No tempo em que se faziam fotocópias era comum fotocopiar livros inteiros não fosse no futuro querermos lê-los. As intenções eram nobres, visto que imaginar que se possa vir a ler mais um livro pertence a um dos tipos de vida mais alta que se podem imaginar: uma vida em que, sentados à sombra, achamos que seria boa ideia ler qualquer coisa, mesmo coisas difíceis de encontrar, ou difíceis de ler. E nesses tempos imaginávamos que as fotocópias que tínhamos feito para essas ocasiões nos dariam o alimento.
Observou-se porém, ainda na altura, um fenómeno inesperado: as fotocópias não eram bem o livro que tínhamos fotocopiado; não cometiam competentemente, como no século passado se acreditava nos botequins, um crime imputável à reproducibilidade técnica na era moderna. Pareciam-se antes com um papo-seco, que pode ser comido no dia, e que se torna depois impérvio ao dente. As suas imagens continuavam a ser nítidas; mas no dia seguinte não eram apetecíveis; e isso explicava que pouca gente usasse fotocópias para ler mais tarde à sombra das faias.
Uma geração de escolares viu-se por essa razão com bibliotecas inteiras de fotocópias que tinham sido feitas a pensar em dias de leitura, mas cuja existência bastava para lhes fazer perder a vontade de as ler, e lhes causava sensações de náusea que não associavam a momentos de felicidade ou de conhecimento. Confirmava-se pois a noção antiga de que não é boa ideia prover ao futuro sem dar primeiro uma olhadela à data de validade daquilo que se aprovisiona; mas com a dificuldade de que em lado nenhum de uma fotocópia se percebe impressa uma data de validade.
Passa-se hoje o mesmo com as fotografias. É muito comum ver pessoas interromper o fluxo ordinário da vida e as refeições para prover aos outros e tirar fotografias numerosas. O consenso é o de que podem vir a ser precisas para comemorar aquilo que lhes acontece, e informar os outros das cerimónias recentes. Quase tudo numa vida se pode comemorar; mas uma excepção são os momentos em que se está a tirar fotografias. Nesses momentos não se consegue comemorar nada porque se está absorvido na preparação de comemorações futuras. As preparações distraem daquilo que se comemora.
As nossas fotografias numerosas não são imagens da realidade, ou de coisas a que os fotógrafos assistiram. São fotocópias feitas para mandar a grandes quantidades de pessoas, que reproduzem a iluminação, os esgares comuns e os assuntos de imagens vistas em pinturas, postais e filmes — e em fotografias. Aplica-se-lhes pois o princípio das fotocópias: sujeitos a fotografias de dia anterior, sentimos o que os nossos antepassados tinham sentido em relação às fotocópias. Nenhuma felicidade ou conhecimento pode resultar das comemorações que os outros organizam sobre o que acabou de lhes acontecer. Sentimos que quanto mais fotografias tirarem menos motivos haverá para comemorar.