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As economias têm ciclos. Prémios Nobel ensinaram governos e bancos centrais a evitar que tenham solavancos

Robert E. Hall e Michael Woodford nunca trabalharam juntos mas a pesquisa académica de ambos criou "a base da nossa compreensão de como funciona a política monetária", diz Ricardo Reis.

Edgar Caetano
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“Fundamentos microeconómicos para a estabilização macroeconómica”. A síntese feita pela Real Academia Sueca das Ciências das contribuições de Robert E. Hall e Michael Woodford, que lhes valeu o Prémio Nobel da Economia nesta edição de 2026, poderá afugentar aqueles que se considerem mais leigos em temas económicos. Porém, a pesquisa académica de ambos – em paralelo – partiu de uma ideia relativamente simples: sabendo-se que as economias atravessam ciclos, com fases mais positivas e outras mais negativas, como é que os governos e os bancos centrais devem atuar para evitar que os “solavancos” sejam demasiado fortes.

“Todas as balizas da política monetária de hoje apoiam-se no modelo teórico de [Michael] Woodford. O modelo, para cuja criação ele contribuiu, está na base da nossa compreensão de como funciona a política monetária”, diz ao Observador Ricardo Reis, académico português especializado precisamente em temas relacionados com política monetária. Ricardo Reis, hoje professor na londrina LSE, passou vários anos nos EUA na Columbia University, a mesma onde Woodford dá aulas e faz investigação. Chegaram, aliás, a dirigir o mesmo departamento naquela universidade.

Por outro lado, Ricardo Reis nunca trabalhou diretamente com “Bob” Hall, mas é um profundo conhecedor do seu trabalho. “É um mestre da macroeconomia com contribuições fundamentais para os seus pilares”, afirma o académico português, salientando que “são dele os nossos modelos base sobre o investimento das empresas, o consumo das famílias ou as escolhas de contratação das empresas”.

Em comum, remata Ricardo Reis, os dois académicos “são o que se chama, por vezes, ‘teoristas aplicados’“. Isto é, “trabalham na teoria mas para justificar as aplicações práticas, neste caso na política orçamental e na política monetária”. “Ambos são arquitetos dos pilares em que se apoia todo o estudo moderno da política orçamental e da política monetária”, resume o economista português.

Os académicos que reinventaram o modelo de J. M. Keynes

Robert E. Hall tem atualmente 83 anos, nasceu em Palo Alto (Califórnia) em 1943, e Michael Woodford tem 70 ou 71 anos (apenas é conhecido que nasceu em 1955 mas não é divulgada publicamente a data em que nasceu, em Chicopee, no estado do Massachusetts). O primeiro, com idade mais avançada, está ainda ligado à Universidade de Stanford, na costa oeste dos EUA; o segundo continua a trabalhar em Columbia, perto de Nova Iorque, costa leste.

Nunca trabalharam em conjunto, mas a pesquisa de um e de outro complementou-se na criação de um modelo que revolucionou, em termos teóricos e práticos, o enquadramento em que operam governos e bancos centrais quando o objetivo é “aplanar” os ciclos económicos, isto é, evitar que os bons momentos sejam demasiado eufóricos (potencialmente originando inflação descontrolada) e evitar que as fases menos positivas dos ciclos sejam demasiado gravosas (designadamente, marcadas por longos períodos de desemprego elevado).

É disso que se fala quando a Real Academia Sueca das Ciências refere “estabilização macroeconómica“, uma alusão à missão que governos e bancos centrais devem ter na gestão dos ciclos económicos, sobretudo tentando impedir que as recessões sejam demasiado penalizadoras – e, por norma, são especialmente penalizadoras para as populações mais desfavorecidas.

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Durante a Grande Depressão nos EUA, que começou com o crash bolsista de 1929 e se prolongou pelos anos 30, John Maynard Keynes, um dos economistas mais influentes do século passado, considerou que deixar os mercados e as economias funcionarem sem (muitas) restrições levaria, sempre, a ciclos demasiado polarizados: períodos de grande euforia alternados com momentos de colapso doloroso.

Há praticamente um século, Keynes achava que os governos (e os bancos centrais) tinham um papel a desempenhar no aplanar destes ciclos. Em momentos de quebra, os governos deveriam baixar os impostos e aumentar os estímulos orçamentais, ao passo que os bancos centrais deveriam baixar as taxas de juro e avançar com outros estímulos monetários que ajudassem na recuperação da economia. Nos momentos bons, era importante agir em sentido contrário, até para acumular as “almofadas” que seriam usadas nas fases menos boas.

Ora, “esta ideia funcionou sempre – até ao dia em que deixou de funcionar“, afirmou o académico Timo Boppart, membro do comité responsável pelo Prémio Nobel da Economia, na conferência de imprensa de apresentação do prémio, nesta segunda-feira. No choque petrolífero dos anos 70, aconteceram duas coisas que, na teoria de Keynes, tendiam a ser mutuamente exclusivas: desemprego alto e, ao mesmo tempo, inflação também elevada.

John Hassler, professor de Economia na Universidade de Estocolmo que é presidente do Comité do Prémio de Ciências Económicas em memória de Alfred Nobel, e que também participou na conferência de imprensa desta segunda-feira, explicou que, nessa altura, “houve quem concluísse que a intervenção estatal tinha alimentado o problema e que era importante deixar os ciclos correrem o seu curso natural – enquanto outros achavam que a teoria ainda era válida mas era necessário reconstruí-la sob alicerces teóricos mais sólidos”.

