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(A) :: Mário Centeno afasta conflito de interesses na nova contratação. "Quando fui para o Banco de Portugal, Abanca já era o comprador do Eurobic"

Mário Centeno afasta conflito de interesses na nova contratação. "Quando fui para o Banco de Portugal, Abanca já era o comprador do Eurobic"

Em declarações ao Observador, Mário Centeno afasta qualquer conflito de interesses por ir trabalhar para o grupo espanhol que comprou o EuroBic quando era governador do Banco de Portugal.

Edgar Caetano
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Miguel Feraso Cabral
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Mário Centeno descarta qualquer conflito de interesses pelo facto de ter sido contratado por uma empresa do Abanca, o grupo bancário espanhol que, quando Centeno era governador do Banco de Portugal, fez uma aquisição que lhe deu uma posição importante no mercado português. Este é o grupo que, em 2023, comprou o Eurobic, que era parcialmente detido pela angolana Isabel dos Santos. Mas o ex-governador garante que quando iniciou o mandato como líder do Banco de Portugal “o Abanca já era apresentado como o comprador do Eurobic“.

Em declarações ao Observador, Mário Centeno sublinha que “o negócio do Eurobic foi um negócio entre privados” e que a única função do supervisor – que, frisa, neste caso foi o BCE e não o Banco de Portugal – era “fazer a avaliação do comprador”, incluindo a respetiva idoneidade e robustez financeira. O Abanca manifestou interesse no Eurobic aquando do escândalo Luanda Leaks, no início de 2020, mas, após negociações algo turbulentas, acabou por só fechar a transação em 2023 (a meio do mandato de Mário Centeno no Banco de Portugal).

O Abanca já tinha presença em Portugal desde a compra da banca comercial do Deutsche Bank (em 2018), mas a compra do Eurobic foi o investimento que lhe deu uma posição de maior relevo na banca nacional. O agora ex-governador garante que não teve qualquer “participação” ou responsabilidade na escolha do comprador, porque, sustenta, quando foi para o Banco de Portugal, no verão de 2020, o processo de venda do Eurobic já estava a decorrer há vários meses e o Abanca já estava identificado como interessado e possível adquirente.

Mário Centeno admite, ao Observador, que geriu este processo com especial empenho – até “preocupação“. Mas essa “preocupação” prendia-se apenas, garante, com “a estabilidade do sistema financeiro” e com “o facto de um banco a operar em Portugal estar exposto às perturbações que o Luanda Leaks trouxe”.

Os espanhóis do Abanca anunciaram, pela primeira vez, um acordo para a compra do Eurobic em fevereiro de 2020 mas viriam a desistir, em junho do mesmo ano, por considerar que as condições do acordo não estavam a ser cumpridas. Só em 2022 voltaria a haver notícias de regresso do interesse e, passado pouco mais de um ano, o negócio acabaria, finalmente, por ser fechado, com os espanhóis a aceitarem pagar 300 milhões de euros pelo banco que passou a ser o sétimo maior em Portugal, em volume de ativos.

Questionado pelo Observador acerca do papel que Mário Centeno teve na transação do Eurobic, um banco cuja estabilidade esteve em risco pelo facto de ter tido acionistas de relevo com direitos de voto bloqueados, o Banco de Portugal não fez quaisquer comentários. Centeno não estava, ainda, no Banco de Portugal quando os direitos de voto foram bloqueados, em maio de 2020. Era, sim, ministro das Finanças de um Governo que nacionalizou, temporariamente, a posição acionista de Isabel dos Santos na Efacec.

BCE foi “informado” e confirmou que Centeno podia aceitar cargo(s)

Excetuando a compra do Novo Banco pelos franceses do BPCE, fechada nos últimos meses de Centeno no Banco de Portugal, a compra do Eurobic foi a maior operação de consolidação bancária que ocorreu em Portugal no período em que o ex-ministro das Finanças foi governador do supervisor financeiro português, entre o verão de 2020 e o início de outubro de 2025.

E Mário Centeno, quase exatamente um ano após deixar a liderança do Banco de Portugal, é contratado como administrador não-executivo e membro da comissão do Abanca Vida y Pensiones, uma seguradora 100% detida pelo Abanca. A notícia, avançada na noite de quarta-feira pelo jornal Eco, foi confirmada na manhã seguinte, quinta-feira, por um comunicado oficial do Abanca onde Centeno dizia ser “uma honra” ser nomeado para este cargo.

Quem é o Abanca e quando entrou em Portugal?

O Abanca é um grupo bancário espanhol com sede na Galiza, criado em 2011, que cresceu de uma instituição de matriz regional para um operador com presença internacional, através de uma estratégia de expansão assente sobretudo na aquisição de outros bancos.

