De formato cónico, tanto se passeia como saia no corpo de um manequim como se deixa fotografar em absoluta quietude. Vê-la no cenário dos cofres do MUDE (um ambiente “sem tempo nem rede” de telemóvel), entre gavetas metálicas, serve ainda para imaginar que, com um ajuste aqui e ali, ainda podia servir de mealheiro. Por um triz, estivemos para não ver os seus múltiplos heterónimos: a peça que parece um espelho, com um orifício quadrado, deu tanto trabalho a desalfandegar que quase falhou o desfile que fechou a quinta-feira de ModaLisboa.
Há seis meses, de visita ao novo atelier de Entrudo, em Campolide, algumas peças antecipavam o resultado da união de forças entre a designer e a artista francesa, que se conheceram enquanto estudavam Textile Design na Central Saint Martins. Uma década de amizade e proximidade criativa acompanhou o desenvolvimento das respetivas práticas e criou as condições para uma colaboração em que Arte e Moda ocupam o mesmo plano, sem desníveis, atenuando habituais hierarquias entre disciplinas. À época, vimo-las em contexto flat, repousadas sobre mesas de trabalho ou em fila de espera para aprimoramento em charriots.

Pouco tempo depois, em maio, seriam apresentadas pela primeira vez, em Nova Iorque, a convite da Studio2M, na exposição inaugural da galeria fundada por Abby Caulkins em 2026, um loft no Soho concebido simultaneamente como atelier e espaço expositivo. Se ali se manifestaram de forma mais conceptual, em Lisboa afirmaram a sua componente (também) altamente wearable. “Foi Abby que nos juntou”, aponta Constança, enquanto Caulkins, fundamental na pesquisa e conceito, terceira perna de Ad Hoc, passa diante de nós. “É uma amiga, colecionadora e cliente em comum que temos nos EUA, em Nova Iorque, que não sabia que nos conhecíamos.” Quando foi ao estúdio de Marie, Abby reconheceu de imediato as afinidades criativas e sentenciou que francesa e portuguesa deveriam conhecer-se o quanto antes. “No primeiro show que fiz, houve uma peça feita em colaboração com Marie, tecida por Marie. Isso transformou-se num vestido e agora é uma peça de arte que já não é um vestido.”, explica Entrudo.
“O que foi muito interessante é que nós duas trazemos coisas. Não é a Constança designer, nem sou eu a artista, nós misturamos tudo. Aqui se calhar é um pouco mais moda, daí termos trazido o artwork para a cave. Para também mostrar que Ad Hoc é uma colaboração, não é uma marca.”, acrescenta Hazard. “Enquanto em Nova Iorque era totalmente diferente, não havia pessoas. Algumas dessas peças foram exibidas em conjunto com outras, foram exibidas como obras de arte que as pessoas poderiam experimentar. Há sempre um treino de dupla face.”
Cada qual segue as suas práticas mas ambas exploram a tecelagem enquanto linguagem e a interseção entre craft e tecnologia. As composições táteis de Hazard encontram o trabalho têxtil de Entrudo numa reflexão partilhada sobre o tempo necessário à produção de um tecido e sobre a forma como essa temporalidade se alterou com a introdução de novas tecnologias. De um lado, uma abordagem peculiar à tecelagem, cruzando pintura, fotografia e linguagem, materializada em instalações imersivas que combinam fios, contas e crochet. Do lado de Constança, a aplicação da sua técnica de assinatura “(un)woven”, através da fusão de fios reciclados com aplicação precisa de calor, e tem continuado a criar têxteis e peças de vestuário que questionam os limites das práticas tradicionais de tecelagem.


