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(A) :: A intifada em França

A intifada em França

A associação com o radicalismo islâmico, em regiões de grande migração muçulmana, deu à extrema-esquerda uma força como nunca teve desde os anos 1970

Rui Ramos
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Os noticiários dizem que os estudantes franceses saíram à rua para exigir mais despesa em educação. Mas estes estudantes, que querem mais meios para o ensino, incendeiam as escolas. Queixam-se da falta de professores, mas agridem e regam com gasolina aqueles que apanham. São franceses, mas marcham sob as bandeiras da Palestina e da Argélia. Nos seus ajuntamentos, escutam e aplaudem os deputados e vereadores da extrema-esquerda. Entretanto, já atacaram esquadras e feriram mais de 700 polícias.

Não estou a dizer que não haja problemas na educação em França. Deve haver, porque sempre houve, apesar de a despesa com o ensino público ser a mais elevada de todos os tempos. Também não estou a dizer que não haja gente na rua inspirada apenas por essa causa. Deve haver, tal como deve haver simples curiosos. Mas como os serviços de informação já concluíram, o motor da campanha de violência é o partido da extrema-esquerda La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon. Podemos perguntar onde quer chegar Mélenchon. Mas antes, convém perceber onde já chegou.

A extrema-esquerda no Ocidente assenta agora numa parceria entre activistas estudantis intoxicados pelo professorado esquerdista, e fundamentalistas islâmicos. O islamismo radical aproveitou a incapacidade de integração do Ocidente, tolhido pela auto-abjecção wokista, para transformar os migrantes muçulmanos num bloco de votos de cabresto à antiga. Por enquanto, os jihadistas preferem usar a extrema-esquerda como barriga de aluguer política. Eis como Die Linke na Alemanha, o Green Party na Inglaterra, ou La France Insoumise elegem deputados e vereadores. Foi para consolidar essa aliança que a extrema-esquerda fez de Gaza a sua grande causa, e do anti-semitismo a sua filosofia.

Em França, Mélenchon parece ter concluído que o jihadismo, ao pôr à sua disposição os jovens da imigração dos subúrbios para juntar nas ruas aos estudantes e aos “casseurs” esquerdistas, lhe deu mais um recurso: a “intifada”. Para quê? Nas presidenciais de 2027, Mélenchon gostaria de ir a uma segunda volta com Marine Le Pen. Perdesse ou ganhasse, submeteria toda a esquerda à sua liderança. Não poderá então o actual ensaio de violência emprestar-lhe fama de desordeiro e prejudicá-lo? Não necessariamente. Dá-lhe apenas outra opção. Imaginemos, por exemplo, que Le Pen é eleita. Mélenchon lança a intifada, e das duas, uma: ou uma presidente Le Pen recorre à força para conter a insurreição, e Mélenchon denuncia o “fascismo” e exige às elites francesas que provem ser “democratas” juntando-se à sua “luta”; ou Le Pen cede, exibe a mesma fraqueza de todos os governos franceses dos últimos 30 anos, e desacredita-se junto dos seus eleitores, que esperam ordem, e dos investidores e credores do Estado, que esperam reformas. Sem o consentimento de Mélenchon, dono da rua, ninguém poderia governar em França.

Se é esse o plano, não é mal pensado. A associação com o radicalismo islâmico, em regiões de grande migração muçulmana, deu à extrema-esquerda uma força como nunca teve desde os anos 1970. Podia servir-lhe só para eleger presidentes de câmara, como em Berlim ou Nova Iorque. Mas para estes revolucionários, a violência foi sempre a maneira mais coerente de fazer política, e a Mélenchon, talvez a insurreição pareça a melhor jogada. A questão é saber se a restante esquerda e as elites bem-pensantes em geral se deixarão liderar por gente como Mélenchon a pretexto do “antifascismo”. Há anos que à oligarquia europeia só interessa ver perigos à direita, entre aqueles que contestam as suas políticas de estagnação económica, caos migratório e desmantelamento da cultura nacional. Por isso, nem deu pela emergência desta extrema-esquerda com motor jihadista. Vai perceber agora? E, percebendo, vai resistir?