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(A) :: Os aristocratas da opinião

Os aristocratas da opinião

Ao contrário das birras dos nossos futebolistas, convertidas em reality show, Carlson e Rees-Mogg tinham tudo a ganhar com o confronto. E ganharam os dois.

João A. B. Da Silva
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Enquanto Portugal acordava e adormecia ao ritmo da novela Ronaldo, Tucker Carlson debateu Jacob Rees-Mogg na sua propriedade em Somerset. O tema acordado era como evitar uma guerra entre a Grã-Bretanha e a Rússia, e a conversa não tardou a descarrilar. Carlson é não-intervencionista na tradição de Patrick Buchanan e, nas conclusões, coincide com o realismo de John Mearsheimer. Rees-Mogg é atlantista churchilliano, a ortodoxia ocidental desde a Segunda Guerra Mundial. O que, trocando por miúdos, significa que um mede custos, enquanto o outro defende princípios. O debate não procurou aproximar posições, nem limar arestas, mas tornar evidente, perante as respectivas capelinhas, a distância entre duas formas de pensar. Chocaram sobre 1939, com Carlson a dizer que nunca percebeu por que razão se combateu a Segunda Guerra Mundial e o anfitrião a responder que o surpreendia vê-lo a defender Hitler. A partir daí, chocaram sobre tudo o mais, desde a definição de guerra justa até à definição de PIB. As redes sociais e a imprensa anglo-saxónica tomaram partido e discutiram o episódio à exaustão, mas não a fundo.

Nenhum dos dois, Carlson ou Rees-Mogg, entrou naquela conversa para correr riscos. Carlson escolheu a casa e o interlocutor. Rees-Mogg sabia ao que ia. Não estavam ali para chegar a um acordo, mas para vincar diferenças. Ao contrário das birras, convertidas em reality show, dos nossos futebolistas e treinadores, ambos tinham muito a ganhar com o confronto: reforçar a lealdade de quem já os seguia.

O soundbite que correu o mundo foi “why fight the Second World War in the first place?”, e ter sido desferido contra o homem que Carlson anunciara como o maior belicista da Inglaterra não foi um acidente. O argumento que Carlson enfatizou é uma das ideias centrais do pensamento de Buchanan, que a desenvolve em Churchill, Hitler and the Unnecessary War. Buchanan sustenta que Londres não devia ter declarado guerra em 1939 e que Churchill conduziu o país a um conflito que lhe custou o império. Levar esta tese à sala de estar de um conservador inglês, diante das câmaras, equivale a encostá-lo à parede. Nenhum britânico de direita deixaria passar sem resposta a ideia de que a Segunda Guerra Mundial não valeu a pena. Ao responder, cai no papel que lhe estava destinado: guardião da ortodoxia. Era isso que Carlson queria filmar. A reacção da esquerda pouco lhe importava. O que procurava era a fractura no campo conservador. E essa não tardou. Do historiador classicista Victor Davis Hanson, ao jornalista Daniel Hannan, passando pelo podcaster Konstantin Kisin.

Nada disto é novo. Há mais de um ano que Carlson, sustentado pela tese de Mearsheimer, questiona o apoio americano a Israel. E, como jornalista experiente, sabe que o argumento rende menos do que a reacção. A entrevista a Nick Fuentes, em Outubro passado, somou milhões de visualizações e obrigou a Heritage Foundation, Ben Shapiro e Mitch McConnell a tomar posição pública, expondo as fracturas que Carlson queria abrir no campo conservador: separar o trigo do joio. Em Março, Joe Kent, director do centro nacional de contraterrorismo, demitiu-se por causa da guerra com o Irão, escreveu na carta que a mulher morrera numa guerra fabricada por Israel, e no dia seguinte, estava no programa de Carlson a explicá-lo. O espaço do não intervencionismo americano estava vazio: Carlson ocupou-o.

Rees-Mogg esteve notoriamente melhor do que o papel que lhe estava destinado. Antigo ministro e uma das figuras mais reconhecíveis da direita britânica, fez carreira no Partido Conservador e é um dos defensores acérrimos do Brexit. Tem o seu próprio canal de YouTube, é presença assídua, entre outros, no Telegraph e na GB News, meios amplamente reconhecidos como pró-Israel, e cultiva a sua imagem pública com esmero. Em Portugal, conhecemo-lo sobretudo pela caricatura: o conservador excêntrico, invariavelmente de fato, que estreou a conta de Twitter em latim e declarou nunca ter fingido ser moderno. É pouco para saber quem é, o que pensa e como chegou aqui.

Os Rees-Mogg são aristocratas. Terratenentes no Somerset há gerações, são o que se designa por gentry. Chegaram ao título com o pai de Jacob, feito par vitalício em 1988. Uma honra que se recebe e sobretudo se exerce através do assento vitalício na Câmara dos Lordes, com direito de voto nas leis do país. Mas o ofício da família é outro, e mais duradouro: escrever aquilo que, mais tarde, quem governa recita.

