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A Nuvem tem chaminé

Quatro perguntas sobre um data center: qual a potência pedida à EDA? Quanto vai consumir por ano? De onde vem essa energia, e quem paga a produção e a rede que faltarem? Que ruído vpara os vizinhos?

José Melo
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Em setembro de 2023, a Google anunciou um cabo submarino entre os Estados Unidos, as Bermudas e Portugal. Chamou-lhe Nuvem, a palavra portuguesa para «cloud», o nome que a indústria dá aos seus centros de dados. Em julho de 2024, o vice-presidente do Governo Regional, Artur Lima, revelou ao Jornal de Negócios que vinha também um data center, com dez a vinte postos de trabalho diretos numa fase inicial. Em julho de 2025, a Câmara da Lagoa anunciou a instalação no Lote 32B do Tecnoparque, numa área de cerca de 15 mil metros quadrados. Chamou-lhe «edifício de telecomunicações».

Em nenhum destes momentos alguém disse quanta eletricidade aquilo vai gastar.

O número que existe veio de fora. A imprensa especializada internacional e os diretórios do setor descrevem a instalação da Lagoa com 10 megawatts, sem dizerem de onde vem o valor nem o que mede. O Bloco de Esquerda pegou nele e, num requerimento entregue a 31 de agosto, perguntou ao Governo o óbvio: se confirma os 10 megawatts, a que correspondem e qual será o consumo anual. A 10 de outubro, a base de dados do parlamento regional não registava resposta.

Dez megawatts não dizem nada a quem não trabalha nisto, mas à escala de São Miguel, em que a ponta máxima em 2025 foi de 81,6 MW segundo números da EDA citados no requerimento, dizem muito: um único cliente pode valer 12% do pico de consumo de uma ilha inteira.

Dez megawatts são a potência, não o consumo. A potência é o máximo que a instalação pode pedir à rede num dado instante. O consumo é a energia que gasta de facto ao longo do tempo: mede-se em megawatts-hora e depende de quantas horas trabalha e a que carga. É a diferença entre os cavalos de um carro e os litros que ele gasta num ano.

Uma estação de cabos é o edifício onde o cabo submarino chega a terra. Tem duas funções: alimentar eletricamente os repetidores que amplificam o sinal ao longo do fundo do mar e ligar a fibra às redes em terra. É uma casa de máquinas de telecomunicações, sem salas de servidores, e precisa de uma fração dos 10 MW.

Um data center é outra coisa: salas cheias de servidores a processar e guardar dados, mais o frio para os arrefecer. É aí que os megawatts se gastam. Para a Lagoa foram anunciadas as duas coisas, e a ordem de grandeza não é fantasia. Do outro lado dos mesmos cabos, as estações de Myrtle Beach, onde amarra o Nuvem, e de Palm Coast, onde vai amarrar o Sol, foram projetadas para 19 MW e para um mínimo de 10 MW. A comparação tem limites: são instalações de um operador que aluga espaço a vários clientes, e os valores são capacidade de projeto, não consumo medido.

Façamos então a conta que ninguém apresentou. Um data center não trabalha sempre no máximo. Entre meia carga e carga total, 10 MW dão entre 44 e 88 GWh por ano. São Miguel consumiu 460 GWh em 2025, segundo o Serviço Regional de Estatística. Falamos de 10% a 19% do consumo da ilha, para um edifício.

Agora o combustível. Em 2025, segundo o mesmo requerimento, cerca de 57% da eletricidade produzida em São Miguel saiu do fuelóleo. Pelos dados de 2016 do Relatório do Estado do Ambiente dos Açores, as centrais da região queimam à volta de 210 gramas por cada kWh, pouco mais de dois decilitros. Com a mistura atual, o data center representa entre 5 e 11 milhões de litros de fuelóleo por ano. No cenário intermédio, com a instalação a dois terços da potência, cerca de 7 milhões: quase 20 mil litros por dia, todos os dias.

