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(A) :: Anne Carson vence o Nobel da Literatura de 2026 pela "obra ousada e criativa" que "criou novas formas para a literatura contemporânea”

Anne Carson vence o Nobel da Literatura de 2026 pela "obra ousada e criativa" que "criou novas formas para a literatura contemporânea”

A escritora canadiana sucede assim ao húngaro László Krasznahorkai, que venceu em 2025. Uma das mais afamadas poetisas e intelectuais do mundo, tem várias obras publicadas em Portugal.

António Moura dos Santos
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A poetisa, ensaísta, tradutora e classicista Anne Carson é a vencedora do Prémio Nobel da Literatura 2026. O anúncio, feito pela Academia Sueca esta quinta-feira numa conferência de imprensa transmitida a partir de Estocolmo, justificou a escolha pela sua “obra ousada e criativa que, num diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”.

A escritora de 76 anos sucede assim ao húngaro László Krasznahorkai, que venceu em 2025, e é a terceira autora canadiana a ser laureada após Alice Munro, em 2013, e Saul Bellow, em 1976 (sendo que o autor de Herzog acumulava nacionalidade norte-americana). Há muito cogitada para receber este prémio, era a principal favorita a vencer este ano para a casa de apostas Bethard, suplantando outros candidatos como Can Xue, Gerald Murnane, Amitav Ghosh, César Aira, Cristina Rivera Garza, Thomas Pynchon e Jamaica Kincaid.

“Ao longo de toda a sua carreira, Anne Carson conciliou a escrita de poesia com o trabalho de tradução e o ensino em várias universidades. Quase toda a sua produção literária se tem centrado no cruzamento entre a obsessão do filólogo pelas palavras e o desejo do poeta de encontrar novos significados. A própria autora identificou a etimologia das palavras como o ponto de partida de toda a sua obra”, destacou a academia.

Ingrid Carlberg, a secretária permanente da Academia Sueca, revelou que já falou ao telefone com a escritora laureada, que foi “apanhada de surpresa” pela notícia na Islândia, onde se encontra, e que se mostrou muito feliz.

“Não tivemos muito tempo para conversar e tudo o que teve tempo de me dizer foi que, neste momento, está na Islândia a ouvir o vento”, acrescentou.

Por seu lado, o presidente do Comité Nobel da Literatura, Anders Olsson, destacou a forma como a escritora cruza a tradição clássica com autores modernos, criando obras que ultrapassam as fronteiras entre a poesia, os géneros literários e outras formas de expressão artística, destacando que quase toda a produção literária de Anne Carson se situa no cruzamento entre a obsessão do filólogo pelas palavras e o desejo do poeta de encontrar novos significados.

Uma das mais prestigiadas poetisas e intelectuais do nosso tempo, Anne Carson já tinha sido contemplada com inúmeros prémios antes de ser laureada pela Academia Sueca. Entre um vasto rol de distinções, destacam-se o T. S. Eliot Prize em 2001 por A Beleza do Marido, o PEN Award for Poetry in Translation em 2010 por An Oresteia, o Prémio Princesa das Astúrias das Letras pelo conjunto da sua obra em 2020 e o prémio de carreira PEN/Nabokov Award em 2021.

https://observador.pt/2020/06/18/canadiana-anne-carson-vence-premio-princesa-das-asturias-das-letras/

Apesar de Anne Carson se ter tornado numa figura de renome internacional já na viragem do milénio, seria preciso esperar até 2017 até que a sua obra, por fim, fosse traduzida em Portugal. Essa lacuna foi preenchida pela editora independente não (edições), que publicou um dos seus mais celebrados trabalhos, o romance em verso Autobiografia do vermelho, numa tradução de Ricardo Marques e do próprio editor da não, João Concha.