O pai foi mestre nesse ofício. É por ele que esta família importa para lá de Inglaterra. William Rees-Mogg dirigiu o The Times de Janeiro de 1967 a Março de 1981, catorze anos no centro exacto do establishment britânico, antes de presidir ao Arts Council e de ser vice-presidente do conselho de governadores da BBC. Seis meses depois de chegar, publicou o editorial que defendeu Mick Jagger de uma condenação por um delito menor de droga e acabou a presidir ao Broadcasting Standards Council, acusado de censura. A opinião, escreveu uma vez, formava-se outrora pela conversa discreta e precisa de homens informados e sérios. Ele sabia do que falava.

Em 1974 publicou The Reigning Error, um livro sobre a inflação mundial no qual escreveu que uma das dádivas da cultura judaica ao cristianismo foi ter ensinado os cristãos a pensar como judeus e que quem não aprendeu a pensar como se fosse judeu dificilmente aprendeu a pensar. Era uma proposição sobre método: pensar é uma técnica, e o Ocidente herdou-a. A frase sobreviveu sobretudo porque Jonathan Sacks, antigo rabino-mor britânico, a recuperou na sua correspondência. No mesmo ano, pedia em editorial o regresso ao padrão-ouro: o ouro torna a inflação mundial impossível, o papel torna-a inevitável. Não andava longe da verdade.

Depois do jornal, tornou-se guru financeiro e publicou, em 1997, com James Dale Davidson, The Sovereign Individual. O livro prevê a desintegração do Estado-nação perante a internet, antecipa a moeda digital e a erosão da capacidade fiscal dos Estados e lisonjeia o leitor como membro de uma elite cognitiva destinada a prosperar enquanto a velha ordem cai. Peter Thiel assinou o prefácio da reedição e apresenta-o como guia de vida. Dessa linhagem saíram Curtis Yarvin, as network states de Balaji Srinivasan, comunidades que compram território por subscrição e reclamam reconhecimento diplomático. Em Inglaterra, os escritos tardios valeram-lhe fama de excêntrico. Mas era nos Estados Unidos, onde se decidia o mundo no momento unipolar do pós-Guerra Fria, que tinha os olhos postos.

Em resumo, o pai escreveu a bíblia do pós-nacionalismo libertário do Silicon Valley. O filho faz carreira a restaurar a soberania parlamentar britânica. Um concluiu que o Estado-nação estava acabado. O outro fez da sua defesa uma profissão.

No debate, veio à tona a outra herança da família. Quando a propósito de Hiroxima, Rees-Mogg sustentou que o bombardeamento cumpria as condições de São Tomás para uma guerra justa. Carlson, frisando que não é católico, perguntou-lhe se algum papa o tinha confirmado. Rees-Mogg respondeu que, desde 1945, a Santa Sé só se pronunciou ex cathedra uma vez ao definir a Assunção de Nossa Senhora. O catolicismo dos Rees-Mogg não é pormenor de sacristia. Em Inglaterra, e isto não tem equivalente entre nós, o catolicismo não é somente uma preferência devocional, é uma posição constitucional. O Act of Settlement de 1701 exige que o soberano esteja em comunhão com a Igreja de Inglaterra e exclui do trono quem professe a religião “papista”. A emancipação de 1829 abriu-lhes o Parlamento, mas com um preço: proibiu-os de aconselhar a Coroa sobre nomeações na Igreja de Inglaterra, sob pena de inabilitação permanente para cargo público, e essa norma continua em vigor. O cargo de Lord Chancellor só deixou de lhes estar vedado em 1974. O resultado social é uma pirâmide sem meio: no topo, as famílias recusantes que nunca se converteram. Na base, a imigração irlandesa, e quase nada entre as duas.

Os Rees-Mogg parecem o exemplo perfeito do topo dessa pirâmide, mas não são. Ilustram bem, isso sim, o provérbio inglês de que são precisas três gerações para fazer um gentleman. O avô paterno, de Cholwell House, era anglicano, e foi a mulher, Beatrice Warren, irlandesa-americana de Nova Iorque, quem levou a fé para dentro de casa, duas gerações antes de Jacob e pela mesma diáspora que produziu os Kennedy.

E se o pai interpretou o mundo, o filho quis mexer nele: entrou na política e nos mercados. Fundou a Somerset Capital Management em 2007, chegou a gerir dez mil milhões de dólares e fechou-a em 2024. Valeu mais como viveiro político, de onde saiu um futuro ministro do Investimento. A fortuna a sério veio de outro lado. No mesmo ano casou na catedral de Cantuária, com missa em latim, com a única filha de Lady Juliet Tadgell, por sua vez única herdeira do oitavo conde Fitzwilliam, morto num desastre de avião em 1948 ao lado de Kathleen Cavendish, irmã de John Kennedy. A imprensa britânica conta que ele pediu a noiva em casamento debaixo de um dos Van Dycks da sogra. Como Carlson, não fez a fortuna que tem: um casou com uma herdeira, o outro é filho de quem casou com uma.

