Corria o ano de 1974 e Willy Brandt cumpria o segundo mandato à frente do governo da República Federal da Alemanha, quando, no final de abril, uma revelação inesperada pôs um ponto final na sua carreira como chanceler: Günter Guillaume, um dos assistentes pessoais de Brandt, fora detido e estava acusado de traição. Guillaume, descobriram os serviços de informações da Alemanha Ocidental, era um agente infiltrado das secretas da República Democrática da Alemanha.
Passados 52 anos, a Alemanha vê-se agora a braços com o maior escândalo de espionagem desde o “Caso Guillaume”. Na passada terça-feira, poucos minutos antes das 9h, a polícia federal deteve August Hanning, de 80 anos, na sua casa em Münster, por suspeitas de “espionagem, recolha de segredos de Estado e tentativa de traição”. August Hanning foi, entre 1998 e 2005, o diretor do Serviço Federal de Informações (BND, na sigla em alemão).

As revelações seriam graves em qualquer altura, mas chegaram no “pior momento possível”, argumentou o cientista político Frank Umbach à WDR, canal regional da emissora pública ARD. No mês passado, o Governo de Friedrich Merz avançou com um projeto de lei para reforçar os poderes do BND, de forma a fazer frente à crescente ameaça da guerra híbrida da Rússia. O “caso Hanning” é, portanto, um duro golpe numa agência já fragilizada e à procura de reforma e pode colocar em risco os esforços de Berlim, numa altura em que o Executivo de Merz se encontra já debaixo de fogo.
https://observador.pt/especiais/ciberataques-drones-e-sabotagem-a-guerra-hibrida-da-russia-contra-a-europa/
O chefe de gabinete, o cliente azeri e o aconselhamento no setor privado
Hanning liderou as secretas alemãs entre 1998 e 2005, mas os crimes de que está acusado pela procuradoria-geral remontam aos anos entre 2012 e, pelo menos, 2022, período durante o qual Hanning terá obtido de um funcionário do BND milhares de documentos confidenciais. O funcionário, identificado pelos procuradores como Manfred D., foi chefe de gabinete de Hanning enquanto este foi diretor da agência e regressou depois ao cargo em março de 2012, até à sua reforma em março de 2026.
Os documentos a que Hanning teve acesso faziam parte de materiais utilizados no “chamado briefing da situação das secretas“. Trata-se de uma reunião semanal, em que a direção dos serviços de informações e de segurança da Alemanha apresenta ao Governo um ponto de situação sobre desenvolvimentos geopolíticos e o seu impacto e possíveis ameaças. A procuradoria não detalhou o conteúdo dos mais de dois mil documentos vazados, mas a imprensa alemã detalha que continham relatórios sobre o programa nuclear do Irão e os avanços militares e desenvolvimentos tecnológicos das Forças Armadas Russas.

As autoridades também não revelaram a quem é que Hanning terá passado a informação, escrevendo apenas que o antigo diretor a “utilizou para beneficiar enquanto consultor privado”, mais especificamente “para criar uma avaliação para um funcionário de um serviço de informações estrangeiro”. A Der Spiegel detalhou, citando fontes com conhecimento da investigação, que o cliente de Hanning trabalharia para os serviços secretos do Azerbaijão. É do conhecimento público que Hanning mantém relações com o país, através do Fórum Alemanha-Azerbaijão ao qual preside. Ao jornal alemão, os advogados de Hanning, que ficou em prisão preventiva, rejeitaram todas as acusações.
A revelação voltou a colocar nos holofotes uma preocupação que uma comissão parlamentar já tinha tentado, sem sucesso, combater: o fenómeno das portas giratórias, em que antigos agentes e funcionários das agências de segurança enveredam por trabalhos no setor privado, levando consigo todos os conhecimentos internos da máquina de Berlim. Os limites das suas atividades no setor privado não estão legislados. Mais ainda, o caso reforça o escrutínio sobre o BND por comparação aos seus pares ocidentais.
Um serviço secreto “vegetariano” que Merz quer “revolucionar”
“O vegetariano dos serviços de informações“. A frase era utilizada por August Hanning durante a sua passagem pela liderança do BND para criticar a ação limitada dos serviços secretos alemães, por comparação aos “carnívoros” da CIA, da Mossad ou da DGSE francesa. Fundado em 1956 por Reinhard Gehlen, um general e espião do regime hitleriano, o BND tem poderes principalmente defensivos e de recolha de informação, mas não operacionais, limitações impostas à agência alemã no contexto do pós-II Guerra Mundial.
Durante a Guerra Fria, os seus conhecimentos sobre o leste da cortina de ferro alimentaram uma sólida reputação enquanto agência de espionagem — mesmo com um escândalo como o de Brandt —, mas o virar do século e a emergência de ameaças modernas revelaram-se obstáculos. Foi precisamente nesse período que Hanning liderou a agência e defendeu que esta tivesse um papel mais ativo, algo que nunca se concretizou.
“Durante duas décadas, estivemos a dormir ao volante, a pensar que vivemos em paz”, refletiu agora Marc Henrichmann, deputado da CDU que lidera a comissão parlamentar que supervisiona o trabalho das secretas. É precisamente esta realidade que o Governo conservador de Merz procura inverter com o projeto de lei aprovado no passado dia 12 de agosto. “Estamos a transformar os nossos serviços de informações num serviço de informações a sério”, exaltou à data o ministro da Administração Interna. Ao Bild, Alexander Dobrindt classificava o projeto de mais de 700 páginas como uma “revolução de segurança”.
“É mais do que tempo de nos posicionarmos em pé de igualdade com os nossos serviços parceiros no mundo inteiro. Isso requer capacidades operacionais e poderes ativos para fazer frente ao terrorismo moderno e a grupos extremistas de forma mais eficaz”, elaborou. Na prática, o Governo propõe permitir que as secretas passem a poder responder a ataques cibernéticos externos ou a lançar contra-ataques em que apagam ou manipulam dados — por exemplo, alterar planos para a construção de armas para que estas fiquem inoperacionais. O foco na realidade cibernética reflete a ameaça da guerra híbrida russa.

