Se em Portugal a moda de autor se faz em atelier próprio, com trabalhos manuais, produções em pequena escala e até peças únicas, a Adolfo Domínguez traz para a ModaLisboa um novo significado ao termo. Com uma faturação que em 2025 alcançou os 139 milhões de euros e 43,4% das vendas em mercados internacionais, com destaque para o México, Portugal e o Japão, a marca apresenta propostas premium a preços mais acessíveis, em coleções autorais, feitas do zero a cada seis meses. Esta sexta-feira a marca espanhola estreou-se no Pátio da Galé com a coleção primavera/verão 2027, chamada CROMA.
“Andava a pressionar há vários meses para apresentarmos a nossa coleção em Lisboa”, confessa ao Observador Tiziana Domínguez, filha do designer espanhol que dá nome à marca, e a atual diretora de Design, um dia antes do desfile. A criadora trabalhou por 14 anos na empresa familiar até que, em 2022, decidiu fazer uma pausa na moda para se dedicar a projetos pessoais de arte, mais especificamente à pintura equestre. Foi quando o seu caminho se cruzou com o de Portugal. “Tenho uma ligação muito pessoal com Portugal, pois vivi no Porto durante três anos. Adoro o país e acho que está muito internacional e cosmopolita”, conta a mais nova das três filhas de Adolfo Domínguez — a mais velha, Adriana, é a atual presidente executiva e CEO da empresa.
Tiziana, por sua vez, regressou em 2025 como diretora de Design, um cargo mais focado na sustentabilidade e na moda de autor, e para chefiar uma equipa composta por 20 designers — entre os quais Victor Huarte, designer espanhol que chegou a apresentar em algumas edições do Portugal Fashion. “Dizia às nossas equipas que devíamos desfilar em Lisboa porque não é o mesmo que desfilar em Madrid. Acho que a Semana da Moda de Lisboa tem um alcance enorme e excelentes designers, como por exemplo o meu amigo Ricardo Andrez. Portugal é o nosso terceiro maior mercado, temos 22 lojas no país — tendo aberto uma em Braga há poucos meses —, pelo que é muito importante para nós como empresa. Adoro mesmo o país”, remata.
O regresso à Espanha deu-se há cerca de um mês, mas da vida no Norte leva a boa relação com os fornecedores. “Produzimos em Portugal há cerca de três décadas e é a nossa maior base de fornecedores em proximidade. Trabalhamos com a maioria dos grandes fornecedores há muito tempo, produzindo calçado, malhas, jersey e até alfaiataria. Portugal fez um trabalho incrível em manter a sua capacidade industrial na moda”, destaca Tiziana Domínguez, que assinala o facto de “muitas marcas premium e de luxo” produzirem em Portugal “devido à alta qualidade e variedade”. O país divide o pódio com China e Índia como os três principais produtores da marca, que trabalha com fábricas em outros oito países ao redor do mundo.

O legado familiar e a proteção da criatividade
Criada em 1950 em Ourense, na Galiza, a Adolfo Domínguez começou como uma pequena alfaiataria e camisaria familiar. Entretanto, o designer Adolfo Domínguez é na verdade parte da segunda geração da família, e fundou a marca de moda masculina e feminina em 1976 — há 50 anos. “Para os meus pais a empresa sempre foi parte das suas vidas e parte da família. Falávamos disso sempre ao jantar. Íamos à empresa nos fins de semana, porque estavam sempre a desenhar novas coleções, e nas férias da escola eu trabalhava com os designers da linha jovem e fazia de modelo. Estive sempre muito integrada na empresa, então, para mim, sempre foi uma escolha muito natural”, conta a designer, que ainda assim insistiu em outras carreiras antes de abraçar o mundo fashion.
“Quis tornar-me artista, então estudei belas artes. Depois estudei economia, quase como uma rebeldia, do tipo ‘eu consigo'”. Por fim, Tiziana Domínguez estudou design de moda na Parsons, em Nova Iorque, onde procurou inspiração para desenvolver o processo de criação usado na Adolfo Domínguez, o método Ágora. “Se o sistema não proteger e potenciar a criatividade, esta é esmagada pela tensão clássica entre arte e comércio”, considera a designer.
