A relação geopolítica e militar entre Washington e Kiev atravessa um dos momentos de maior tensão desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022. O que começou por ser uma tentativa da administração norte-americana para travar a inflação e proteger o eleitorado conservador nas vésperas das eleições intercalares do Congresso (marcadas para 3 de novembro) transformou-se numa crise transatlântica sem precedentes: a suspensão de sanções a Moscovo para a importação de gasóleo russo, a rutura pública de Donald Trump com Volodymyr Zelensky — acompanhada de exigências, ameaças e pressão nos bastidores — e o colapso do “cessar-fogo energético” anunciado por Washington e desmentido pelos ataques russos no terreno.
A rutura não é difícil de explicar. Desde fevereiro deste ano, a guerra entre os Estados Unidos e o Irão provocou o encerramento praticamente total do Estreito de Ormuz, a rota marítima por onde transitava cerca de um quinto do petróleo mundial. Este estrangulamento da oferta fez disparar o preço dos combustíveis a nível global e colocou uma enorme pressão política sobre o Presidente norte-americano.
Apertada pela subida do preço do combustível nas bombas de gasolina e pela insatisfação crescente em estados agrícolas decisivos como o Kansas e o Iowa, a Casa Branca decidiu tomar uma medida radical: suspender temporariamente as sanções à energia russa para importar quase cinco milhões de toneladas de combustível de Moscovo.
A decisão gerou a indignação imediata do Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que acusou Washington de financiar diretamente a máquina de guerra de Vladimir Putin. A resposta de Trump foi direta: disse que Kiev cria problemas ao mundo, exigiu publicamente a substituição do líder ucraniano e anunciou unilateralmente um “cessar-fogo energético” que ruiu no terreno em poucas horas.
O pacto Rússia-EUA: o “negócio do gasóleo” e o drama das intercalares
O epicentro da discórdia está na decisão tomada esta sexta-feira pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, ao emitir uma licença temporária válida até 7 de abril de 2027. A medida autoriza transações comerciais de compra, transporte e importação de gasóleo de origem russa para o mercado norte-americano e internacional. O plano anunciado pela Casa Branca prevê o envio inicial de 300 mil toneladas de gasóleo russo, seguido do fornecimento de mais 500 mil toneladas em novembro, um milhão de toneladas na fase seguinte e cerca de três milhões de toneladas adicionais no curto prazo, perfazendo um total superior a 4,8 milhões de toneladas.
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A motivação de Donald Trump é estritamente doméstica. De acordo com a AAA (American Automobile Association), citada pela imprensa internacional, o preço médio do galão de gasóleo nos Estados Unidos fixou-se nos 6,28 dólares — após ter atingido um pico de 6,53 dólares no final de setembro —, em comparação com os 3,68 dólares registados no ano anterior. Sondagens recentes publicadas na Time revelam que 74% dos adultos norte-americanos estão preocupados com os preços da energia e 84% dos eleitores consideram a economia o fator mais determinante para o seu voto nas intercalares. Para tentar conter os danos eleitorais que se avizinham já em novembro, Trump pressionou o G7 a libertar 100 milhões de barris de reservas estratégicas e assinou uma ordem executiva a autorizar o uso de gasóleo agrícola isento de impostos em transportes rodoviários.
https://observador.pt/2026/10/02/trump-usa-dependencia-da-europa-do-diesel-americano-para-impor-libertacao-de-reservas-e-baixar-preco/
Contudo, Olena Lennon, investigadora em Segurança Nacional na Universidade de New Haven, duvida da eficácia deste alívio de sanções. Com os Estados Unidos a consumirem diariamente cerca de 394 mil toneladas de combustível só no setor dos transportes, as 300 mil toneladas iniciais prometidas por Moscovo equivalem a menos de um dia de consumo norte-americano. Além disso, a capacidade produtiva da Rússia sofreu uma queda estimada em 30% devido aos constantes ataques de drones ucranianos contra as suas refinarias. A injeção russa é, explica a investigadora à Time, apenas um “penso rápido” que não resolve o bloqueio no Estreito de Ormuz e que Washington usa para enfraquecer a posição negocial de Kiev sem obter qualquer contrapartida de Moscovo.
Michael Noel, professor de economia da Texas Tech University, concorda que as medidas anunciadas por Donald Trump são apenas soluções temporárias, que não compensam os danos provocados pela falta de resolução do conflito no Médio Oriente. “Estas medidas paliativas têm um efeito muito limitado no mercado global e, embora possam ser boas para o marketing político, o seu impacto é reduzido ou até negativo”, afirmou também à Time.
Noel explicou ainda que, mesmo que estas medidas proporcionem algum alívio económico, esse efeito será contrariado pela continuação dos conflitos no Irão e na Ucrânia, que pressionam os preços dos combustíveis e afetam a economia dos Estados Unidos. “Os contribuintes norte-americanos estão simplesmente a pagar estas guerras de outra forma”, acrescentou.

A suspensão das sanções ao combustível russo provocou uma grande agitação em Kiev, em Bruxelas e no próprio Capitólio. Zelensky considerou o negócio “injusto, fraco e desonesto“, classificando-o como um “presente de aniversário” a Vladimir Putin que gerará milhões de dólares em receitas para financiar os bombardeamentos contra as cidades ucranianas.
