Se dúvidas houvesse, Pedro Passos Coelho não deixou praticamente nada por dizer. A conta é relativamente simples, ainda que nem todas as variáveis tenham sido exploradas. Se Luís Montenegro falhar, o antigo primeiro-ministro vai procurar as condições necessárias para tentar voltar ao poder. E ainda que vá rejeitando que o conjunto de intervenções que vem fazendo ao longo dos últimos meses e o estudo que está a desenhar com Sérgio Sousa Pinto sejam um qualquer ensaio de Programa de Governo, Passos Coelho fez questão de deixar claro que sabe o que vai fazer se ou quando chegar ao cargo. E com quem.
Na primeira entrevista televisiva que concedeu desde que deixou o cargo de presidente do PSD, conduzida pela jornalista Maria João Avillez, na SIC Notícias, Pedro Passos Coelho estabeleceu as condições que precisa de ver reunidas para voltar a tentar lutar pelo poder. “Se eu tivesse de equacionar um regresso à política ativa, tinha de corresponder à ideia de que tinha a obrigação e a possibilidade de fazer alguma coisa de diferente. Se isso se vier a colocar, se o PSD não vier a ser bem-sucedido, se não vier a entregar um resultado satisfatório, ponderarei e tomarei uma iniciativa.”
Mais à frente, o antigo primeiro-ministro voltaria à mesma ideia, garantindo que faz o que faz e diz o que diz por “dever”, “responsabilidade” e “preocupação” com o país. “Não é muito confortável a ideia de regressar. Estou de bem com a minha consciência. Não ando à procura de nenhum protagonismo especial. Se um dia voltar a equacionar voltar, será para oferecer alguma coisa que não seja mais do mesmo. E não há nostalgia nenhuma. Não há nenhum ressentimento. Estou muito bem resolvido com a política e com os portugueses.”
Numa entrevista longa, de quase uma hora, Pedro Passos Coelho foi repetindo várias das observações que tem vindo a fazer sobre o estado do país e sobre a falta de reformas estruturais para resolver os bloqueios em áreas tão nucleares como a Saúde, a Educação, a Habitação ou a Economia. “É preciso fazer alguma coisa para inverter isso. Não vi nada a mudar nos nove anos do PS e não vejo nada agora“, lamentou. E à pergunta sobre se saberia o que fazer se chegasse ao poder, Passos não hesitou: “Fui primeiro-ministro, valha-me Deus… Julgo que sim“.
De resto, Pedro Passos Coelho aproveitou esta entrevista para comparar diretamente António Costa e Luís Montenegro, sugerindo que ambos são uma e a mesma coisa: meros gestores do dia a dia. “Os partidos só são úteis nas sociedades se tiverem alguma coisa para oferecer. As ideias que os partidos devem exercer o poder com uma tática de sobrevivência de curto prazo em regra estão condenadas. Acho que há muitas pessoas no meu partido que acham que é assim que se deve fazer. António Costa esteve a gerir o dia a dia, a empurrar os problemas com a barriga. E ganhou a maioria absoluta. É muito difícil convencer as pessoas no PSD a não seguirem esse caminho. As pessoas no Governo acham que é assim que chegam lá.”
A renúncia ao “não é não” ao Chega: “É uma armadilha política imensa”
Nesta mesma entrevista, Pedro Passos Coelho criticou várias vezes a estratégia (ou “tática”) seguida por Luís Montenegro. Não é uma novidade: quem conhece bem o pensamento de Passos sabe que o antigo primeiro‐ministro sempre considerou um erro de palmatória que se traçassem cordões sanitários em torno do Chega e nunca conseguiu compreender como é que Luís Montenegro tinha caído no que considera ser uma armadilha. Passos entende que o “não é não” a Ventura, além de pueril, era uma cedência à agenda da esquerda, uma concessão que limita as hipóteses do PSD de regressar ao poder e uma decisão que pode acabar por alienar, inevitavelmente, eleitores essenciais para o partido.
