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(A) :: Hortelã, Cagliostro e o salmo 130

Hortelã, Cagliostro e o salmo 130

Os livros que verdadeiramente lemos não permanecem em nós como frases, mas como lugares. Regressamos a eles quando o mundo se estreita e a luz chega já filtrada pelas grades.

Paulo Ramos
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O conde Cagliostro — Giuseppe Balsamo, para quantos acreditam que um homem pode ter mais do que um nome e mais do que uma vida — pagou caro a fidelidade à curiosidade. Há naturezas que não sabem deter-se diante do mistério: aproximam-se dele como quem se abeira de uma fonte nocturna, não para saciar a sede, mas para escutar o rumor obscuro da água debaixo da terra. Cagliostro foi assim até ao fim: médico, alquimista, rosacruz, maçon, curador de males do corpo e talvez, sem o saber, de algumas febres da alma.

Dizia ter nascido em Palermo, mas também sobre isso pairava alguma névoa. Fora criado em Malta, ilha onde as ondas parecem nascer já fatigadas da luz e morrer, horas depois, com um brilho de sal nos lábios. Ali, as rosas tinham a cor indecisa do salmão-pálido, como se receassem entregar-se inteiramente ao vermelho. Mais tarde viajaria pela Grécia e pelo Egipto, recolhendo gestos, fórmulas, palavras sussurradas em salas fechadas; do Egipto trouxera a memória do rito de Misraim, que ensinava a homens e mulheres com a mesma gravidade com que se ensina a ler uma estrela ou a reconhecer a proximidade da tempestade.

Tinha o rosto amplo, benevolente, uma expressão que inspirava confiança antes de inspirar prudência. As mulheres chamavam-lhe Alessandro, talvez por lhes parecer mais íntimo; os homens diziam apenas Cagliostro, como quem pronuncia uma senha. Lia sem método aparente e com a avidez dos que pressentem que o mundo é maior do que a sua própria inteligência: Paracelso e Petrarca, Buffon e São Tomás, tratados de botânica, poemas, anatomias, visões teológicas. Para ele, os livros não eram objectos mudos. Eram escadas sem corrimão: umas elevavam-no até regiões de claridade e coragem; outras conduziam-no, degrau a degrau, a profundidades onde a alma se reconhece menos sábia do que julgava.

Foi na Alemanha, hospedado na casa de um nobre cuja fortuna se devia mais ao receio dos seus devedores do que à grandeza da sua linhagem, que ouviu falar de Yehuda Ofer. Os aristocratas disputavam o ourives judeu, não pelas suas jóias, mas pela habilidade com que falsificava moeda: fazia nascer reis em discos de metal, imperadores em prata de contrabando, heráldicas inteiras onde antes só havia a superfície pobre e indiferente do cobre. Vivia em Praga, na parte baixa da cidade, perto do rio.

Poucos conheciam a biblioteca de Yehuda Ofer. Menos ainda eram os que conseguiam abandoná-la sem a sensação de terem deixado atrás de si alguma coisa essencial: não um livro, não uma palavra, mas uma parte do próprio olhar. Dizia-se que toda a biblioteca verdadeira faz isso ao leitor. Não lhe entrega apenas saber; retira-lhe, em troca, a antiga segurança.

Cagliostro chegou disfarçado. As autoridades começavam a desconfiar daquele homem de rosto cordial, e as suas amantes ocasionais, entre a ternura e a vingança, chamavam-lhe ladrão requintado. Para qualquer moléstia — uma dor no peito, uma melancolia persistente, uma febre de origem incerta — receitava enxofre, hortelã e mel. O enxofre para limpar o fígado, a hortelã para salvar o hálito, o mel para devolver aos olhos a luz que a doença lhes roubara. Transportava as poções consigo, e o seu corpo exalava uma mistura singular de botica, jardim e colmeia. Nunca lhe morrera um paciente, dizia ele. Talvez por isso o invejassem mais do que o admiravam. A inveja, como certas ervas ruins, cresce depressa em terrenos onde não floresce o talento.

A casa de Yehuda era baixa, quase tímida, e não parecia conter nada que merecesse a viagem de um homem vindo de tão longe. Mas as casas, como as pessoas, guardam por vezes a sua verdadeira dimensão onde os olhos não alcançam. O ourives era também maçon, o que tornou menos difícil o primeiro encontro. Mostraram um ao outro os respectivos sinais: pentáculos de prata, uma flor de papiro lavrada em ouro, pequenas geometrias de reconhecimento destinadas a separar os iniciados dos que apenas atravessam o mundo sem perguntar nada.

Yehuda Ofer era calvo, de olhos azuis quase inacreditáveis e de barba ruiva, como se o céu e o fogo tivessem decidido habitar o mesmo rosto. Fumava um cachimbo atrás de outro, mas nunca, em circunstância alguma, na biblioteca. A biblioteca, explicaria depois, não tolerava o fumo. Talvez não tolerasse também a mentira, a impaciência ou o excesso de voz.