Em Washington, a medida desencadeou uma contestação no Senado. A BBC noticiou que um grupo de sete senadores, liderado pelo republicano Thom Tillis, enviou uma petição formal à Casa Branca a exigir a revogação imediata do acordo. Os congressistas sublinharam que a importação de combustível russo viola diretamente a lei federal aprovada por unanimidade em 2022, a qual proíbe qualquer importação energética da Rússia enquanto o Presidente norte-americano não certificar a retirada das tropas de ocupação e o fim das hostilidades.
“O Congresso foi claro: os EUA não devem importar petróleo da Rússia até que cesse a sua agressão contra a Ucrânia e pare de ameaçar os nossos aliados da NATO”, escreveram os senadores, instando a administração Trump a “mudar de rumo”. Tillis ainda alertou a NBC News que dar a Putin a sensação de que Washington está a recuar traz “consequências mortais” e coloca a credibilidade norte-americana em risco.
Na Europa, a reação foi igualmente dura. A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, garantiu que a Europa não aliviará a pressão sobre Moscovo e confirmou a preparação do maior pacote de sanções europeias desde o início da invasão — aprovado esta segunda-feira. Os governos de França e do Reino Unido manifestaram solidariedade total a Kiev, reafirmando que “a soberania e a segurança europeia não podem ser sacrificadas em nome de interesses eleitorais”.
O cessar-fogo energético: uma trégua nas redes sociais que ruiu no terreno
Para procurar impor uma narrativa de apaziguamento, Donald Trump recorreu à Truth Social, no domingo, para proclamar a entrada imediata em vigor de um “cessar-fogo energético” entre a Rússia e a Ucrânia. A publicação apanhou de surpresa o Governo ucraniano, com Zelensky a afirmar que o anúncio era “uma novidade” para si. Ainda assim, o líder ucraniano respondeu que Kiev aceitaria interromper os ataques às refinarias russas se Moscovo garantisse o fim dos bombardeamentos à rede elétrica ucraniana.
“A verdadeira causa da guerra na Europa é a Rússia e só a Rússia. É possível parar os ataques a infraestruturas de energia hoje mesmo, mas Putin não o quer fazer. A Ucrânia está disponível para parar os ataques às refinarias russas se a Rússia parar os ataques às nossas infraestruturas de energia”, sublinhou o líder ucraniano, assegurando: “Qualquer passo tem de ser recíproco e com garantias reais”.
A trégua anunciada por Washington revelou-se, porém, totalmente fictícia no terreno. Poucas horas após a publicação de Trump, as Forças Armadas russas lançaram ataques massivos com drones Shahed e bombas guiadas a infraestruturas de energia em Kiev e Kharkiv, deixando cenários de destruição, mortes, dezenas de feridos e cortes de eletricidade.
Presente no Fórum de Segurança de Varsóvia, na Polónia, Zelensky desarmou, esta segunda-feira, a mensagem da Casa Branca, lembrando que ficou provado que Vladimir Putin não lê a Truth Social e que os ataques realizados nas últimas horas foram a resposta de Moscovo ao anúncio de Trump.
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“Estamos dispostos a respeitar um cessar-fogo energético se a Rússia estiver disposta a fazer o mesmo. Concordamos, se eles concordarem. Ontem à noite, as refinarias de petróleo russas não estavam a arder, mas, à meia-noite, um Shahed russo lançou um ataque contra uma central de produção na Ucrânia”, sublinhou Zelensky, citado pelo The Guardian.
Rutura diplomática Zelensky-Trump e a chantagem sobre o envio de armas e o acesso aos dados de informações militares
A recusa de Kiev em aceitar o “negócio do gasóleo” e a continuação dos ataques ucranianos a infraestruturas petrolíferas russas provocaram o descontentamento de Donald Trump. Em declarações aos jornalistas à porta da Casa Branca, no sábado, o Presidente dos Estados Unidos acusou Zelensky de querer criar problemas ao mundo e de recusar acordos de paz. Foi mais longe e sugeriu abertamente a destituição do líder ucraniano, afirmando que é tempo de a Ucrânia encontrar outro Presidente que consiga negociar.
“Sugiro que a Ucrânia encontre um novo líder que consiga fazer um acordo”, atirou. Depois, criticou Kiev precisamente pelo efeito que os ataques do país contra as refinarias russas estarão a ter no preço dos combustíveis: “Nós dissemos: podem fazer o que quiserem com a Rússia, mas não atinjam as refinarias, porque isso é um problema mundial. E Zelensky quer arranjar problemas ao mundo. E o que ele fez foi atacar o gasóleo. É melhor parar de uma vez“.
A escalada verbal foi acompanhada de pressões nos bastidores. Segundo revelou um alto responsável norte-americano ao Axios, Trump decidiu avançar para o acordo de importação de combustível com Putin depois de Kiev ter ignorado “meia dúzia de pedidos explícitos” da Casa Branca para cessar os ataques ao setor petrolífero russo. A mesma fonte relatou o ambiente na Casa Branca, afirmando que Zelensky estava a “ler mal a sala” e a corroer a boa vontade que tinha construído com Trump nos últimos meses.
