De um lado ao outro da sala, ecoam os primeiros versos de Wild is the Wind: “Love me, love me, love me, love me / Say you do / Let me fly away / With you”. A cappella, as vozes de Nina Simone e David Bowie atravessam o escuro, devolvidas pelas paredes de uma sala revestida a material de isolamento acústico e pintada de negro. Ao centro, dois bancos largos convidam à pausa. É aqui que acontece 66-76-26, a nova instalação sonora do cineasta e artista britânico Steve McQueen, concebida especialmente para o Guggenheim de Bilbau e inaugurada no sábado, 10 de outubro. Nas palavras do artista, é um convite ao silêncio e à escuta, uma experiência sobre a “vulnerabilidade e o amor”, em que as paredes prolongam a ressonância das vozes.
Sem imagens que nos distraiam, a instalação, em loop, convida-nos a ouvir a canção uma e outra vez. Prestamos atenção à dicção, ao ritmo e ao modo como se entrelaçam as vozes de duas figuras incontornáveis da história da música. Cada palavra ganha uma nova nitidez. Estamos longe da primeira versão de Wild is the Wind, composta por Dimitri Tiomkin e interpretada por Johnny Mathis em 1957, bastante diferente das que aqui escutamos. Despidas de instrumentação, as vozes de Nina Simone e David Bowie cruzam-se num dueto que nunca chegou a acontecer. McQueen encontra nesta relação uma espécie de diálogo entre duas interpretações: “Quando ouvimos a versão do Bowie é como se houvesse uma mímica com a versão da Nina, quase como uma homenagem. É isso que os artistas fazem, de facto. Pegam em algo e fazem novas versões, reinterpretam de formas diferentes”. São, nas palavras do artista, “versões complementares” que, quando reunidas, “são como uma faísca que faz fogo”.

É também neste encontro imaginado que começa a revelar-se o sentido do título escolhido por Steve McQueen, 66-76-26. Separados por exatamente dez anos, os dois primeiros números remetem para as gravações de Nina Simone, em 1966 (do álbum homónimo), e de David Bowie, em 1976 (de Station to Station). O último traz-nos ao presente, reunindo três momentos distintos em torno de uma mesma canção. Ao longo do tempo, Wild is the Wind foi adquirindo novos sentidos, sem perder a capacidade de surpreender o artista. É uma canção de amor, mas também de lamento e saudade. Para McQueen, que descobriu primeiro a versão de Bowie e só mais tarde a de Simone, é ainda um exercício de escuta e de reflexão sobre a capacidade do som para criar atmosferas e convocar emoções no presente. E esse presente torna a mensagem particularmente urgente, como o próprio assume sem rodeios: “Num tempo em que o fascismo está a ganhar poder, ainda existe uma coisa a que chamamos amor”.
As duas gravações surgiram num período marcado por profundas transformações sociais e políticas. É também nesse contexto de instabilidade que McQueen encontra ecos do presente. A instalação é, simultaneamente, uma homenagem a Nina Simone e David Bowie, duas personalidades que o artista descreve como “yin e yang” e que partilharam uma “grande relação de amizade e cumplicidade”. A escultura sonora que aqui ganha forma reflete ainda o interesse de McQueen pelo silêncio enquanto forma de escuta ativa, num presente dominado pelo ruído. Uma ideia que encontra paralelo na importância que Miles Davis atribuía ao espaço entre as notas: aquilo que se escuta não depende apenas do som, mas também dos intervalos e dos silêncios que lhe dão forma.
Uma caixa de ressonância no museu de Frank Gehry
Para o realizador de Shame, Hunger e 12 Anos Escravo — que lhe valeu o Óscar de Melhor Filme em 2014, enquanto produtor —, a música e o som foram sempre elementos essenciais da construção artística, nunca meros adereços. É natural, por isso, estabelecer paralelos entre 66-76-26 e os seus filmes, relação invocada desde logo pela utilização do tema no seu filme Widows (2018). A instalação ganha, contudo, outra dimensão quando situada no contexto do trabalho que tem desenvolvido no campo das artes visuais, de que são exemplos Bass (2024) e Atlas (2026). Em vez de privilegiar a narrativa ou a imagem, McQueen explora o som, a luz e a própria arquitetura como matérias-primas para experiências sensoriais imersivas.