E fuelóleo queimado é CO2 emitido. Com o fator de emissão que a Agência Portuguesa do Ambiente usa para centrais deste tipo, 0,665 toneladas por MWh, são entre 17 e 33 mil toneladas de CO2 equivalente por ano. No cenário intermédio, cerca de 22 mil.

E esta é a conta simpática, porque assume que a Google recebe a mesma mistura que todos nós. A geotermia não cresce por decreto; em 2025 até caiu 6,6%. Se cada kWh novo tiver de sair da central do Caldeirão, o cenário intermédio passa os 12 milhões de litros e chega às 39 mil toneladas de CO2.

Há ainda uma ironia. O Governo Regional anunciou em maio que os novos projetos renováveis vão cortar cerca de 37 mil toneladas de fuelóleo nos Açores até 2028, face ao consumo de 2025. O data center, sozinho, pode queimar entre 5 e 10 mil toneladas por ano. Entre um sétimo e mais de um quarto do ganho, gasto antes de chegar.

Depois há o que não se mede em megawatts. O Lote 32B fica a cerca de uma centena de metros do DoubleTree by Hilton, um hotel de cinco estrelas, de habitações e de um hospital.

Um data center não faz barulho como uma discoteca. Faz barulho como um ar condicionado que nunca se desliga: ventiladores, chillers e transformadores, vinte e quatro horas por dia, todos os dias do ano. Os próprios operadores do setor apontam 45 a 55 decibéis no limite do lote, em instalações modernas e bem desenhadas. E há os geradores de emergência, que têm de ser testados com regularidade e a que a imprensa especializada atribui entre 85 e 100 decibéis, consoante a dimensão.

O Regulamento Geral de Ruído e de Controlo da Poluição Sonora dos Açores (Decreto Legislativo Regional n.º 23/2010/A) é claro. O ruído noturno não pode passar de um limite entre 45 e 55 decibéis, conforme a classificação da zona no PDM. E, em qualquer zona, logo que o ruído ambiente ultrapasse os 45 decibéis, uma atividade ruidosa permanente não pode acrescentar mais de 3 decibéis ao que já lá estava à noite. Três decibéis são uma diferença que o ouvido mal distingue. Perto de um hospital, às três da manhã, é essa a margem que a lei dá ao data center.

Nada disto é uma sentença. Barreiras acústicas, canópias e a orientação das máquinas resolvem muito. Mas resolvem no projeto, não depois das queixas. Há estudo acústico? Alguém mediu o ruído noturno junto ao hospital antes da obra? Para que lado ficam virados os chillers?

Nada disto é um argumento contra o investimento. Os cabos Nuvem e Sol põem os Açores no mapa das comunicações transatlânticas, e isso vale muito. Mas um projeto cuja ligação por cabo o Governo Regional reconheceu, em julho de 2024, como de relevante interesse público deve ao público, pelo menos, os números.

São quatro perguntas simples. Qual é a potência pedida à EDA? Quanto vai consumir por ano? De onde vem essa energia, e quem paga a produção e a rede que faltarem? Que ruído vai chegar às janelas dos vizinhos?

Há também aqui uma oportunidade. Um data center consome de forma constante, dia e noite; a geotermia produz de forma constante, dia e noite. Este acréscimo de procura devia ser aproveitado para um investimento real e duradouro em geotermia. Os data centers podem mudar de sítio, os furos geotérmicos ficam: se um dia a Google sair, essa energia continua cá, para os Açores.

Com tantos milhões de fundos comunitários a chegar aos Açores, parece incrível que nenhum esteja pensado para acompanhar este acréscimo. O PRR paga a ampliação da central geotérmica do Pico Vermelho, com mais 12 MW, mas esse contrato foi assinado em 2024 para reduzir a importação de combustíveis fósseis, não para alimentar um cliente novo.

Chamaram-lhe Nuvem. As nuvens não têm contador, não fazem barulho e não têm chaminé. Esta vai ter as três coisas. A chaminé fica no Pico da Pedra, na central do Caldeirão, onde se queima o fuelóleo que a vai alimentar.