Ad Hoc inscreve-se no conjunto de apresentações conceptuais, que esbatem as fronteiras entre desfile de Moda e performance. Depois de Nova Iorque, mostrou-se ainda a oriente, em Xangai, e revelou-se agora na Lisboa Fashion Week, no cofre do MUDE — Museu do Design, mantendo no centro os materiais e referências que ambas partilham. “Para nós é muito importante ser flexível, as peças podem ser vistas mais como uma escultura ou como algo vestível. É esse o objetivo de fazer as pessoas questionarem. Não há designer, não há artista. As pessoas têm que olhar para as peças e ficar baralhadas, se for necessário.”, estimula Marie. “É vestível, não é? Não respondemos a essa pergunta muito claramente. Um dia vais vê-lo num desfile, talvez amanhã o vejas na tua sala.”, continua Constança.
Se o desejo de colaborar é antigo, a semente primitiva de Ad Hoc vem de ainda mais longe. O nome do projeto decorre de um grupo de artistas fundado na década de 1970, o Ad Hoc Committee of Women Artists, que reunia regularmente no SoHo mais de 100 mulheres em resposta à sub-representação de artistas mulheres na Whitney Biennial. O loft da Studio2M funcionou outrora como atelier da escultora Jackie Winsor, representada pela Paula Cooper Gallery. Quando começaram a trabalhar juntas no espaço, designer e artista encontraram uma entrevista de Winsor à ArtNews, de 1992, na qual a artista recordava o seu primeiro contacto com o grupo “Ad Hoc”.
Sendo proposta uma reflexão sobre tecido e espaço, também a escala do corpo humano permanece como referência comum e como elemento de equivalência entre Arte e a dimensão artesanal convocada. É aliás de dedos laboriosos que sai boa parte destas criações. Os têxteis tecidos à mão e as obras são produzidos no atelier de Marie Hazard, em Paris, enquanto os têxteis “(un)woven” de Constança Entrudo são feitos à mão no seu atelier, em Lisboa. O denim, as malhas e o calçado são desenvolvidos com parceiros de produção de longa data no Norte de Portugal, e os botões e restantes acessórios são produzidos em Portugal.
Numa simbiose orgânica, começaram por pensar como queriam definir a camisa de popeline, desconstruindo costuras, botões e subvertendo a vocação natural de punhos e colarinhos, que se deixam unir para dar vida a saias. Com deadlines curtos, a dupla concentra-se muito em “momentos comuns” que evoluem posteriormente para algo mais fiel à noção de conceito. As referências decorreram de peças como leques, que ajudaram a referenciar o trabalho com a dobra, por exemplo, ou simples análise de uma ida ao caixote do lixo — “Apercebemo-nos que a mulher em Nova Iorque despeja o lixo de uma forma que em Lisboa as pessoas não fazem.”. Nos materiais, Entrudo respondeu a um desafio de peso a partir do historial da colaboradora. “Adoro as peças que a Marie trabalha com pneus há muitos anos. Faz coisas incríveis e difíceis. Tivemos que colocar materiais com os quais queríamos trabalhar no início. E a Marie disse: “Quero usar pneus.” E eu estava tipo… Não sei usar pneus. Porque normalmente faço um trompe l’oeil. Se há um pneu, tenho de encontrar um material que imite um pneu, mas não um pneu. Isso para mim também foi como uma experiência de aprendizagem.”, admite.

O resultado é visível em peças como o pesado casaco-bomber, no qual colocaram um elástico, ou na poderosa saia com rosetas “muito difíceis de fazer”, potencializando a crueza dos materiais.
Sobre os prints, visíveis em vestidos com os que a dupla usa, partem de revistas antigas, como um exemplar de 1989, uma das publicações que encontraram na antiga casa da minimalista Jackie Winter, entretanto falecida, onde se instalaram durante a residência nos EUA. As memórias do papel, e da era afiada e ainda imponente da crítica, estão nas estampas e também enquanto complemento essencial, trazido pela mão — quando andar com um jornal era tão óbvio quanto ir ao armário de manhã.
Se o vestido “Jackie” abriu o espetáculo, não faltam outros laivos nova-iorquinos, que resgatam um decadente SoHo dos anos 70 e destinos icónicos como o histórico café Fanelli também ele com direito a um vestido batizado em seu nome, como quem diz “Old New York is new again”. O mantra é impulsionado pela playlist do desfile, para um balanço ritmado e sintonização da frequência da estação francesa FIP, lançada em 1971, e que foi banda sonora durante o processo, tal como os programas
Colab – não confundir com coleção — sem limite definido (ainda que certas peças sejam limitadas), já começou a ser procurada e distribuída. “Desde que lançámos em maio tem estado a correr muito bem. Estamos a vender em diferentes lojas em todo o mundo.”, assinala Entrudo, antes de apontarem à próxima paragem, a Art Basel em Paris, nos dias 23 a 25 de outubro, no cenário do Grand Palais.