Além disso, os agentes poderiam também passar a utilizar armas em legítima defesa em mais cenários do que é atualmente permitido. Contudo, Berlim continua a não equacionar permitir aos agentes o uso de força letal pelos espiões no estrangeiro, uma limitação que não “incomoda” a ação dos restantes serviços ocidentais.
Reconquistar a confiança de eleitores e aliados. Um problema de Merz ou de Martin Jäger?
O “caso Hanning” pode ser o maior escândalo da espionagem alemã dos últimos 50 anos, mas está longe de ser o único. Nos últimos anos, foram vários os casos de agentes detidos por suspeitas de terem partilhado informações confidenciais. O mais recente desses casos foi o de “Carsten L“, um agente de alta patente do BND acusado, em dezembro de 2022, de ter passado informações confidenciais sobre as Forças Armadas ucranianas aos serviços secretos russos. O caso decorre agora num tribunal de Berlim.
Ainda antes de estes dois casos terem sido revelados, já os alemães tinham pouca confiança nos seus serviços secretos. Foi essa a conclusão de um estudo da Infratest em 2020, em que metade dos inquiridos disse ter “pouca a nenhuma confiança” no BND. A agência era a segunda instituição menos confiável, só à frente dos partidos políticos e atrás da polícia, do Presidente, dos tribunais e das instituições locais, entre outras.

O problema da falta de confiança não se impõe apenas na relação com os eleitores, mas com os aliados internacionais. “A única forma de ultrapassar isto é o BND tomar iniciativa, contribuir para a investigação e explicar de forma credível aos parceiros mais importantes o que pretende melhorar no futuro”, elaborou Arndt Freytag von Loringhoven à Der Spiegel. O antigo diretor-adjunto do BND, entre 2007 e 2010, classificou o caso como uma “bomba atómica” nos serviços secretos.
O desafio não é fácil e o atual diretor do BND está ciente disso. “Lançámos uma extensa investigação interna sem demoras, que corroborou as suspeitas. Para o BND e para mim, não pode haver cedências no que toca à segurança interna”, afirmou Martin Jäger, na reação à detenção. A dificuldade do momento atual também foi frisada pelo poder político. “No mundo dos serviços de informação, isto não fica pior. Os eleitores e os parceiros têm de confiar nos serviços e [a confiança] tem de ser restaurada urgentemente”, afirmou o deputado da CDU, Roderich Kiesewetter. Contudo, na bancada do partido do chanceler, as responsabilidades não recaem sobre o Governo, mas sobre a própria agência: “Jäger vai ter de fazer um bom bocado de diplomacia”, rematou o deputado.
Há 52 anos, um escândalo de espionagem fez cair o chanceler. O “caso Hanning” pode não ser tão grave, mas vários jornalistas que acompanham a política alemã não rejeitam a possibilidade de o cargo de Merz estar em risco: com o acumular de críticas e desafios ao Governo, qualquer novo obstáculo pode ser o golpe final que precipita a sua queda.