A poetisa, ensaísta, tradutora e classicista Anne Carson é a vencedora do Prémio Nobel da Literatura 2026. O anúncio, feito pela Academia Sueca esta quinta-feira numa conferência de imprensa transmitida a partir de Estocolmo, justificou a escolha pela sua “obra ousada e criativa que, num diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”.
A escritora de 76 anos sucede assim ao húngaro László Krasznahorkai, que venceu em 2025, e é a terceira autora canadiana a ser laureada após Alice Munro, em 2013, e Saul Bellow, em 1976 (sendo que o autor de Herzog acumulava nacionalidade norte-americana). Há muito cogitada para receber este prémio, era a principal favorita a vencer este ano para a casa de apostas Bethard, suplantando outros candidatos como Can Xue, Gerald Murnane, Amitav Ghosh, César Aira, Cristina Rivera Garza, Thomas Pynchon e Jamaica Kincaid.
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The 2026 #NobelPrize in Literature is awarded to the Canadian author Anne Carson, “for her bold and inventive oeuvre that, in playful dialogue with the classical tradition, has created new forms for contemporary literature.” pic.twitter.com/YRvlRghlGG— The Nobel Prize (@NobelPrize) October 8, 2026
“Ao longo de toda a sua carreira, Anne Carson conciliou a escrita de poesia com o trabalho de tradução e o ensino em várias universidades. Quase toda a sua produção literária se tem centrado no cruzamento entre a obsessão do filólogo pelas palavras e o desejo do poeta de encontrar novos significados. A própria autora identificou a etimologia das palavras como o ponto de partida de toda a sua obra”, destacou a academia.
Ingrid Carlberg, a secretária permanente da Academia Sueca, revelou que já falou ao telefone com a escritora laureada, que foi “apanhada de surpresa” pela notícia na Islândia, onde se encontra, e que se mostrou muito feliz.
Just in!
New Nobel Prize laureate in literature Anne Carson stands surprised in her kitchen in Reykjavík, Iceland. Stay tuned for our exclusive interview with her coming soon.
Join us in congratulating our 2026 literature laureate – send your greetings in the comments. pic.twitter.com/vateXOOBMp
— The Nobel Prize (@NobelPrize) October 8, 2026
“Não tivemos muito tempo para conversar e tudo o que teve tempo de me dizer foi que, neste momento, está na Islândia a ouvir o vento”, acrescentou.
Por seu lado, o presidente do Comité Nobel da Literatura, Anders Olsson, destacou a forma como a escritora cruza a tradição clássica com autores modernos, criando obras que ultrapassam as fronteiras entre a poesia, os géneros literários e outras formas de expressão artística, destacando que quase toda a produção literária de Anne Carson se situa no cruzamento entre a obsessão do filólogo pelas palavras e o desejo do poeta de encontrar novos significados.
Uma das mais prestigiadas poetisas e intelectuais do nosso tempo, Anne Carson já tinha sido contemplada com inúmeros prémios antes de ser laureada pela Academia Sueca. Entre um vasto rol de distinções, destacam-se o T. S. Eliot Prize em 2001 por A Beleza do Marido, o PEN Award for Poetry in Translation em 2010 por An Oresteia, o Prémio Princesa das Astúrias das Letras pelo conjunto da sua obra em 2020 e o prémio de carreira PEN/Nabokov Award em 2021.
https://observador.pt/2020/06/18/canadiana-anne-carson-vence-premio-princesa-das-asturias-das-letras/
Apesar de Anne Carson se ter tornado numa figura de renome internacional já na viragem do milénio, seria preciso esperar até 2017 até que a sua obra, por fim, fosse traduzida em Portugal. Essa lacuna foi preenchida pela editora independente não (edições), que publicou um dos seus mais celebrados trabalhos, o romance em verso Autobiografia do vermelho, numa tradução de Ricardo Marques e do próprio editor da não, João Concha.
