos Estados-membros para reforçarem os mecanismos de controlo.

O estudo contou com a colaboração de centros tecnológicos e laboratórios especializados de vários países europeus, como o Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP), em Portugal.