Mas, se quis ser actor no mundo, não esqueceu o que aprendeu em casa: a influência também se exerce através das ideias. Depois dos negócios e do Governo, chegou a vez de institucionalizar essa ambição. Em Março de 2026, registou um novo instituto, o 878 Institute, nome tirado da batalha em que Alfredo, o Grande, derrotou o Grande Exército Pagão. Com actividade em Londres e Washington e a missão de combater as ameaças existenciais à civilização judaico-cristã, em colaboração com académicos de Israel e de outras nações aliadas. Documentos oficiais revistos pelo Guardian mostram que o Departamento de Estado se prepara para atribuir milhões de dólares ao instituto, por via do seu bureau para a democracia e os direitos humanos, numa decisão que diz estar ainda em apreciação. A 30 de Abril, na vigília em Downing Street depois do ataque de Golders Green, chamou aos judeus os nossos irmãos mais velhos na fé e sustentou que Alfredo, ao escrever as leis de Inglaterra no século IX, começou pela lei de Moisés.

Irmãos mais velhos na fé não é expressão dele. É de João Paulo II, da visita à Grande Sinagoga de Roma em 1986, e chega ao Papa por via do poeta polaco Adam Mickiewicz. Quanto à expressão judaico-cristão, no século XIX não significava civilização partilhada. Significava judeu convertido. Alexander McCaul emprega-a numa carta de 1821 e Joseph Wolff em 1829 para descrever uma igreja que conservaria alguns costumes judaicos a fim de converter judeus. O sentido civilizacional vem dos Estados Unidos e dos anos trinta do século XX, cunhado contra o antissemitismo que crescia na Europa, precisamente para afirmar que os judeus estavam dentro do Ocidente e não fora dele. Em cem anos, a mesma palavra serviu primeiro para designar quem deixava de ser judeu e, depois, para quem é defendido por sê-lo. Rees-Mogg convoca Alfredo para autorizar uma expressão com menos de um século.

Richard Carlson, pai de Tucker, também era jornalista. Ganhou um Peabody, e, em 1986, quando William Rees-Mogg presidia em Londres ao Arts Council, Reagan pô-lo a dirigir a Voice of America. Bush fez dele embaixador. Depois presidiu cinco anos à Corporation for Public Broadcasting, que distribui o dinheiro federal pela rádio e televisão públicas americanas. Em 2003 entrou na Foundation for Defense of Democracies, o instituto de Washington mais identificado com o apoio a Israel, e foi oito anos vice-presidente. Os dois pais passaram a vida nas instituições que moldavam a comunicação e a cultura dos seus países. Os filhos escolheram o caminho inverso: Carlson rompe com o atlantismo do pai, enquanto Rees-Mogg combate o pós-nacionalismo do seu. Herdaram o ofício, não o credo.

No Somerset, cada um sabia onde atingir o outro, mas ambos evitaram os ataques ad hominem. Carlson podia ter falado dos milhões de dólares que o Departamento de Estado se prepara para atribuir ao instituto do anfitrião, ou dos 217 milhões de libras que o fundo de Rees-Mogg geria em empresas russas em 2018, duas delas na lista negra americana e outras controladas por gente próxima de Putin. Nunca o fez. Rees-Mogg podia ter sido decisivo ao lembrar-lhe que apoiara a invasão do Iraque, mas deixou a Carlson a saída de sublinhar que percebeu o erro quando lá foi, em Dezembro de 2003. Quis, sim, vincar que era um cavalheiro e que, se a direita britânica procura quem a lidere, não precisa de ir longe.

Carlson queria outra coisa. Num debate anunciado sobre a Rússia, encontrou maneira de dizer que há guerra no Irão porque Israel, potência nuclear, não queria que o Irão tivesse a bomba. E a direita americana que ele queria pôr em evidência apressou-se a dar razão ao anfitrião, da National Review a Ben Shapiro. É a mesma fractura que abriu com a série de entrevistas que gravou na Terra Santa. A guerra do Irão separou-o definitivamente de Trump e, com as intercalares de Novembro à porta, a previsível derrota republicana dar-lhe-á ainda mais espaço junto dos americanos que vêem nessa guerra o expoente máximo da traição ao America First.

A Rees-Mogg, o debate veio no momento-chave. Com os conservadores perdidos, o Reform UK acusado de violar as regras sobre donativos estrangeiros e Rupert Lowe a acusar Farage de ser oposição controlada, catapultou-o para o centro da conversa política britânica. No Telegraph, Tim Stanley escreveu que a verdadeira direita britânica, a decente, tem de ser como Rees-Mogg e não como Carlson. Ganharam os dois como bons filhos de peixe. Carlson foi a casa de Rees-Mogg ganhar na sua, e Rees-Mogg nem precisou de sair dela. Em Portugal, sofríamos a novela Ronaldo, e nessa todos perderam.