Na última época, quando o Sporting conseguiu a sua melhor participação na Liga dos Campeões na sequência do top 8 na primeira fase e da qualificação épica para os quartos após golear o Bodö/Glimt em Alvalade, Rui Borges entrou em analogias ligadas a carros na antecâmara da partida frente ao Arsenal, que viria a ser um dos finalistas (neste caso vencido) da competição. Aí, para comparar a disparidade de diferenças que estavam a separar ingleses e leões, catalogou a equipa verde e branca como um Peugeot. Seis meses depois, a opinião passou pela “revisão” e o bólide do conjunto leonino subiu a Mercedes. Podia não ser dos melhores, daqueles que só algumas carteiras conseguem suportar, mas é um Mercedes. Um Mercedes que tentava agora chegar à segunda vitória na prova depois do triunfo com o Galatasaray… que teve Zalazar em campo.
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“Vou tentar ser um bocado engraçado também… O Sporting, hoje em dia, já é uma presença habitual na Champions. É um grande clube. Somos um Mercedes. Pode não ser um topo de gama mas temos a validação de sermos uma grande equipa e para a qual toda a gente olha como tendo muita qualidade. Não quero só valorizar a época passada, mas também o crescimento contínuo nesta competição. Sabemos que é uma prova difícil com os melhores da Europa e do Mundo e queremos estar aqui inseridos. E estamos. Depois é competir. Da nossa forma, da nossa maneira, valorizar ao máximo o nosso país, o nosso clube, os nossos sócios e simpatizantes. E a nós também enquanto equipa grande e uma formação que tem feito por merecer estar entre os melhores”, frisara Rui Borges fazendo essa analogia com marcas (e gamas) de carros.
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O médio uruguaio veio da partida com a seleção da Índia, foi poupado em Braga começando no banco como Maxi Araújo e Luis Suárez, saltou para o campo a meia hora do final, esteve no lance do segundo golo com o contributo de “meio golo” antes do desvio de Bernardo Fontes para a própria baliza, marcou o 3-1 que acabou por sentenciar o encontro mas teve de sair com uma lesão muscular na coxa. Agora, a maior contratação de sempre do Sporting ficava de fora, num daqueles jogos onde mais poderia fazer a diferença. Da mesma forma como continuava a colocar o Campeonato acima de qualquer competição (sendo que os leões só voltam a jogar na Primeira Liga daqui a uma semana e meia), Rui Borges relativizava a parte individual em prol do crescimento coletivo, apontando à evolução da equipa nas últimas semanas para contrariar um vice-campeão francês que merecia muitos elogios mesmo estando ainda a adaptar-se ao novo treinador.
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“A nossa Champions é o Campeonato. Para estarmos cá, temos de ser campeões, o meu foco é o Campeonato. Claro que olhamos muito para o próximo jogo, independentemente da competição, mas queremos competir. Temos um grupo jovem que gosta e que quer competir. Claro que a maioria dos jogadores olha para esta competição como um sonho realizado, uma montra. São jovens que sonhavam um dia poder desfrutar desta competição. É isso que queremos, competir, independentemente de quem jogue. Mesmo sabendo que vamos ter muitas dificuldades, é isso que queremos fazer com o Lens”, destacara.
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“Tudo tem a ver com o que é o nosso crescimento diário. Melhores nos processos, a encontrar melhores soluções para nos tornarmos mais fortes, tendo em conta a valorização individual também. Não só focados na Champions, mas também internamente no Campeonato, nas taças… Estamos focados na nossa competência, em sermos ainda melhores no futuro para encararmos ainda melhor estes desafios contra as melhores equipas da Europa, que pedem mais rigor, crescimento e qualidade. O Lens é uma equipa que tem aqui um ambiente difícil em casa. Já bateram o bicampeão europeu, venceram a Taça de França na época passada também. Tiveram a mudança de treinador e, nesta paragem, mais tempo para assimilar dinâmicas e ideias. Fizeram um belíssimo jogo com o Lyon. É uma equipa muito intensa, fortíssima, corajosa e um dos melhores ataques da Liga francesa. Teremos de estar preparados para este grande desafio”, lançara o técnico leonino.
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Confirmou-se: o Lens é uma boa equipa. Tão boa que, durante 15 minutos, o Sporting não teve argumentos nem para travar as incursões dos franceses nem para sair em transições até ao meio-campo contrário. No entanto, essa foi a exceção e nunca a regra numa partida onde Rui Borges teve muito mérito na vitória pela forma como montou a equipa e como soube depois perceber ao intervalo como estava o encontro. A alma coletiva verde e branca veio ao de cima, com Eduardo Quaresma, Altimira e os laterais a serem exemplos de entrega a par de João Simões, que foi titular cinco meses depois. Também Irankunda teve uma partida bem conseguida mas nenhum chegou ao patamar de Luis Suárez: joga, faz jogar, marca, assiste, defende e faz o que for preciso pela equipa não deixando de bater recordes, neste caso o de melhor marcador dos leões na Champions. O Sporting foi de Peugeot para Mercedes mas continua com um motor Ferrari na frente.