Luís Montenegro, por outro lado, teve sempre outra visão. A estratégia foi afastar uma aliança com o Chega, sem nunca hostilizar o eleitorado de André Ventura. Em grande medida, produziu resultados: Montenegro chegou ao poder (por margem curta) e conseguiu repetir a vitória por outros números. Neste seu segundo ciclo de poder, tem, assumidamente, planado à direita (reformas na imigração e agora no arrendamento) e à esquerda (Orçamentos do Estado), sem permitir que nenhum dos adversários se assuma como líder incontestado da oposição e sem ficar refém de um único parceiro potencial.
Acontece que, para Pedro Passos Coelho, a manutenção do poder tem-se feito à custa da mesma receita de António Costa (distribuir o excedente para agradar às corporações e ao eleitor-contribuinte), está a atrasar o país e arrisca-se a falhar o objetivo assumido: esvaziar o Chega e alcançar a tão ambicionada maioria absoluta. Perante isto, o antigo primeiro-ministro entende que a única fórmula verdadeiramente vencedora é procurar à direita a base de apoio parlamentar e popular que seja capaz de transformar verdadeiramente o país.
“Quando o PSD ganhou as eleições em 2024, julgo que ficou claro que o país esperava uma mudança significativa. Ela tardou em perceber-se. O PSD tem alguma ambição transformadora, mas tem sido lenta a passar do Programa de Governo para a realidade do país. O PSD tinha obrigação de explorar essa possibilidade [acordo com o Chega]. Talvez não fosse fácil. Mas era importante tentá-lo. Os governos de coligação não são fáceis. Julgo que o PSD deveria ter tentado. É uma armadilha política imensa”, apontou Pedro Passos Coelho, na SIC Notícias.
O elogio a Ventura e a desconsideração por Montenegro
Daqui resulta claro que, se um dia Pedro Passos Coelho chegasse ao poder sem maioria absoluta, procuraria ativamente uma coligação com o Chega. Acontece que, já no passado, e no que respeita em concreto à posição assumida por André Ventura na discussão da reforma laboral, o Chega já provou que tem propostas e uma agenda que dificilmente poderiam corresponder às reformas imaginadas pelo antigo primeiro-ministro para o país.
Passos, que já classificou como “absurdas” algumas das ideias de Ventura, propõe-se a resolver a quadratura do círculo assim: trazer o Chega (e a IL) para a governação na expectativa de que se moderem. Aliás, desafiado a comentar diretamente o líder do Chega, Pedro Passos Coelho, fazendo questão de sublinhar que não eram exatamente próximos, fez-lhe um forte elogio: “André Ventura é uma pessoa com bastante mérito. E que é um político com um poder de iniciativa notável.”
Luís Montenegro apareceu nesta entrevista quase como personagem secundário — o único ministro elogiado foi António Leitão Amaro, pelo trabalho que está a fazer na imigração. Pedro Passos Coelho recuperou Montenegro como tendo sido um bom líder parlamentar no tempo da troika, mas fê-lo praticamente por interposta pessoa, recordando os rasgados elogios que Assunção Esteves, então presidente da Assembleia da República, fazia ao agora primeiro-ministro. Nas entrelinhas: é Passos a dizer que Montenegro foi quase irrelevante naquele período.
É mais um capítulo da história particular dos dois, que o Observador recuperava ainda em março. Montenegro era um cristão novo do passismo quando chegou a líder parlamentar. Passos quis fazer dele seu sucessor. Mais tarde, abençoou-o como herdeiro. Mas os dois foram-se afastando até à rutura final. Uma rutura que se fez de divergências políticas, mas também de um lado muito pessoal. Quem conhece intimamente os dois sugere que houve, desde o início, uma confusão de papéis e de planos.