O grupo, cujo rosto é o espano-venezuelano Juan Carlos Escotet, tem uma posição importante no noroeste de Espanha – é o oitavo maior banco do país, em ativos – e alargou a atividade a outros mercados europeus e americanos, incluindo Portugal, França, Reino Unido, Alemanha, Suíça, EUA, México, Panamá, Brasil e Venezuela.

A expansão internacional ganhou particular expressão com a entrada no mercado português, em 2018, através da aquisição da rede de banca de particulares e banca privada do Deutsche Bank Portugal, uma operação que permitiu ao banco obter cerca de 50 mil clientes e 41 centros comerciais. Essa integração foi concluída em junho de 2019.

Em novembro de 2023, o Abanca anunciou um acordo para comprar 100% do EuroBic, numa operação concluída em julho de 2024, que quadruplicou a sua base de clientes em Portugal para cerca de 325 mil e elevou a rede para 251 agências. A integração jurídica, tecnológica e de marca do EuroBic ficou concluída em novembro de 2025, consolidando a posição do grupo no mercado português, onde é o sétimo banco em ativos.

Depois de um período de cerca de três anos em que chegou a ser proposto para primeiro-ministro (para substituir António Costa), em que chegou a ponderar uma eventual candidatura às eleições presidenciais e em que tentou, sem sucesso, concorrer à vice-presidência do BCE, Mário Centeno junta-se às fileiras do banco que é o oitavo maior em Espanha mas que não é um dos maiores da Europa.

O ex-governador sublinha, porém, que não vai trabalhar “com o banco mas, sim, com a seguradora“, que é um setor que nunca esteve sob a sua supervisão. Ao Observador, Centeno explica que, tal como fez relativamente à função (remunerada) que viria a assumir de comentador político na CNN Portugal, não tinha de pedir autorização ao BCE mas, ainda assim, informou a autoridade monetária de que estava em negociações com a empresa do Abanca.

Na resposta, o BCE confirmou, segundo Centeno, que, um ano após a saída de governador do Banco de Portugal, não haveria problema em assumir aquele cargo. A regra europeia diz que um antigo membro do Conselho do BCE, nestas situações, deve informar a autoridade monetária de que tem intenção de assumir qualquer cargo remunerado durante dois anos após sair do cargo que ocupou.

As regras dizem, também, que durante o primeiro ano, essa pessoa não pode assumir cargos em instituições de crédito, sejam maiores ou menores – e foi por essa razão que Centeno, que saiu do Banco de Portugal no início de outubro de 2025, só entra na seguradora do Abanca no início de outubro de 2026.

Além de informar o BCE, Centeno informou, também, a Comissão de Ética do Banco de Portugal. Segundo a informação recolhida pelo Observador, essa indicação foi dada em finais de abril e foi analisada pelo organismo em maio. Contactado pelo Observador, Rui Vilar, presidente da Comissão de Ética do Banco de Portugal, remeteu apenas para a posição assumida pelo BCE, que tinha dado a sua anuência a atividades como a participação no board da seguradora do Abanca e, também, ao comentário político na televisão CNN Portugal.

Também contactada pelo Observador, fonte oficial do BCE não prestou esclarecimentos.

Centeno é “aprendiz de professor Chibanga”, diz Paulo Núncio, no Parlamento

A contratação do ex-governador do Banco de Portugal para administrador não-executivo da seguradora do Abanca foi tema na discussão parlamentar desta sexta-feira, no debate quinzenal com a presença do primeiro-ministro, Luís Montenegro, e do ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, poucas horas depois de este ter apresentado a proposta de Orçamento do Estado para 2027.

Foi Paulo Núncio, deputado centrista que habitualmente assume posições críticas contra o “reformado e aposentado” Mário Centeno, que trouxe o tema para o debate. Núncio falou sarcasticamente da contratação de Centeno por “uma empresa espanhola de seguros e pensões. “De pensões e reformas ele sabe muito, principalmente de reformas antecipadas – conseguiu obter a sua reforma, uma reforma choruda, aos 59 anos”, afirmou o deputado do CDS-PP.

Mais do que criticar o ex-governador do Banco de Portugal pelas novas funções no setor privado, Núncio criticou Mário Centeno pelo artigo de opinião que escreveu no jornal Público onde faz alertas veementes em relação ao rumo da economia e da despesa pública corrente. “Veio dizer que ‘o diabo vem aí‘, o mesmo [economista] que falhou todas as previsões”, defendeu Núncio, destacando a previsão, quando estava no Banco de Portugal, de que as contas públicas podiam ter um défice de até 1% do PIB – o que não aconteceu.

“Como é que o Governo responde a estes aprendizes do professor Chibanga, que nunca acertaram uma previsão nos últimos anos e que se armam agora em comentadores independentes?”, perguntou Paulo Núncio, provocando sorrisos nos lábios de Luís Montenegro e Miranda Sarmento. Na resposta, o primeiro-ministro salientou que a governação está “no bom caminho” e que, ao contrário do que diz Centeno, “a despesa corrente primária está controlada“.