A entrada fazia-se por uma escotilha de ferro negro. Debaixo dela, abria-se uma espécie de funil, um remoinho imóvel de madeira, livros e rótulos cifrados. A cada nível, o espaço estreitava-se. As estantes inclinavam-se umas sobre as outras como árvores antigas que tivessem aprendido a conservar silêncio. Cagliostro sentiu no peito aquela dupla sensação que apenas os lugares verdadeiramente estranhos concedem: fascínio e angústia, desejo de permanecer e vontade de fugir.

Yehuda deteve-o antes da descida.

— Duas condições — disse, sem levantar a voz. —  Não tocará em livro algum. E não fará perguntas sobre nenhum.

Chamava àquele lugar, em hebraico, בֵּית הַדַּעַת (bait ha-daat – Casa do Saber). O nome pareceu a Cagliostro simultaneamente belo e ameaçador. Toda a ciência, pensou, é uma casa; mas há casas em que se entra sabendo que, ao sair, já não se possuirá a mesma medida das coisas.

As aberturas de ventilação eram estreitas. A luz que se infiltrava por elas chegava cansada, peneirada pelo ferro, pela pedra e pelo pó, e pousava sobre os volumes uma cor de cinza antiga. Os livros pareciam ter sido resgatados a um incêndio que não ocorrera ainda.

— Nunca desço de noite — disse Yehuda. — Nem quando há tempestade, nem quando a tempestade apenas se prepara. Os livros escutam o que acontece lá fora.

Depois explicou-lhe a ordem secreta daquela descida. No primeiro nível, dormiam os livros do clima e das estações; no segundo, os de botânica; no terceiro, os da fauna; no quarto, os dos insectos; no quinto, os da geologia; no sexto, os da água. Ali repousavam as línguas da Europa, o grego, o latim e o amado hebraico do ourives. Não estavam mortos. Dormiam, apenas, à espera de que alguém soubesse acordá-los sem lhes ferir o sono.

— Quanto mais descemos, menos livros há — disse Cagliostro, depois de pedir autorização para falar.

— Exactamente. No último nível cabe apenas uma pessoa. E há um só livro.

A curiosidade de Cagliostro tornou-se então quase física. Secou-se-lhe a boca, ardia-lhe a garganta. Estava habituado às iniciações, às câmaras ocultas, às palavras pronunciadas à luz de velas que faziam tremer as sombras; mas aquilo excedia-o. Aquela biblioteca era um poço, sim, mas um poço em que a água fora substituída por páginas, alfabetos, respirações de homens mortos. Descer era aproximar-se de uma origem sem rosto.

Pediu autorização para continuar. Yehuda assentiu.

No último nível encontrou um velho saltério, gasto pelo tempo e por dedos que o haviam procurado muitas vezes. Era pequeno, quase humilde, e talvez por isso mais terrível do que todos os tratados guardados nos andares superiores. Sobre ele repousavam uma pena de uma brancura quase insuportável e um fragmento de osso cuja espécie ou origem ninguém saberia dizer. Havia objectos que pertencem à história; outros pertencem a uma região anterior, onde a história não aprendeu ainda a falar.

Cagliostro abriu o livro. Não escolheu a página: foi escolhido por ela. Leu, com dificuldade, como quem escuta uma voz através da água: De profundis clamavi ad te, Domine.

Muitos anos depois, encarcerado no Castel Sant’Angelo, em Roma, caído em desgraça, acusado por denúncias que dizia infundadas e condenado à morte por ser maçon, Cagliostro voltou a descer àquela biblioteca dentro de si. As prisões têm essa crueldade: quando retiram ao homem o mundo exterior, devolvem-lhe, sem piedade, todos os corredores da memória. Viu de novo Yehuda Ofer; a escotilha negra, a espiral das estantes, o saltério, a pena branca, o osso sem nome. E compreendeu que os livros que verdadeiramente lemos não permanecem em nós como frases, mas como lugares. Regressamos a eles quando o mundo se estreita e a luz chega já filtrada pelas grades.

Invocou Deus. Aceitou que lhe restariam poucos dias. O Papa, porém, perturbado por um sonho em que se via enterrado vivo, comutou-lhe a pena. Cagliostro tentou fugir, porque também a liberdade, quando se oferece demasiado tarde, pode parecer uma armadilha. Foi apanhado e encerrado de novo na Fortaleza de San Leo, onde acabaria por morrer.

Os que o admiravam choraram-no pelas curas, pelas poções, pelas promessas de uma ciência capaz de reconciliar o corpo com o mistério. Os seus detractores respiraram de alívio, como se a morte de um homem pudesse finalmente extinguir a inquietação que ele deixara espalhada pelo mundo. Mas os seres vivos nunca inspiram uma única coisa. Despertam confiança ou receio, devoção ou suspeita; e, por vezes, como Cagliostro, oferecem ambas ao mesmo tempo, na mesma medida em que uma biblioteca oferece abrigo e abismo.