A tensão explodiu na sexta-feira, durante uma maratona negocial de oito horas realizada em Miami entre a equipa diplomática ucraniana e os enviados especiais de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner. De acordo com fontes oficiais ucranianas, citadas pelo Axios, Witkoff e Kushner comunicaram que a Casa Branca iria levantar as sanções ao gasóleo russo devido ao desrespeito de Kiev pelos avisos norte-americanos e lançaram um aviso: se a Ucrânia continuasse a atingir as refinarias russas, os EUA poderiam cortar o acesso de Kiev às informações militares norte-americanas.
Embora a administração norte-americana tenha negado a existência de uma ameaça direta de corte, confirmou ter alertado os ucranianos de que, sendo os EUA o principal fornecedor de munições e informações dos seus serviços secretos, Kiev não devia tomar ações que prejudicassem diretamente os consumidores norte-americanos. A par deste aviso sobre as informações, o Financial Times noticiou também a ameaça paralela de congelamento do envio de equipamento militar e armas.
O grande problema desta rutura é que a notícia sobre a importação russa caiu no preciso momento em que diplomatas norte-americanos, ucranianos e europeus alcançavam progressos em Miami. Nas mesmas reuniões, Witkoff e Kushner apresentaram uma proposta para o pós-guerra que incluía garantias de segurança multilaterais da NATO e dos EUA, financiamento para a reconstrução económica e militar de Kiev, um roteiro para a adesão da Ucrânia à União Europeia e um novo enquadramento de segurança entre a Europa e a Rússia. Contudo, a visão de Trump sobre a guerra revelou-se irreconciliável com a de Kiev: enquanto Zelensky defendia que a paralisação das refinarias russas era a única moeda de troca para travar os ataques de Moscovo contra a rede elétrica civil, Trump recusou encarar os ataques às refinarias como equivalentes aos bombardeamentos russos à infraestrutura ucraniana.
Ora, as palavras de Trump publicadas nas redes sociais foram celebradas no Kremlin, com o enviado para a cooperação económica com os EUA, Kirill Dmitriev, a classificar a posição do Presidente norte-americano como “icónica e histórica” e a subscrever a necessidade de uma nova liderança em Kiev. Já do lado ucraniano, o Ministério dos Negócios Estrangeiros lembrou que Zelensky tem a legitimidade dada pelo povo e que os ataques verbais vindos do estrangeiro apenas provam que o Presidente está a cumprir o seu dever na defesa do país.
Emmanuel Macron colocou-se ao lado de Zelensky. França “apoia integralmente o apelo a uma trégua energética genuína, à qual a Ucrânia está disposta”, afirmou o Presidente francês na rede social X. Depois, acrescentou: “Neste momento, a Rússia continua a rejeitá-lo, intensificando os seus ataques contra as infraestruturas ucranianas nas últimas horas”. Na Comissão Europeia, Ursula von der Leyen reafirmou o apoio à Ucrânia e acrescentou que esta semana a União Europeia vai dar novo financiamento para drones e mísseis à Ucrânia.
O nó constitucional e a jogada eleitoral de Zelensky
A exigência de Trump para a realização imediata de eleições na Ucrânia esbarra na lei fundamental e na realidade de um país em guerra. A Ucrânia encontra-se sob lei marcial desde o primeiro dia da invasão russa e a Constituição proíbe a realização de atos eleitorais durante o estado de exceção. Embora o mandato formal de Zelensky tenha acabado em maio de 2024, o texto constitucional determina que o Presidente em exercício permanece em funções até à tomada de posse do sucessor democraticamente eleito.
Para além da proibição legal, nota a Associated Press, a organização de eleições num país com 20% do território ocupado por tropas russas, milhões de refugiados no estrangeiro e milhares de soldados na linha da frente é considerada inviável. A realização de uma votação sem garantias de segurança transformaria as assembleias de voto em alvos prioritários para os mísseis de Moscovo.
Perante a pressão pública exercida por Washington, Zelensky respondeu com uma cartada diplomática: o Presidente ucraniano declarou, em entrevista à ABC News, que está totalmente disponível para organizar e realizar eleições presidenciais no prazo de dois meses, desde que os Estados Unidos e os seus aliados garantam um cessar-fogo total de 60 dias por parte da Rússia.
“Sei que Putin queria muito mudar o Presidente da Ucrânia. Compreendo isso. E se o Presidente Trump quiser realmente que haja algumas mudanças durante as eleições, também partilhei isso com a sua equipa: por favor, digam a Putin para nos dar dois meses, 60 dias de cessar-fogo total, 60 dias, e nós organizaremos as eleições. Claro que estaremos preparados para qualquer escolha do nosso povo”, disse.
Zelensky sublinhou, ainda, que cabe exclusivamente à sociedade ucraniana escolher os seus líderes e desafiou a Casa Branca a arrancar de Vladimir Putin uma trégua real que permita aos cidadãos votar em segurança.