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(A) :: O mundo dos boomers

O mundo dos boomers

O problema é que os boomers acreditaram que seria apenas uma questão de boa vontade para tudo continuar a ser como foi no seu tempo – e acabaram, como não podia deixar de ser, a criar gerações tristes

Patrícia Fernandes
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1 Bem querer

A ideia de que os boomers teriam congeminado soluções políticas para seu benefício prejudicando propositadamente os mais novos corresponde a um tipo de raciocínio infantil, muito popular nos últimos tempos. É verdade que se trata de uma narrativa atrativa: replica o modelo simplista em que o mundo se divide entre bons e maus e a justiça é reposta quando os maus são denunciados e os bons vencem. O problema é que a realidade é sempre mais complexa. E, mais do que isso, parecemos sujeitos a uma regra antiga que nos leva a mal fazer por bem querer.

Recuemos ao mundo em que os boomers nasceram: no caso norte-americano, eles foram resultado de uma explosão de nascimentos (“baby boom”) que se seguiu à segunda guerra mundial, num contexto de grande otimismo social (afinal, os bons tinham vencido a luta contra as trevas) e crescimento económico; na Europa, e depois dos terríveis anos imediatamente a seguir à guerra, temos os “trinta gloriosos”, anos em que foi possível dar forma a um mundo muito específico.

O mundo do pós-guerra é o da Organização das Nações Unidas, que foi capaz de juntar países com interesses tão diversos e superar o fracasso da Sociedade das Nações num compromisso coletivo de paz mundial; é o da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, apesar das enormes diferenças culturais dos seus subscritores; é o dos primeiros esforços da união na Europa, primeiro com o Conselho da Europa (de que haveria de resultar a Convenção Europeia dos Direitos Humanos) e depois com a criação da CECA (que haveria de se tornar a CEE e depois a UE); é o da criação ou ampliação do estado social, com o alargamento dos direitos que devem ser assegurados pelo estado e dos serviços e apoios sociais que o estado deve prestar; é o da criação de uma série de infraestruturas (escolares, médicas, de mobilidade) para que o estado providenciasse um mundo moderno; é o do estabelecimento de uma visão cosmopolita e globalista, não só em termos económicos, mas também sociais e políticos, com o enfraquecimento das ideias de soberania e fronteiras (entendidas como a razão da guerra).

Os boomers são filhos deste tempo e destas convicções, deste novo mundo que se construiu no pós-guerra e que foi por eles reforçado nas décadas seguintes. Este era o mundo bom, o mundo justo, o mundo moderno – e era este o mundo que queriam deixar aos seus filhos.

2 Mal fazer

As instituições que temos atualmente – as organizações e os tratados internacionais, o estado social, os serviços nacionais de saúde, a educação universal, as sociedades abertas e multiculturais – não foram, nessa medida, criadas pelos mais velhos para prejudicar os mais novos. Foram criadas, mantidas e ampliadas por serem consideradas instituições boas – o melhor dos mundos possíveis –, como um legado para os mais novos, de acordo com o espírito muito progressista de que este era o caminho certo para o fim da história.

Mas este há de ser sempre o problema do pensamento progressista: esquecer que as circunstâncias mudam e que as gerações também mudam em função daquilo que lhes legamos. E foi isso que aconteceu nas últimas décadas.

É que o mundo dos boomers só funciona sob três condições: crescimento económico, taxas de fertilidade altas e esforço individual de trabalho – e cada uma destas condições está em crise. Deixo para os amigos economistas o aborrecimento de tratar as questões económicas, que passam pela falta de competitividade dos países europeus, níveis insustentáveis de dívida pública e um peso excessivo das pensões sobre os mais novos. Pela minha parte, prefiro analisar o aspeto cultural: é que os boomers não se limitaram a estabelecer instituições políticas e económicas – eles também foram aqueles que, nas décadas de 1960 e 70, se revoltaram contra os seus próprios pais e quiseram desmantelar todas as regras e tradições dos mais velhos, visando, em particular, tudo aquilo que pudesse ser associado a autoridade.

Quando, por sua vez, tiveram os seus filhos, acharam que deviam educá-los de uma forma diferente daquela em que foram educados: mais igualitária, com mais liberdade e menos responsabilidade, incentivando-os a que fizessem o que gostavam e não o que deviam. Também desvalorizaram o papel das instituições religiosas no processo educativo e formativo e quebraram o sentido de lealdade nacional. Acreditavam que estavam a fazer bem – mas destituíram as gerações seguintes das condições favoráveis de que beneficiaram: o reconhecimento de hierarquias sociais e familiares, o respeito pelos mais velhos, a autoridade do professor; comunidades coesas e culturalmente uniformes; uma visão menos individualista e hedonista da vida; noções de disciplina, trabalho, esforço e sacrifício.

3 O mundo dos boomers

É por isso que, em certo sentido, os mais novos têm razão em sentirem-se defraudados com os boomers. O problema é que não é pelas razões que apontam.  A fraude encontra-se no facto de os mais velhos terem garantido, como nunca se fez antes, que os tempos futuros seriam grandiosos e que o crescimento económico se manteria e que haveria pensões e apoios estatais para sempre (pelo contrário, o estado social é uma experiência única na história da humanidade e está condenada ao fracasso). Nunca os mais velhos puderam garantir que o futuro seria bom ou melhor e por isso prepararam sempre os mais novos para quando as coisas corressem mal.

O problema é que os boomers acreditaram que seria apenas uma questão de boa vontade para tudo continuar a ser como foi no seu tempo – e acabaram, como não podia deixar de ser, a criar gerações tristes e ansiosas com o futuro. O mundo que lhes foi prometido está a desaparecer debaixo dos seus pés e eles não foram preparados para lidar com isso. E quando agora lhes dizemos que não vão ter tudo aquilo que lhes foi prometido, revoltam-se.

PS: Entre nós, as divisões geracionais não coincidem totalmente com as do mundo anglo-americano, mas penso que é possível identificar, sem grandes dificuldades, os mesmos padrões.