Esta editora trataria então de ir disponibilizando várias outras obras poéticas e ensaísticas de Carson, como A Beleza do Marido, Vidro, Ironia e Deus, Águalisa e Homens nas Horas Vagas. Entretanto, a Companhia das Ilhas editou em 2023 Antigotriz — adaptação traduzida do grego antigo da peça Antígona, de Sófocles, levada a cena pelo Teatro da Rainha — e a Edições 70 disponibilizou em 2024 um dos seus mais afamados ensaios, Eros, Amargo e Doce. Publicado em 1986, este é o primeiro livro de Anne Carson, onde a autora explora a conceção do amor na poesia de Safo, marcada pela coexistência da dor e do prazer. Não só foi o trabalho que lançou as bases da sua obra posterior como foi considerado um dos cem melhores livros de não ficção de sempre pelos leitores da Modern Library.
https://observador.pt/2025/01/11/eros-amargo-e-doce-de-anne-carson-o-desconforto-do-amor/
Um percurso entre o passado e o presente
Nascida em 1950 em Toronto, Anne Carson viveu em várias cidades canadianas até voltar a fixar-se nesta metrópole junto à fronteira com os EUA. Foi aí, quando já estava no ensino secundário, que um professor de latim a introduziu ao universo da Grécia Antiga e lhe deu aulas particulares de grego antigo. Ao The New York Times, afirmaria em 2013 que simplesmente lhe pareceu “a melhor língua” para aprender.
Carson fez toda a sua formação superior na Universidade de Toronto — com uma passagem pela Universidade de St. Andrews, na Escócia —, doutorando-se em Estudos Clássicos em 1981 com uma tese intitulada “Odi et Amo Ergo Sum”. A partir daí, tornou-se numa professora de clássicos em várias instituições de renome. A par do seu percurso académico, o artístico levou-a a tornar-se numa poeta que fez a ponte entre a antiguidade clássica e a modernidade e que pende entre o verso e a prosa, a linguagem poética e a ensaística.
Esta abordagem, assente no confronto de diferentes vozes e perspetivas, atravessa também obras como Economy of the Unlost (1999), em que cruza a obra do poeta grego Simónides de Ceos, do século VI a.C., e a do poeta Paul Celan, e Homens nas horas vagas (2000), em que estabelece relações entre Tucídides e Virginia Woolf.
A década de 1990 representou a sua consagração, primeiro com a publicação de Glass, Irony, and God (1995), que inclui The Glass Essay (O Ensaio de Vidro), um longo poema sobre a perda e o amor não correspondido, no qual a história de uma mulher abandonada pelo marido se cruza com a vida e a obra de Emily Brontë. Perto da viragem do milénio, em 1998, lançou Autobiography of Red: A Novel in Verse, frequentemente apontado como uma das suas obras mais importantes, na qual recupera o mito grego de Gérion, o monstro morto por Héracles, transformando-o numa personagem sensível que vive uma história de amor com o herói que acabará por destruí-lo.
Seguiu-se The Beauty of the Husband: A Fictional Essay in 29 Tangos (2001), obra que relata uma relação conjugal marcada pela mentira e pelo conflito, estruturada em 29 episódios que começam com versos do poeta romântico John Keats. Em Nox (2010), Carson homenageia o irmão Michael, que morreu na Dinamarca em 2000, através de uma obra que combina fotografias, cartas e textos, apresentada numa caixa com páginas desdobráveis em acordeão. O livro inclui ainda uma tradução da elegia 101 do poeta romano Catulo, também dedicada à morte de um irmão.
Entre as obras mais recentes encontram-se Float (2016), composta por 22 pequenos livros sobre diferentes temas que podem ser lidos por qualquer ordem, e Wrong Norma (2024), que reúne textos de diferentes géneros e explora as relações entre literatura, artes e outras disciplinas.
Desde a década de 1990, a escritora tem desenvolvido também colaborações com artistas plásticos, coreógrafos e encenadores de ópera e teatro, num percurso marcado pela experimentação formal e pela transposição das fronteiras entre géneros literários e artísticos.
É ainda de suma importância o seu trabalho como tradutora do grego clássico. Nesse domínio, destacam-se If Not, Winter (2002), uma interpretação dos fragmentos poéticos de Safo, e tragédias como Electra (2001) e Antígona (2015), de Sófocles, e Bakkhai (2015), de Eurípides, todas elas consideradas obras autónomas.
O Grupo Almedina, que detém a chancela Edições 70, reagiu em comunicado à conquista do Nobel por Anne Carson, recordando a sua edição em Portugal de Eros, Amargo e Doce, “a primeira e uma das suas obras mais conhecidas”. “Desde a sua publicação, esta meditação lírica sobre o amor na literatura e na filosofia da Grécia Antiga foi acolhida com inusitado entusiasmo por um público invulgarmente vasto, incluindo classicistas, ensaístas, poetas e leitores em geral”, afirma a nota.
*com Lusa