Esta editora trataria então de ir disponibilizando várias outras obras poéticas e ensaísticas de Carson, como A Beleza do Marido, Vidro, Ironia e Deus, Águalisa e Homens nas Horas Vagas. Entretanto, a Companhia das Ilhas editou em 2023 Antigotriz — adaptação traduzida do grego antigo da peça Antígona, de Sófocles, levada a cena pelo Teatro da Rainha — e a Edições 70 disponibilizou em 2024 um dos seus mais afamados ensaios, Eros, Amargo e Doce. Publicado em 1986, este é o primeiro livro de Anne Carson, onde a autora explora a conceção do amor na poesia de Safo, marcada pela coexistência da dor e do prazer. Não só foi o trabalho que lançou as bases da sua obra posterior como foi considerado um dos cem melhores livros de não ficção de sempre pelos leitores da Modern Library.

https://observador.pt/2025/01/11/eros-amargo-e-doce-de-anne-carson-o-desconforto-do-amor/

Um percurso entre o passado e o presente

Nascida em 1950 em Toronto, Anne Carson viveu em várias cidades canadianas até voltar a fixar-se nesta metrópole junto à fronteira com os EUA. Foi aí, quando já estava no ensino secundário, que um professor de latim a introduziu ao universo da Grécia Antiga e lhe deu aulas particulares de grego antigo. Ao The New York Times, afirmaria em 2013 que simplesmente lhe pareceu “a melhor língua” para aprender.

Carson fez toda a sua formação superior na Universidade de Toronto — com uma passagem pela Universidade de St. Andrews, na Escócia —, doutorando-se em Estudos Clássicos em 1981 com uma tese intitulada “Odi et Amo Ergo Sum”. A partir daí, tornou-se numa professora de clássicos em várias instituições de renome. A par do seu percurso académico, o artístico levou-a a tornar-se numa poeta que fez a ponte entre a antiguidade clássica e a modernidade e que pende entre o verso e a prosa, a linguagem poética e a ensaística.

Esta abordagem, assente no confronto de diferentes vozes e perspetivas, atravessa também obras como Economy of the Unlost (1999), em que cruza a obra do poeta grego Simónides de Ceos, do século VI a.C., e a do poeta Paul Celan, e Homens nas horas vagas (2000), em que estabelece relações entre Tucídides e Virginia Woolf.

A década de 1990 representou a sua consagração, primeiro com a publicação de Glass, Irony, and God (1995), que inclui The Glass Essay (O Ensaio de Vidro), um longo poema sobre a perda e o amor não correspondido, no qual a história de uma mulher abandonada pelo marido se cruza com a vida e a obra de Emily Brontë. Perto da viragem do milénio, em 1998, lançou Autobiography of Red: A Novel in Verse, frequentemente apontado como uma das suas obras mais importantes, na qual recupera o mito grego de Gérion, o monstro morto por Héracles, transformando-o numa personagem sensível que vive uma história de amor com o herói que acabará por destruí-lo.

Seguiu-se The Beauty of the Husband: A Fictional Essay in 29 Tangos (2001), obra que relata uma relação conjugal marcada pela mentira e pelo conflito, estruturada em 29 episódios que começam com versos do poeta romântico John Keats. Em Nox (2010), Carson homenageia o irmão Michael, que morreu na Dinamarca em 2000, através de uma obra que combina fotografias, cartas e textos, apresentada numa caixa com páginas desdobráveis em acordeão. O livro inclui ainda uma tradução da elegia 101 do poeta romano Catulo, também dedicada à morte de um irmão.

Entre as obras mais recentes encontram-se Float (2016), composta por 22 pequenos livros sobre diferentes temas que podem ser lidos por qualquer ordem, e Wrong Norma (2024), que reúne textos de diferentes géneros e explora as relações entre literatura, artes e outras disciplinas.

Desde a década de 1990, a escritora tem desenvolvido também colaborações com artistas plásticos, coreógrafos e encenadores de ópera e teatro, num percurso marcado pela experimentação formal e pela transposição das fronteiras entre géneros literários e artísticos.

É ainda de suma importância o seu trabalho como tradutora do grego clássico. Nesse domínio, destacam-se If Not, Winter (2002), uma interpretação dos fragmentos poéticos de Safo, e tragédias como Electra (2001) e Antígona (2015), de Sófocles, e Bakkhai (2015), de Eurípides, todas elas consideradas obras autónomas.

O Grupo Almedina, que detém a chancela Edições 70, reagiu em comunicado à conquista do Nobel por Anne Carson, recordando a sua edição em Portugal de Eros, Amargo e Doce, “a primeira e uma das suas obras mais conhecidas”. “Desde a sua publicação, esta meditação lírica sobre o amor na literatura e na filosofia da Grécia Antiga foi acolhida com inusitado entusiasmo por um público invulgarmente vasto, incluindo classicistas, ensaístas, poetas e leitores em geral”, afirma a nota.

*com Lusa