Tudo começa como uma tela em branco — e antes do desenho, vêm os testes no manequim. “Um professor de ilustração ensinou-me que o desenho apenas recicla coisas que o cérebro já viu. A verdadeira criação acontece no manequim com o tecido físico, a gravidade, a forma humana e os erros ou movimentos inesperados. Insisto para que todos os meus designers trabalhem no manequim e na modelagem. Para nós, a manipulação da forma e do tecido é a verdadeira chave para a inovação”, assinala a filha do designer que cunhou o slogan “la arruga es bella”, ou “o vinco é belo”, no início dos anos 1980, para alavancar as vendas da coleção de linho.
Tiziana mantém o desafio de inovar com legado, e vai buscar na arte as componentes para a criação. Na passerelle do Pátio da Galé, o que se viu foi o resultado da experimentação — e não explosão — da cor, com processos de tingimento natural em gangas, lenços estampados e tecidos translúcidos sobrepostos. Numa narrativa que transita do moderno para o clássico e intemporal, as propostas apresentam-se em formas mais fluidas, muitas camisas e alfaiataria leve e desconstruída, com peças que saem da caixa — como a capa de chuva num tecido com aspeto de papel vegetal — sempre combinadas com calçado e carteiras em pele.
“É sobre ser novo de verdade, sobre exploração, e não tanto sobre arquivo ou legado de manutenção da marca”, destaca, apesar de reconhecer que toda a coleção também é composta por ícones, como “o casaco de gola mao da coleção masculina, que existe há quase 50 anos, e as camisas de linho com gola mao. Reajustamo-los sempre para dar frescura, mas estruturamos a coleção como uma pirâmide de produtos: no topo está a novidade experimental e na base estão as peças essenciais que os clientes nos pedem continuadamente.”

Moda de autor que atravessa o mundo
Antes de conquistar a Rainha Letizia — e as suas filhas — a marca espanhola alcançou o sucesso nos EUA, servindo o guarda-roupa dos protagonistas da série Miami Vice. Hoje a Adolfo Domínguez tem 379 lojas em 54 países e precisa combinar a componente autoral com a logística de distribuição global.
“Não somos uma empresa que faz um desfile e vende perfumes. O nosso negócio é vestir as pessoas, vender carteiras e artigos que são usados no dia a dia. E é por isso que precisamos de uma equipa grande e um método que aproveite a criatividade de todos numa voz e identidade comuns”, diz Tiziana, que conta que a equipa de design chega a trabalhar, por temporada, em 1300 variações de produtos.
Mesmo assim, a internacionalização pede adaptação. A marca trabalha peças específicas para mercados específicos, como é o caso da coleção de Ramadão direcionada ao Médio Oriente, ou a inclusão de artigos que se adequem ao clima de todas as latitudes. Mas Tiziana faz a ressalva de que “os bestsellers costumam ser os mesmos em todo o lado, quer no México quer no Japão”. E engana-se quem pensa que são sempre as peças mais básicas. “Os clientes procuram peças especiais e únicas que não encontram em mais lado nenhum”, diz a diretora de Design. “É como se o cliente tivesse sempre razão, no sentido em que quando desenhamos algo, tudo simplesmente se encaixa: o tecido, o corte, a cor, tudo se reúne para criar uma peça realmente muito boa. E depois essa peça esgota em todo o lado.”
Presença frequente nas fashion weeks de Madrid e Barcelona, a marca já fez desfiles próprios no México e em Dubai, o que faz parte da estratégia de internacionalização. Quanto à ModaLisboa, Tiziana não dá certeza sobre o regresso da Adolfo Domínguez. “Abrimos a nossa primeira loja fora da Espanha no Porto há 33 anos, e esta é a primeira vez que vamos apresentar em Portugal. Portanto vamos ver como corre”.