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(A) :: A Europa já está a arder?

A Europa já está a arder?

Não se prevê um futuro em que uma civilização gravemente doente se cure pelo voto. Aliás, nem se prevê cura nenhuma mas, dado que a violência puxa violência, múltiplos fragmentos de guerras civis

Alberto Gonçalves
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Não contem comigo para criticar a demora das televisões portuguesas em referir, ainda que ao de leve, a balbúrdia que assola a França há semanas. Percebo sem dificuldade que, nos últimos anos, décadas ou quiçá séculos, seja quase impossível distinguir os períodos em que a França se encontra em estado de sítio dos períodos restantes, que são aqueles em que a França se encontra na mesma em estado de sítio mas com uma quantidade diária de actos de vandalismo ligeiramente inferior à média nacional.

Desta vez, e também sem grande surpresa, os protestos são da variante “estudantil”. Em Setembro, os alunos de um liceu suburbano em Créteil decidiram que as turmas tinham excesso de gente, que havia falta de docentes e que o mobiliário escolar exibia sinais de degradação. Para quem, como eu e o português comum, frequentou “secundárias” públicas tão luxuosas quanto o “lounge” Chase Sapphire do aeroporto LaGuardia, estes relatos da miséria causam um nó na garganta. Por isso não admira que, se os resmungos em Créteil foram genericamente pacíficos, num ápice centenas de milhares de “estudantes” franceses concordassem necessitar de melhores condições de aprendizagem e desatassem a demolir e a incendiar a propriedade alheia que lhes bloqueava o progresso académico. A sede de conhecimento daqueles miúdos comove. Os mais ousados nas reivindicações pedagógicas agrediram polícias, pegaram fogo a um bombeiro e lançaram ácido no rosto de uma idosa que não apreciou a prossecução de um bonito “graffiti”. Cada episódio foi filmado por bandos de colegas que empunhavam telemóveis na vertical e riam muito.

Do pouco que espreitei, as nossas televisões teimam em comparar os protestos em curso com os de Maio de 1968. Não faço ideia se as reportagens notaram a actualização, em 2026, do slogan de então (“Sous le pavés, la plage” – sob o asfalto, a praia): “Sous les cahiers, la rage” – sob os cadernos, a fúria (“Atrás do telemóvel, um selvagem” seria igualmente uma alternativa). Suponho que os “media”, que por regra tratam a barbárie “revolucionária” com bonomia ou entusiasmo, não tenham explorado a analogia a fundo. À semelhança de 1968, a extrema-esquerda continua parte activa na baderna, hoje com o partido França Insubmissa a instigar o caos e o seu líder, o sr. Mélenchon, a procurar sair do caos como líder do país ou, no mínimo, da oposição global à sra. Le Pen. A diferença face a 1968 é a curiosa aliança da extrema-esquerda com o jihadismo islâmico, favorecido pela demografia local e, no caso, traduzido na abundância de “estudantes” franceses chamados Mohamed ou Amir. Além de empunharem cartazes contra a violência em Gaza enquanto atacam polícias em Paris, a partilha de lenços keffiyeh e bandeiras da Palestina entre os manifestantes muçulmanos e os restantes celebra uma união que, um dia, talvez termine a celebrar as tradições humanistas, e assaz francesas, da perseguição dos dissidentes e da guilhotina. Um dia.

Para já, a França é apenas um posto avançado do desprendimento suicida que o Ocidente resolveu acarinhar. O que acontece por lá antecipa, com particular presciência, aquilo que, não tarda, acontecerá na Alemanha e na Suécia, no Reino Unido e na Holanda e na Bélgica. Até na periferia do continente o fantasma do Bloco de Esquerda surgiu a convocar protestos e rebaldaria. No meio da sua incontrolável verborreia, anteontem o sr. Trump tentou resumir a situação: “O que se passa em França é somente o resultado da imigração descontrolada. Isto não é sobre escolas, mas sobre o Islão querer conquistar um país outrora grandioso!” Se descontarmos a discutível “grandeza” passada da França, adicionarmos a influência da esquerda radical e espalharmos o caldo pela Europa fora, o resumo é razoável. À conta da “tolerância” e da debilidade, as brechas que o continente abriu são bem maiores que as próprias fronteiras, e por elas entraram não só milhões e milhões de representantes de uma cultura hostil: entrou na cabeça de inúmeros “activistas” profissionais e totalitários inatos a noção de que o ambiente se tornara propício à devastação que sempre ambicionaram. A noção estava correcta.

Outro americano, Marco Rubio, ecoou esta semana em Atenas o discurso de J.D. Vance há um ano e tal em Munique: ou a Europa desperta para defender os respectivos “valores” fundacionais ou os “valores” dissipam-se e a Europa, a Europa que conhecemos, dissipa-se com eles. Por diplomacia ou convicção, Rubio exagerou no optimismo. De que maneira é que se resolvem os problemas com que voluntariamente a Europa se consome? Para uma parcela dos eleitorados, resolvem-se através da concessão do poder à direita, que o mainstream político e jornalístico designa por “extrema-direita” e cujo advento consideram a única consequência preocupante dos “excessos” [sic] da extrema-esquerda, que o mainstream político e jornalístico designa por “esquerda”. Há aqui alguns equívocos.

Acima de tudo, o que assusta, ou devia assustar, nos “excessos” da extrema-esquerda (e do fervor islâmico) não é o embalo que isso concede aos movimentos ditos “fascistas”: são os “excessos” da extrema-esquerda (e do fervor islâmico). A ascensão eleitoral de forças menos amigas do “multiculturalismo” é consequência secundária e natural da incapacidade do “centro”, actualmente um vespeiro de oportunistas e irresponsáveis, em garantir um esboço de equilíbrio e sossego nas respectivas nações. A chatice é que, no mundo que temos, os ditos “fascistas” são institucionais e ascendem ou prometem ascender ao mando pela via democrática. E à “democrática” extrema-esquerda, excluída da simpatia popular e numa relação instrumental com migrantes “inadaptados” e organizações terroristas, sobra a rua, onde pratica a violência que, para não destoar na geografia, é a sua raison d’être.

Em suma, não se prevê um futuro em que uma civilização gravemente doente se cure pelo voto. Aliás, nem se prevê cura nenhuma mas, dado que a violência puxa violência, múltiplos fragmentos de guerras civis ou a abdicação definitiva. Não é um futuro promissor, se é que chega a ser um futuro.