Luís Montenegro olha para Pedro Passos Coelho como um igual; Passos não. Em paralelo, o antigo primeiro‐ministro nunca compreendeu o porquê de os novos senhores do PSD o receberem sempre tão bem quando o viam, de lhe darem tantos abraços e palmadinhas nas costas, quando, sabia ele, faziam comentários tão ou mais negativos sobre ele do que a direção anterior, liderada por Rui Rio. Disponibilizara‐se para ajudar, tinha estado no Pontal, elogiara publicamente Luís Montenegro e, depois de tudo, as costas viraram‐se.
As coisas ficaram ainda pior entre os dois quando Pedro Passos Coelho começou a acreditar que Luís Montenegro estava a ceder às pressões do “Doutor Rebelo de Sousa”, era altamente influenciado por Luís Marques Mendes (com quem Passos rompera há anos), e que elevara Manuela Ferreira Leite (que sempre atacou o antigo primeiro-ministro) e, sobretudo, Aníbal Cavaco Silva a santos padroeiros do novo PSD.
Os homens de Montenegro encontram outra explicação. O líder do PSD não suporta a ideia de estar na mão ou na dependência de alguém. De ser condicionado. E, como não gosta, não cultiva um certo tratamento reverencial que talvez Pedro Passos Coelho esperasse. “Ressentimento” é a palavra mais usada para classificar a forma como Passos reagiu à vontade de Montenegro em ter vida própria. Em cima de tudo isto, o ruído à volta dos dois, alimentado por apoiantes de um e de outro, também contribuiu para o afastamento crescente. As intrigas, as conspirações, as posições de um e de outro, as histórias alimentadas por gente dos corredores e na comunicação social, foram cavando um fosso cada vez maior.
A pressão sobre Seguro e a dúvida por responder
Em fevereiro, Pedro Passos Coelho já tinha posto o relógio de Luís Montenegro. Daí para cá, o presidente do PSD chegou a desafiar abertamente o seu antecessor a medir forças em eleições internas — hipótese que Passos descartou imediatamente, aconselhando o atual primeiro-ministro a “trabalhar”. Mas, e mesmo tendo dito várias vezes nesta entrevista a Maria João Avillez que não é candidato a nada, o tempo em que Pedro Passos Coelho opera é mesmo presente do indicativo.
À boleia de uma pergunta sobre António José Seguro, e mesmo tendo sugerido que não basta ao inquilino de Belém contemplar o Tejo (única observação crítica sobre o socialista), Passos explicou o porquê de nunca ter ambicionado o cargo: “Os Presidentes da República têm um papel institucional próprio. Nunca pensei ser Presidente da República. É um lugar que não me diz nada. Eu sou um executivo”. Ou seja, Passos não diz que foi um executivo; Passos diz que é um executivo.
O que não fica exatamente claro é o caminho que Pedro Passos Coelho quer percorrer para regressar ao poder se e quando essa oportunidade surgir. Quem conhece bem o antigo primeiro-ministro sempre garantiu duas coisas: Passos nunca enfrentará Luís Montenegro numas eleições internas do PSD; e Passos só será primeiro-ministro depois de ir a votos e vencer eleições legislativas. Por tudo o que disse sobre António Costa e sobre a ‘geringonça’, por tudo o que isso representou para o percurso político de Pedro Passos Coelho, seria difícil (para não dizer impossível) regressar ao poder sem vencer nas urnas.
Ora, se Passos só equaciona voltar se o PSD não vier a ser bem-sucedido, isso significa que Montenegro tem de perder as próximas eleições legislativas para que Pedro Passos Coelho possa voltar. Nesse sentido, há dois cenários que se colocam: o PS ganha, mas há uma maioria à direita no Parlamento à espera de ser liderada; o Chega ganha, mas precisa do PSD para governar. Nenhum deles parece satisfazer os critérios de Pedro Passos Coelho, que sempre exigiu para os outros a legitimidade de ficar em primeiro para poder governar. É o nó que continua por desatar. Passos saiu oficialmente da sombra, mas continua muita coisa por dizer.