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Os minutos iniciais mostraram que a defesa a cinco testada em Braga parece continuar mas com outras nuances, nomeadamente o recuo de Altimira para zona entre os centrais em vez de ser Geny Catamo a descer com Iván Fresneda a fechar ao meio. Se no Minho correu bem na maior parte do tempo, em França pouco ou nada acrescentou tendo em conta a forma como “encurtava” a equipa. As saídas de Geny Catamo, Irankunda e Luis Suárez continuavam a não resultar apesar de todo o espaço que havia nos corredores laterais, o meio-campo estava sempre em inferioridade perante as dinâmicas coletivas do Lens no habitual 3x4x3 e foram os visitados que beneficiaram das primeiras oportunidades com perigo, entre um remate de Thauvin depois de uma diagonal da direita para o meio para defesa à segunda de Kaique (5′), um cruzamento tenso que Franjo Ivanovic não conseguiu desviar na pequena área (10′) e um tiro forte por cima de Kalide (13′).
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Só depois desse “abafo” inicial começou a haver Sporting. Teve mais posse mesmo que muitas vezes estivesse a circular por trás antes de arriscar o passe longo, conseguiu colocar “gelo” na partida, foi percebendo com mais calma as zonas e os momentos em que aquela bola de ligação não estava a entrar. Quando interpretou esse “estudo”, marcou: João Simões conduziu pelo meio sem oposição, soltou apenas quando tinha chamado a si um adversário, Irankunda cruzou tenso de primeira na esquerda e Luis Suárez desviou ao primeiro poste para o 1-0 (22′). E podia não ter ficado por aí, tendo em conta que, dois minutos depois, Suárez colocou Issa Doumbia em posição privilegiada ao meio mas o passe para Irankunda saiu ligeiramente para a frente. Mais do que ganhar vantagem, o conjunto leonino criava a dúvida numa equipa que gosta de viver no caos.
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Até ao intervalo haveria margem para várias oportunidades mas todas com o ponto em comum de terem o condão de aproveitar o erro contrário: Luis Suárez, que ficou um minuto de fora após receber assistência, surgiu isolado nas costas dos centrais após um grande passe de Altimira mas Risser conseguiu desviar para canto com uma grande intervenção o remate feito ainda fora da área (32′); Ivanovic, numa das raras ocasiões em que deixou uma posição mais fixa não levando consigo Altimira, enquadrou-se com a baliza e atirou de fora da área ao poste (34′); Haidara, que viu as linhas verde e brancas demasiado afundadas, subiu até à zona da entrada da área e recebeu de Thauvin para um remate defendido por Kaique para a frente (36′); Geny Catamo, após assistência de Suárez na sequência de uma arrancada de Irankunda pela esquerda, demorou demasiado tempo a preparar o remate e a defesa dos franceses foi a tempo de evitar mais perigo (40′). O intervalo chegaria mesmo com a vantagem mínima num encontro que teve várias oportunidades.
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A segunda parte começava sem alterações mas era percetível pelo adiantar das zonas de pressão que o Lens vinha com tudo para tentar chegar ao golo que reabrisse as contas da mesma forma como o Sporting tentava aproveitar movimentos em que conseguisse saltar essas primeiras linhas de bloqueio para jogar na transição à procura da velocidade das três unidades da frente. Geny Catamo, após uma recuperação de bola à saída da área dos franceses, teve um remate que levava perigo na sequência de uma jogada pela esquerda entre Maxi Araújo e Irankunda mas a bola acabou por ser cortada quando ia para a baliza (50′). Pouco depois, de novo com a ala esquerda a desequilibrar, Irankunda cruzou atrasado para o remate de Maxi Araújo para defesa de Risser (55′). O Lens estava pior do que na primeira parte e as primeiras alterações não iriam demorar.
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Baidoo e Ivanovic deram lugar a Ruben Aguilar e Édouard, Haidara continuava a ser o melhor na zona mais central do terreno com mais uma tentativa de fora da área para uma grande intervenção de Kaique a desviar para canto (60′). Logo na resposta, Luis Suárez abriu em Geny Catamo, o moçambicano deixou bem ao meio em João Simões mas o remate forte acabou por ir demasiado ao meio para defesa de Risser (61′). O mais “estranho” era não haver mais golos na partida perante a capacidade das duas equipas em entrarem com sucesso no último terço e os dois treinadores percebiam isso mexendo nas unidades ofensivas, neste caso com o agora internacional Sub-21 português Mezian Soares e Luis Guilherme lançados no jogo. Na resposta, Rui Borges, pela condição de João Simões e pelo novo perigo que teria pelo corredor central, lançou Silas Andersen além de trocar Jesse Derry por Irankunda. A dois níveis, ganhou de imediato a aposta.
Por um lado, Mezian Soares ficou com menos margem para brilhar (e, apesar da idade, tem futebol que não acaba). Por outro, Silas quase se redimiu dos erros no passe em Braga, recebendo de Derry e lançando logo na profundidade Doumbia para, aproveitando a má saída de Risser, atirar rasteiro para o 2-0 (74′). A obra desenhada a régua e esquadro por Rui Borges estava a ganhar cada vez mais forma, apesar de um remate em zona central de Thauvin que saiu perto do poste de Kaique e que poderia ter despertado ainda a formação gaulesa na partida (84′). Com uma segunda parte quase perfeita sem bola, o Sporting conseguiu somar a sua segunda vitória consecutiva na Liga dos Campeões e mostrou que evoluiu mesmo de um Peugeot para um Mercedes também com muito mérito pela forma como o técnico conseguiu ler o jogo ao intervalo.
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