Acima de tudo, explica à imprensa, trata-se de uma forma de se “livrar do enquadramento”. Os enquadramentos atravessam o quotidiano, sobretudo para quem, como McQueen, se dedica à construção de imagens. Libertar-se deles é também um gesto de rutura. “Toda a minha vida foi mapeada por enquadramentos, do cinema às paredes do museu. Estou interessado em criar ambientes que escapam a essa lógica”, afirma. A instalação não se limita, porém, ao espaço que a acolhe: estabelece também um diálogo com a arquitetura do Guggenheim Bilbao e com a sala icónica de Richard Serra, marcada pelas suas monumentais paredes de ferro. “Funciona como uma caixa de ressonância dentro do museu de Frank Gehry”, diz McQueen, sublinhando que 66-76-26 exige condições espaciais muito particulares. “Há muito poucos espaços que te dizem ‘estás aqui, podes parar’, é isso que sucede neste edifício”, conclui.
Embora seja amplamente conhecido pelo cinema, McQueen (que representou o Reino Unido na Bienal de Veneza em 2009) tem desenvolvido um percurso artístico que atravessa diferentes meios, da fotografia à instalação, explorando formas de criação que escapam à representação convencional. 66-76-26 inscreve-se nessa procura, ao fazer do som e do espaço os principais elementos da experiência. A instalação nasceu de um convite lançado há seis anos pela curadora Lekha Hileman, que reencontrou o artista depois de uma exposição em Chicago. “Ele visitou o edifício, onde pensou como trabalhar com o som em relação ao espaço e isso foi fundamental para este projeto”. Esta é, de resto, a primeira vez que o Guggenheim apresenta uma instalação neste formato, exclusivamente sonoro, que funciona como um convite a que “nos percamos no espaço e a deixarmo-nos levar pela imaginação”, sublinha.
Isto é arte?
No meio da escuridão, há poucos elementos que saltam à vista: a luz baixa, os bancos ao centro e as colunas que projetam o som. Numa conversa com a curadora incluída no catálogo, McQueen explica por que razão quis deixar evidente a origem sonora da instalação. “Sem qualquer pretensão de que o som venha de outro lugar (…), esses dois objetos funcionam como uma âncora visual, um ponto focal”. São uma espécie de centro gravitacional a que se pode regressar enquanto a mente vagueia, sintetiza. Num espaço tantas vezes fotografado pelos visitantes, McQueen propõe um abrandamento e uma experiência em que as únicas imagens são aquelas que cada um constrói mentalmente. A instalação interroga, assim, não só o som enquanto matéria artística, mas também as próprias expectativas em torno daquilo que pode ser uma obra de arte. “Se te intriga, é porque estás no sítio certo, a fazer algo que é arte”, afirma.

Ao prescindir de estímulos imagéticos, McQueen deixa que sejam as vozes de Nina Simone e David Bowie a atravessar o tempo. Das duas interpretações, gravadas com dez anos de diferença, resta a música: um vestígio profundamente humano, marcado pelo amor e, talvez sobretudo, pela necessidade de ser amado. A sua reunião nesta escultura sonora, em 2026, liberta a canção dessa cronologia. As vozes já não pertencem apenas às épocas em que foram gravadas. Encontram-se num presente marcado por conflitos e incertezas, em que a sua mensagem ganha uma nova urgência.
“Estamos num tempo em que a verdade já não é válida e parece cada vez mais difícil confiarmos uns nos outros. O que nos une é o amor, e gostava que esta experiência nos trouxesse esse centro gravitacional”, realça McQueen. “Este espaço permite-nos desacelerar. Sem telefone, basta sentar e escutar. Podemos desligar durante um momento e depois logo voltamos às nossas vidas.” É nesse abrandamento, nessa disponibilidade para escutar, que McQueen procura reencontrar no amor aquilo que ainda nos une.
O Observador viajou a convite do Museu Guggenheim Bilbao