Na Rua do Comércio ainda passam os corredores que horas antes se desafiaram na Maratona de Lisboa. Mas aos poucos, a barreira que divide o público dos competidores esvazia-se, e começa a encher aquela montada do outro lado da rua, bem em frente ao MUDE. As montras da flagship da Sephora servem de bancada para o público que para assim que encontra um lugar com vista para o aparato montado no meio da calçada. Italiano, inglês, francês, alemão, português — as dúvidas são ouvidas em todas as línguas. “Afinal, o que se passa?”
“Tinha um gosto muito grande em fazer um desfile na rua, para o povo“, diz Carlos Gil, já depois de abrir o terceiro dia de desfiles desta edição da ModaLisboa. “E gostava muito que fosse com esta vista do Arco Triunfal. É um arco que nos diz muito a Portugal, porque é um símbolo de grandiosidade e é histórico”, assinala, sobre a decisão de manter como pano de fundo o arco que remata a Rua Augusta. Um desfile de Carlos Gil não é o mesmo sem um momento musical — e neste caso foram dois. A abrir, os Bombos de Lavacolhos, grupo tradicional do Fundão, a destacar as raízes do criador de moda, que tem atelier na cidade desde 1998. Passado o momento folclórico, é hora de ver a coleção.

As manequins começam o trajeto por dentro do MUDE, onde está instalada parte da imprensa e outros membros da plateia; até chegar do lado de fora, onde esperam os convidados de Carlos Gil — de personalidades da televisão como a jornalista Ana Patrícia Carvalho ou a atriz Oceana Basílio, às clientes fiéis, que apoiam o trabalho do criador — mas também o aglomerado de curiosos que inclui turistas, vendedores ambulantes, idosos e crianças com máscaras de Cristiano Ronaldo, esses do outro lado da barreira de proteção. Um homem a limpar a janela do segundo andar do hotel Andaz, em frente ao MUDE, chega a interromper o trabalho para observar quando o primeiro coordenado amarelo sai a passear pela calçada portuguesa, do alto de um salto agulha.
“Esta coleção foi provavelmente a mais exigente”, assume Carlos Gil. “Os materiais eram todos muito diferentes. Cada tecido tinha uma forma diferente de se trabalhar”, conta o criador, que parte de Lisboa para desbravar destinos da Ásia, Europa e África em peças com os tradicionais padrões e cores e silhuetas muito femininas. “Estando a falar de culturas e tradições, tenho que saber do que é que estou a falar e por isso tenho que estudar”, destaca o designer, que viajou recentemente até Marrocos. “Todos nós precisamos de apalpar as coisas, de ver, de sentir as coisas de uma outra forma que não é fotografia. E alguns padrões foram fotografias que eu tirei, como num museu do Yves Saint Laurent, e que transportei para uma lantejoula e para uma seda.”


Da alfaiataria, Carlos Gil segue por um caminho de desconstrução, com blazers sem costas e lapelas recortadas. Já nos vestidos, as sedas clássicas mas também aplicações em 3D, tule, franjas e folhos, e uma abordagem mais sofisticada à ráfia. “Tecnicamente foi uma coleção desafiante. Chegou ao ponto de ser dolorosa. Imagine o que é misturar esse material, que é ráfia, com penas e com seda?”, questiona, quase sem acreditar no produto final.
A artista Bia Caboz encerrou com uma mistura de fado e música eletrónica que levantou ainda mais telemóveis entre o público oficial e não oficial. Mas o grand finale é mesmo de Carlos Gil. Acarinhado pelas clientes fiéis, arrancou um forte aplauso e fez questão de caminhar até ao final da rua para cumprimentar todos os que insistiram em acompanhar o espetáculo atrás da barreira: o povo.