A jovem que acusa vários homens de a terem violado numa festa de uma fraternidade da Universidade de Cornell, EUA, terá sido “induzida em erro” quanto ao andamento da investigação criminal nas semanas que se seguiram à queixa junto da polícia, afirmou o advogado da queixosa que, por uma questão de anonimato, é identificada como “Jane Doe”.
À Associated Press, Thomas Giuffra disse esta quarta-feira que o departamento de polícia da universidade deu à jovem a impressão de que a investigação criminal estava a decorrer quando, na verdade, o inquérito criminal terminou quase assim que começou.
O procurador do condado de Tompkins, Matthew Van Houten, tomou a decisão de não dar seguimento ao processo criminal poucos dias depois de a jovem ter prestado os seus primeiros depoimentos substanciais à polícia, em outubro de 2024. Van Houten afirmou que pediu ao departamento de polícia da Cornell para comunicar a decisão à mulher referida nos documentos judiciais como Jane Doe, mas admitiu que nunca falou pessoalmente com ela nem com o seu advogado.
“Acho que ela foi induzida em erro. Disseram-lhe que ainda estava — que não iam apresentar acusação, mas que ainda estavam a investigar”, disse Giuffra à AP. “Estive envolvido neste caso desde o início. Pensava que ainda estavam a investigar. Foi uma surpresa para mim saber que não estavam a fazer nada”, continuou o advogado da queixosa, acrescentando que, na altura, partiram do princípio de que os investigadores apenas precisavam de mais tempo para falar com testemunhas e construir o processo. “Mas nada estava a ser feito, e nós não sabíamos disso”, acusa agora.
Na semana passada, o procurador distrital afirmou num comunicado que estava confiante de que não era necessária qualquer investigação adicional depois de os procuradores e investigadores criminais do seu gabinete terem analisado um resumo de seis páginas do relato da mulher, redigido por um agente da polícia. Com base nesse resumo, Van Houten afirmou acreditar que não tinha sido cometido qualquer crime e que a participação da mulher no consumo de drogas e nas relações sexuais tinha sido “voluntária, consciente e consensual”.
Essa descrição contrasta em absoluto com o que a mulher relatou à polícia e aos investigadores da universidade, bem como com o que alegou na ação judicial intentada em setembro contra sete membros da fraternidade Chi Phi e a Universidade de Cornell.
Entre outras coisas, afirmou Giuffra, o relatório de seis páginas omitiu que a mulher disse aos investigadores acreditar ter sido vítima de violência sexual — “Posso afirmar com 100% de certeza que fui violada” —, que foi alvo de violência física e que um membro da fraternidade enviou uma mensagem para um chat em grupo anunciando que o corpo de uma mulher estava à disposição de quem quisesse.
Na semana passada, o jornal The New York Times noticiou que um investigador da polícia de Cornell tentou que o gabinete de Van Houten considerasse provas adicionais nas semanas após a alegada violação, mas foi rejeitado. “No início, pensei que estes polícias fossem incompetentes”, disse Giuffra à AP. “Parece que estavam a fazer a coisa certa. E simplesmente foram silenciados.”
O “Caso Cornell” tem dominado a agenda mediática nos Estados Unidos e um pouco por todo o mundo. A alegada violação em grupo de uma jovem na prestigiada Universidade de Cornell, em Nova York, aconteceu em outubro de 2024, mas o caso ganhou grande repercussão pública no último mês, quando a vítima intentou uma ação civil contra os agressores e a instituição.