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(A) :: A Universidade como elipse, não como círculo 

A Universidade como elipse, não como círculo 

A instabilidade prolongada tem custos, e uma Universidade não pode circular indefinidamente em torno dos seus problemas internos.

Alexandra Curvelo
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Aby Warburg (1866-1929), pensador da história da arte e historiador de referência nos estudos do Renascimento italiano, é igualmente conhecido pela forma como organizou a sua biblioteca. Rejeitando um modelo tradicional de catalogação e disposição dos livros nas estantes, Warburg criou um método pessoal que aproximava os livros por afinidades e abria possibilidades de surpresa e descoberta, ao qual deu o nome de “lei da boa vizinhança” ou “lei do bom vizinho”.

Fiel a este princípio e inspirado pelas leis de Johannes Kepler sobre as órbitas planetárias elípticas, e não circulares — que implicou a transição de um ponto de observação com um único centro para um com dois focos —, Warburg concebeu o edifício da sua célebre biblioteca em Hamburgo com uma forma oval (elíptica). Pouco depois da sua morte, de modo a preservá-la da ascensão do nazismo, a biblioteca foi levada para Londres, dando origem ao Instituto Warburg. Sinal de liberdade, de descoberta, de capacidade de nos surpreendermos e de imaginarmos outras possibilidades, vejo na elipse warburgiana uma inspiração para a forma como podemos imaginar a Universidade.

A Universidade deve ser um lugar de liberdade de pensamento e de debate crítico. Para tal, é necessário que a pluralidade de ideias que se debatem e confrontam no interior da instituição seja acolhida e reflectida pelos seus órgãos de poder e que as escolhas destes sejam respeitadas. Não é o que tem acontecido à Universidade NOVA de Lisboa nos últimos meses. Os factos são conhecidos, tendo vindo a ser objecto de notícias e de textos de opinião em diversos meios de comunicação social. De todos esses factos, destaco um: Paulo Pereira recebeu, em dois momentos eleitorais distintos, o apoio maioritário do Conselho Geral para exercer as funções de Reitor da NOVA. Independentemente das questões procedimentais que continuam a ser apreciadas nas instâncias competentes, essa manifestação de vontade tem um significado institucional e democrático que não tem como ser desrespeitado, tanto mais que se trata do primeiro Reitor da história da instituição que foi eleito por um Conselho Geral constituído por docentes e investigadores eleitos por listas diferentes, contrariando a funesta tradição da “lista única”.

Este momento obriga-nos a sinalizar ainda uma constatação fundamental: uma Universidade não é uma empresa em que os cargos de gestão resultam de nomeação, indicação ou decisão hierárquica. Numa Universidade pública, a governação assenta na representação, na participação e na escolha através de órgãos democraticamente constituídos. Este modelo pode produzir decisões que não agradam a todos e resultados diferentes daqueles que alguns desejariam, mas uma instituição forte deve conseguir conciliar legalidade, estabilidade e respeito pelas escolhas democráticas da sua comunidade.

A NOVA é uma Universidade forte. Celebrámos recentemente os nossos 50 anos afirmando-nos pela qualidade do nosso ensino e da nossa investigação, pela abertura à sociedade e pela liberdade académica. É nisso que devemos voltar a focar-nos, reiterando a confiança na capacidade do Reitor eleito para continuar a servir a instituição e fazê-lo com o sentido de dever que tem demonstrado e que a situação exige.

A instabilidade prolongada tem custos, e uma Universidade não pode circular indefinidamente em torno dos seus problemas internos. Estudantes, investigadores, docentes, funcionários e parceiros esperam que continuemos a ensinar, investigar, construir conhecimento e servir a sociedade. Uma Universidade livre constrói-se com boa gestão e democraticamente, respeitando os valores da transparência, da participação e do respeito pelas escolhas da sua comunidade, devendo também ser um exemplo da capacidade de sair de si e de se transformar numa elipse, não num círculo.