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Margem de refinação da Galp duplicou num trimestre, mas agora está a cair devido ao custo de transporte

Margem de refinação da Galp atinge 33,8 dólares por barril no terceiro trimestre. Mas custo dos fretes está a disparar porque petroleiros estão a desviar-se para rotas mais longas para evitar ataques.

Ana Suspiro
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A margem de refinação da Galp disparou no terceiro trimestre, para 33,8 dólares por barril, no terceiro trimestre deste ano. Este valor praticamente duplica a margem registada no trimestre anterior, que foi de 16,8 dólares por barril, revelam os dados sobre a atividade operacional da petrolífera entre julho e setembro. No terceiro trimestre do ano passado estava nos 9,5 dólares por barril.

No mesmo período deste ano, a Galp reporta uma subida de 3% na produção de petróleo face ao trimestre anterior e um recuo de 1% nas vendas de produtos petrolíferos. Em termos acumulados até setembro, as vendas de combustíveis estão a subir 10%, face aos primeiros nove meses de 2025.

A margem petrolífera corresponde à diferença de valor entre os produtos refinados e o custo do petróleo usado para os produzir. A subida de preços potencia as margens, sobretudo no caso da refinaria da Galp em Sines cujo output está 45% concentrado nos produtos que mais valorizaram no mercado internacional — o gasóleo e o jet fuel — e que atingiram o preço mais alto no mês de setembro.

Mas a tendência de subida das margens está a ser contrariada, pelo menos nas últimas duas semanas, pelo incremento da fatura da Galp com o transporte de petróleo. Os constrangimentos ao tráfego de petróleo e gás a partir do Golfo Pérsico estão a alastrar a outras vias estratégicas, além do Estreito de Ormuz.

Desde que os ataques dos houthis comprometeram o estreito de Bab el Mandeb — a porta de saída do Mar Vermelho — as cargas com destino à China estão a ser desviadas para uma rota duas a três vezes mais longa. Um comboio de superpetroleiros tem sido abastecido através do pipeline Leste-Oeste. Este oleoduto atravessa a Arábia Saudita e permite transportar o petróleo da costa do Mar Arábico até ao Mar Vermelho, sem passar pelo estreito que tem sido o alvo preferencial dos houthis, aliados do Irão. O pipeline chegou a ficar temporariamente inoperacional no início de setembro, mas já terá retomado as operações.

A partir da cidade portuária de Yanbu no Mar Vermelho, os petroleiros rumam a norte (evitando o Estreito de Ormuz) e atravessam o Canal do Suez para chegarem ao Atlântico através do Mediterrâneo. É a partir daqui que contornam toda a África Ocidental, numa viagem que evoca a rota marítima aberta pelos portugueses para chegar à Ásia, até atingirem o destino final na China. O caminho é muito mais longo, demora três a quatro semanas, e esta nova procura fez disparar os custos dos fretes para mais de 25 dólares por barril, além do custo do próprio crude que continua a negociar acima dos 100 dólares.

Portugal está muito exposto à rota da África Ocidental, dada a sua dependência da bacia do Atlântico no fornecimento de petróleo à refinaria de Sines, e também exposto a esta subida dos custos do frete. De acordo com dados internacionais, a margem de refinação estará na casa dos 10 dólares por barril. É ainda um valor acima da estimativa que tinha sido feita para o ano de 2026 — 5 a 6 dólares por barril — mas é revelador da enorme volatilidade que está a afetar o mercado petrolífero este ano.

A refinação representa no atual contexto cerca de um quarto dos resultados da Galp e as elevadas margens alcançadas este ano vão ser alvo da nova contribuição solidária e temporária sobre os lucros extraordinários do setor petrolífero.

Mas nem sempre a refinação é um negócio lucrativo e, nos últimos 20 anos, houve ciclos com margens negativas.

Em 2021, a Galp encerrou a refinaria de Matosinhos invocando falta de rentabilidade num setor que exige sempre grandes investimentos, seja de reconversão para a descarbonização, seja de manutenção. Desde o final da década passada, fecharam 28 refinarias de grande capacidade na Europa, o que conduziu o continente europeu à atual situação de grande dependência da Ásia e do Médio Oriente. A disrupção do normal abastecimento de petróleo e produtos refinados a partir do Médio Oriente — desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão em fevereiro deste ano — tem alimentado o receio de escassez de alguns produtos. A Europa importa sobretudo gasóleo e jet fuel.

Os investimentos feitos entre 2010 e 2013 numa unidade de hydrocracker permitem hoje à refinaria de Sines abastecer a quase totalidade do diesel consumido em Portugal e grande parte do jet fuel. Esta unidade está agora parada numa manutenção programada de 37 dias que termina no final deste mês, mas a Galp afasta qualquer risco de rutura.

“O abastecimento de combustíveis ao mercado nacional está assegurado, através de armazenamento prévio de produto e, no caso do combustível para aviação, também através de importações pontuais”, afirmou ao Observador fonte oficial.