Ora, notou John Hassler, a pesquisa de Robert E. Hall, que surgiu logo no final dos anos 70, e de Michael Woodford “acabou por ser complementar na construção desses novos alicerces teóricos“. E “são estes os fundamentos microeconómicos sobre os quais assenta a teoria neokeynesiana, que é utilizada por responsáveis políticos um pouco por todo o mundo”, acrescentou o economista sueco.

Robert E. Hall e Michael Woodford "são arquitetos dos pilares em que se apoia todo o estudo moderno da política orçamental e da política monetária".
Ricardo Reis, académico português professor na London School of Economics

Em termos simples, Robert E. Hall focou-se no lado da procura, Michael Woodford concentrou-se na oferta. No caso do primeiro, a teoria de Keynes assumia uma relação direta entre rendimento e consumo, mas Hall percebeu que as duas coisas não têm uma relação direta, porque as expectativas das famílias também contam. Ou seja, as famílias, mesmo que tenham mais rendimento disponível, podem adiar ou inibir consumos se virem “nuvens negras” no horizonte. E o mesmo acontece com o investimento das empresas.

Já Woodford focou-se em temas relacionados com a oferta, em particular interessou-se pelos fenómenos que entram em jogo no momento em que as empresas definem os preços dos bens e serviços que comercializam. O académico norte-americano chamou a atenção para alguma rigidez na forma como as empresas definem os seus preços (essa rigidez existe, também, nos seus custos), o que também ajuda a perceber porque é que o modelo de Keynes não foi suficientemente robusto para orientar a resposta à crise energética dos anos 70.

O contributo conjunto de ambos é particularmente importante porque, embora a economia seja frequentemente apresentada através de números como o crescimento do produto interno bruto, a taxa de desemprego ou a subida dos preços, esses números resultam de milhões de decisões individuais. E, como afirmou o académico Timo Boppart, a teoria de Keynes revelou ser demasiado uma “caixa negra”, em que esses elementos eram considerados de forma demasiado simplista.

André Silva, professor da Nova SBE, salienta que “a combinação das descobertas de Hall e de Woodford implicaram um instrumento com utilização prática por bancos centrais hoje”, já que “os modelos hoje usados por bancos centrais levam em conta as reações das pessoas na economia às suas próprias políticas”.

Pesquisa de Hall e Woodford norteou resposta à crise de 2008

Ao telefone, Michael Woodford interveio na conferência de imprensa do Prémio Nobel considerando que a distinção era “uma grande honra” e “uma surpresa” que o deixava “muito feliz”. O académico explicou que a sua pesquisa “não foi motivada por uma agenda política, à partida, foi uma tentativa de contribuir para melhorar o debate sobre a política económica e para a compreensão pública das políticas”.

Na base do pensamento deste académico, bem como de Robert E. Hall, está a ideia de que “as autoridades não devem olhar para a política económica como um exercício levado a cabo por um conjunto limitado de pessoas que puxam manivelas para gerir a economia, independentemente daquilo que as pessoas que fazem parte dessa mesma economia pensam sobre ela”.

Ao invés, “a compreensão que é feita pelas pessoas (famílias e empresas) que compõem a economia, e as suas expectativas sobre que políticas serão seguidas no futuro, são cruciais para a forma como elas tomam decisões que afetam o consumo e o investimento – e isso é uma variável essencial para os resultados e os efeitos que as políticas têm”.

"Pesquisa não foi motivada por uma agenda política, à partida, foi uma tentativa de contribuir para melhorar o debate sobre a política económica e para a compreensão pública das políticas."
Michael Woodford, laureado com Prémio Nobel da Economia

O que é que isto significa na prática? Michael Woodford deu um exemplo de como o enquadramento que ajudou a construir foi essencial na forma como as autoridades norte-americanas – e não só – geriram o impacto da grande crise financeira de 2008.

“Criou-se uma situação em que as ferramentas habituais, de política monetária, não eram as mais adequadas para gerir o problema, para restabelecer a atividade económica”, explicou o académico, acrescentando que “a receita convencional aí seria cortar as taxas de juro, sobretudo as taxas de juro de curto prazo, para estimular a procura”.

Porém, no pós-colapso Lehman Brothers, “as taxas de juro foram para níveis muito baixos mas a atividade continuava em níveis limitados”, pelo que as autoridades fizeram algo que terá sido inspirado nos modelos de Hall e Woodford: introduziram o que hoje se chama de “orientação futura” acerca da política futura, ou seja, além de subir e descer as taxas de juro, avançar com mais ou menos programas de estímulo, os governos e bancos centrais passaram a assumir compromissos sobre aquilo que planeavam fazer no futuro – o que “foi uma parte importante da resposta política a partir de 2009 e penso que contribuiu para uma maior estabilização económica“.

Por outro lado, acrescentou o académico laureado com o Prémio Nobel, os programas de intervenção através de “compras de ativos por parte dos bancos centrais”, que foram decisivos para a retoma económica não só nos EUA mas, também, na Europa, “tiveram, igualmente, um contributo da [nossa] pesquisa porque ajudou a simular como é que essas intervenções iriam influenciar as economias”.